| Fale conosco |
| Ajuda |
| Mapa do site |
![]() |
|
|
Crie seu grupo |
Guia de boa conduta dos candidatosUm
rol do que
eles devem
e não
Não, não há motivo para pânico. Calote é diminutivo de cala. Cala (palavra que tem calo como variante) é o talho que se faz numa fruta, ou queijo, para degustação do eventual comprador. Quando a cala é pequena, o que geralmente é o caso, pois nenhum vendedor deseja oferecer de graça porções grandes de seu produto, então é um calote. Ora, ocorre que muito comprador abocanhava (e abocanha ainda) a porção em oferta e não comprava o produto, o que resultava (e resulta) em prejuízo para o vendedor. O calote, portanto, antes de o uso popular inverter o sentido do termo, quem tomava era o vendedor, não o comprador. É nessa acepção que aqui se insta os candidatos a praticá-lo. Que eles, como vendedores (de um estilo, de um programa, de esperanças), ofereçam nacos de seus produtos, para degustação demorada dos compradores (os eleitores), sem necessariamente esperar recompensa. Que tirem o cavalo da chuva. Quando alguém chegava a cavalo em visita, de duas, uma: ou atrelava a montaria na própria cerca, sem maiores cuidados, ou, caso fosse demorar, fazia-o num canto ao abrigo da chuva ou do sol. Ocorria às vezes que o visitante pensava ficar pouco e atrelava o cavalo à cerca, mas a conversa acabava por revelar-se tão agradável e proveitosa que o anfitrião a certa altura afirmava: "Pode tirar o cavalo da chuva". Era um convite para ficar. Que os candidatos se revelem confiáveis, convincentes e agradáveis a ponto de se pedir que ponham a montaria ao abrigo das intempéries. Que todos (e não só José Serra) deixem de ser carcamanos. Carcamano, sinônimo pejorativo de italiano, tem origem no italiano macarrônico calca mano. O apelativo (ou insulto) era dedicado aos comerciantes italianos que, ao pesar o produto, emprestavam impulso extra à balança calcando-lhe a mão. Não é preciso dizer por que se espera que os candidatos não venham a merecer tal epíteto. Que não se atrevam a adotar comportamentos maneiros. O adjetivo maneiro em geral expressa atributos positivos. Se alguém é maneiro é porque é hábil, capaz, jeitoso. Se alguma coisa é maneira é porque é cômoda, prática, útil. Ocorre que a palavra vem do latim manuariu, que significa, sim, jeitoso, capaz, ágil com as mãos mas também, e por isso mesmo, ladrão. Não é necessário explicar por que os candidatos não devem sê-lo. Que façam gato-sopata dos ataques especulativos. Sopata? Não, não há erro de digitação. A expressão teria surgido da derrota imposta aos gatos pelos cachorros quando estes colocam aqueles sob a pata. Um gato sob a pata, ou, sinteticamente, sopata, é um gato maltratado, neutralizado, subjugado. O sapato que o senso (e o nonsense) popular pôs ao lado do gato na expressão se deve ao fato de sapato ser mais familiar e rimar com gato. Mas é mesmo sob a pata (do governo, do Ministério da Fazenda, do Banco Central) que se desejam mantidos os ataques especulativos. Que continuem chapas de seus chapas. Chapa, no sentido de amigo, camarada ("Fulano é meu chapa") vem de chapa no sentido de composição de nomes para concorrer unidos à eleição ("Ciro Gomes escolheu Paulinho para seu companheiro de chapa"). Num caso como no outro, chapa significa, idealmente, harmonia, solidariedade, identidade de idéias e de propósitos. Ocorre que, nas chapas eleitorais, a harmonia nem sempre é a regra. O presidente Fernando Henrique Cardoso não tem de que se queixar do vice, Marco Maciel. Mas não são infreqüentes, na história da República, os casos em que os vices se indispõem com os titulares, quando não rompem com eles, e se tornam pólos alternativos de poