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| Macbeth:
magnífico cinema |
Macbeth
(Inglaterra, 1971. Columbia) Logo depois de fazer o terror O
Bebê de Rosemary e de perder a mulher grávida num assassinato
macabro, Roman Polanski escolheu rodar aquela que talvez seja a mais brutal
e inquietante das peças de William Shakespeare. Saiu-se com uma
adaptação que é um tributo não só à
obra do dramaturgo, mas também à possibilidade de transformar
grande teatro em magnífico cinema. Macbeth (Jon Finch) é
o nobre escocês que, impulsionado pela mulher (Francesca Annis),
trai a própria consciência e o seu rei, de quem é
favorito, na ânsia de tornar real a profecia de que ele vai ocupar
o trono. Desde a primeira cena, Polanski estabelece o tom do filme: um
contraste entre o realismo da encenação (esplendidamente
fotografada) e o clima de ambição e violência do qual
Macbeth é ao mesmo tempo fruto e propagador. Não menos importante,
o polonês Polanski demonstra ter um ouvido e tanto para os ritmos
do texto.
Duke
& Ella at Côte d'Azur, Duke Ellington & Ella Fitzgerald
(Versátil) Em 1966, esses dois grandes nomes do jazz americano
fizeram quatro apresentações em festivais de música
na Riviera Francesa. O encontro rendeu uma caixa de oito CDs, uma coletânea
dupla com os momentos mais faiscantes dos shows e este DVD. Faltam aqui
alguns números musicais antológicos (como, por exemplo,
a versão de Fitzgerald para Mack the Knife, de Bertolt Brecht
e Kurt Weill), mas em contrapartida há momentos raros de Duke Ellington.
Como um miniconcerto no Museu Picasso, em Antibes, que conta com figuração
do pintor espanhol Joan Miró. E não há nada mais
delicioso do que conferir a interpretação carregada de sotaque
de Ella Fitzgerald para Só Danço Samba (Samba Jazz),
de Tom Jobim.
LIVROS
Éden-Brasil,
de Moacyr Scliar (Companhia das Letras; 136 páginas; 22,50 reais)
Com a graça habitual, o escritor gaúcho conta a história
de um plano bem-intencionado que degringola numa falcatrua à moda
brasileira. Adamastor é um sujeito malsucedido nos negócios
e no amor que, graças a uma providencial herança, tenta
virar empresário. Resolve, então, criar um parque temático
no litoral de Santa Catarina, dedicado à causa nobre da preservação
ecológica. Quando o empreendimento começa a naufragar, ele
e um de seus empregados, o ator Rique, inventam uma maneira de atrair
investimentos estrangeiros aproveitando-se de um suspeitíssimo
sobrevivente indígena. A novela é juvenil, mas bastante
ácida e sem pregações. Leia
trechos do livro.
Sangue
Sábio, de Flannery O'Connor (tradução de
José Roberto O'Shea; Editora ARX; 227 páginas; 28 reais)
Uma das mais originais escritoras americanas do século XX,
Flannery O'Connor (1925-1964) ainda não recebeu no Brasil a atenção
necessária. Morta prematuramente, mesmo assim deixou contos e romances
comparáveis, em qualidade, aos de Ernest Hemingway e William Faulkner.
Sangue Sábio, relançado aqui depois de uma década
fora de catálogo, foi o primeiro livro da autora. Conta a história
de Hazel Motes, homem que se rebela contra a obsessão religiosa
de sua família, idealizando uma espécie de seita anticristã.
Flannery era católica diligente. Mas essa religiosidade se traduzia
de maneira perturbadora em seus escritos, freqüentemente brutais
e atravessados por um humor rascante. Como disse o crítico Harold
Bloom, seu objetivo era "utilizar a violência como meio de chocar
o leitor, despertando-o para a necessidade da fé". É útil
ter em mente esse viés religioso ao ler Flannery embora
ela não seja uma escritora que caiba em uma só moldura.
DISCOS
Maladroit,
Weezer (Universal) Rivers Cuomo, guitarrista, vocalista e principal
compositor do Weezer, é fascinado por aquele tipo que os americanos
definem como "loser" ou seja, perdedor. Os personagens de suas
canções estão sempre às voltas com fracassos
pessoais, profissionais e, acima de tudo, amorosos. Tudo temperado por
guitarras e bateria em alta combustão. Maladroit é
o quarto disco do grupo, surgido em meados da década passada em
Los Angeles, e o segundo depois do auto-exílio de Cuomo. Explicando
melhor: ele passou quatro anos longe dos holofotes porque cismou que tinha
perdido a inspiração e deveria seguir a carreira acadêmica.
O silêncio foi quebrado no ano passado, com o disco Weezer.
Em Maladroit, faixas como Dope Nose, Keep
Fishin' e Slave encontram o ponto exato de equilíbrio
entre a estranheza e o apelo pop.
Princípios
do Choro, vários intérpretes (Acari Records)
Organizada pelos instrumentistas Mauricio Carrilho e Luciana Rabello,
essa coleção é uma das mais ambiciosas obras de recuperação
das raízes da MPB. A dupla pesquisou 6.000 obras de compositores
nascidos entre 1830 e 1880. A compilação ilumina a maneira
como o choro evoluiu a partir de gêneros como o lundu e a polca.
Princípios do Choro reúne 215 canções
divididas em cinco CDs triplos e executadas pela nata da música
instrumental brasileira além de Carrilho ao violão
e Luciana ao cavaquinho, gente como o pianista Cristovão Bastos
e o saxofonista e clarinetista Nailor Proveta. Há obras de autores
consagrados, como Chiquinha Gonzaga (a linda Sonhando)
e Ernesto Nazareth (Garoto), além de raridades de Irineu
de Almeida (Aí, Morcego) ou Mondego (Aldyra).
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OS
MAIS VENDIDOS - CRÍTICA
Biografias
sobre astros de rock freqüentemente têm a estrutura de
histórias da carochinha. Os autores narram o árduo
caminho percorrido pelo popstar até o estrelato, povoando
a sua jornada de ogros e vilões tais como um pai violento
ou um empresário inescrupuloso. Mais Pesado que o Céu
Uma Biografia de Kurt Cobain (tradução
de Cid Knipel; Editora Globo; 450 páginas; 43 reais) foge
desse esquema. O autor, Charles Cross, não mitifica o Nirvana
e seu líder. O jornalista entrevistou mais de 400 pessoas
e teve acesso aos diários de Cobain. Pôde, assim, compor
um retrato fiel e fornecer pistas para compreender essa figura atormentada.
Cross
descobriu que muitas histórias envolvendo o Nirvana foram
inventadas pelo próprio Cobain. Ele adorava dizer que havia
morado embaixo de uma ponte durante a adolescência e que sofrera
abusos sexuais de uma gangue antes de se tornar astro do rock. Tudo
balela. Cross descreve com crueza as relações de Kurt
Cobain com a heroína (dá inclusive detalhes da droga
que ele consumiu no dia do suicídio) e com a mulher, Courtney
Love. Faltou apenas detalhar mais a turnê do Nirvana no Brasil,
em 1993. Ela foi uma das mais atribuladas do grupo e rendeu, na
opinião deles próprios, "o pior show de sua história".
Cross diz que, em São Paulo, o grupo foi alvejado por frutas
o que não ocorreu.
Sérgio
Martins
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