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Edição 1 756 - 19 de junho de 2002
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DVD

Macbeth: magnífico cinema

Macbeth (Inglaterra, 1971. Columbia) – Logo depois de fazer o terror O Bebê de Rosemary e de perder a mulher grávida num assassinato macabro, Roman Polanski escolheu rodar aquela que talvez seja a mais brutal e inquietante das peças de William Shakespeare. Saiu-se com uma adaptação que é um tributo não só à obra do dramaturgo, mas também à possibilidade de transformar grande teatro em magnífico cinema. Macbeth (Jon Finch) é o nobre escocês que, impulsionado pela mulher (Francesca Annis), trai a própria consciência e o seu rei, de quem é favorito, na ânsia de tornar real a profecia de que ele vai ocupar o trono. Desde a primeira cena, Polanski estabelece o tom do filme: um contraste entre o realismo da encenação (esplendidamente fotografada) e o clima de ambição e violência do qual Macbeth é ao mesmo tempo fruto e propagador. Não menos importante, o polonês Polanski demonstra ter um ouvido e tanto para os ritmos do texto.

Duke & Ella at Côte d'Azur, Duke Ellington & Ella Fitzgerald (Versátil) – Em 1966, esses dois grandes nomes do jazz americano fizeram quatro apresentações em festivais de música na Riviera Francesa. O encontro rendeu uma caixa de oito CDs, uma coletânea dupla com os momentos mais faiscantes dos shows e este DVD. Faltam aqui alguns números musicais antológicos (como, por exemplo, a versão de Fitzgerald para Mack the Knife, de Bertolt Brecht e Kurt Weill), mas em contrapartida há momentos raros de Duke Ellington. Como um miniconcerto no Museu Picasso, em Antibes, que conta com figuração do pintor espanhol Joan Miró. E não há nada mais delicioso do que conferir a interpretação carregada de sotaque de Ella Fitzgerald para Só Danço Samba (Samba Jazz), de Tom Jobim.

 

LIVROS

Éden-Brasil, de Moacyr Scliar (Companhia das Letras; 136 páginas; 22,50 reais) – Com a graça habitual, o escritor gaúcho conta a história de um plano bem-intencionado que degringola numa falcatrua à moda brasileira. Adamastor é um sujeito malsucedido nos negócios e no amor que, graças a uma providencial herança, tenta virar empresário. Resolve, então, criar um parque temático no litoral de Santa Catarina, dedicado à causa nobre da preservação ecológica. Quando o empreendimento começa a naufragar, ele e um de seus empregados, o ator Rique, inventam uma maneira de atrair investimentos estrangeiros aproveitando-se de um suspeitíssimo sobrevivente indígena. A novela é juvenil, mas bastante ácida – e sem pregações. Leia trechos do livro.

Sangue Sábio, de Flannery O'Connor (tradução de José Roberto O'Shea; Editora ARX; 227 páginas; 28 reais) – Uma das mais originais escritoras americanas do século XX, Flannery O'Connor (1925-1964) ainda não recebeu no Brasil a atenção necessária. Morta prematuramente, mesmo assim deixou contos e romances comparáveis, em qualidade, aos de Ernest Hemingway e William Faulkner. Sangue Sábio, relançado aqui depois de uma década fora de catálogo, foi o primeiro livro da autora. Conta a história de Hazel Motes, homem que se rebela contra a obsessão religiosa de sua família, idealizando uma espécie de seita anticristã. Flannery era católica diligente. Mas essa religiosidade se traduzia de maneira perturbadora em seus escritos, freqüentemente brutais e atravessados por um humor rascante. Como disse o crítico Harold Bloom, seu objetivo era "utilizar a violência como meio de chocar o leitor, despertando-o para a necessidade da fé". É útil ter em mente esse viés religioso ao ler Flannery – embora ela não seja uma escritora que caiba em uma só moldura.

 

DISCOS

Maladroit, Weezer (Universal) – Rivers Cuomo, guitarrista, vocalista e principal compositor do Weezer, é fascinado por aquele tipo que os americanos definem como "loser" – ou seja, perdedor. Os personagens de suas canções estão sempre às voltas com fracassos pessoais, profissionais e, acima de tudo, amorosos. Tudo temperado por guitarras e bateria em alta combustão. Maladroit é o quarto disco do grupo, surgido em meados da década passada em Los Angeles, e o segundo depois do auto-exílio de Cuomo. Explicando melhor: ele passou quatro anos longe dos holofotes porque cismou que tinha perdido a inspiração e deveria seguir a carreira acadêmica. O silêncio foi quebrado no ano passado, com o disco Weezer. Em Maladroit, faixas como Dope Nose, Keep Fishin' e Slave encontram o ponto exato de equilíbrio entre a estranheza e o apelo pop.

Princípios do Choro, vários intérpretes (Acari Records) – Organizada pelos instrumentistas Mauricio Carrilho e Luciana Rabello, essa coleção é uma das mais ambiciosas obras de recuperação das raízes da MPB. A dupla pesquisou 6.000 obras de compositores nascidos entre 1830 e 1880. A compilação ilumina a maneira como o choro evoluiu a partir de gêneros como o lundu e a polca. Princípios do Choro reúne 215 canções divididas em cinco CDs triplos e executadas pela nata da música instrumental brasileira – além de Carrilho ao violão e Luciana ao cavaquinho, gente como o pianista Cristovão Bastos e o saxofonista e clarinetista Nailor Proveta. Há obras de autores consagrados, como Chiquinha Gonzaga (a linda Sonhando) e Ernesto Nazareth (Garoto), além de raridades de Irineu de Almeida (Aí, Morcego) ou Mondego (Aldyra).

 

OS MAIS VENDIDOS - CRÍTICA

Biografias sobre astros de rock freqüentemente têm a estrutura de histórias da carochinha. Os autores narram o árduo caminho percorrido pelo popstar até o estrelato, povoando a sua jornada de ogros e vilões – tais como um pai violento ou um empresário inescrupuloso. Mais Pesado que o Céu – Uma Biografia de Kurt Cobain (tradução de Cid Knipel; Editora Globo; 450 páginas; 43 reais) foge desse esquema. O autor, Charles Cross, não mitifica o Nirvana e seu líder. O jornalista entrevistou mais de 400 pessoas e teve acesso aos diários de Cobain. Pôde, assim, compor um retrato fiel e fornecer pistas para compreender essa figura atormentada.

Cross descobriu que muitas histórias envolvendo o Nirvana foram inventadas pelo próprio Cobain. Ele adorava dizer que havia morado embaixo de uma ponte durante a adolescência e que sofrera abusos sexuais de uma gangue antes de se tornar astro do rock. Tudo balela. Cross descreve com crueza as relações de Kurt Cobain com a heroína (dá inclusive detalhes da droga que ele consumiu no dia do suicídio) e com a mulher, Courtney Love. Faltou apenas detalhar mais a turnê do Nirvana no Brasil, em 1993. Ela foi uma das mais atribuladas do grupo e rendeu, na opinião deles próprios, "o pior show de sua história". Cross diz que, em São Paulo, o grupo foi alvejado por frutas – o que não ocorreu.

Sérgio Martins

 

   
 



Fontes: São Paulo: Cultura, Fnac, Laselva, Livraria da Vila, Nobel, Saraiva, Siciliano; Rio: Laselva, Saraiva, Sodiler, Siciliano; Porto Alegre: Livraria Ed. Porto Alegre, Saraiva, Siciliano; Brasília: Leitura, Saraiva, Siciliano, Sodiler; Recife: Saraiva, Siciliano, Sodiler; Natal: Sodiler; Florianópolis: Siciliano; Goiânia: Siciliano; Fortaleza: Laselva, Siciliano; Salvador: Siciliano; Curitiba: Saraiva, Siciliano; Belo Horizonte: Leitura, Siciliano; Maceió: Sodiler.
   
 
   
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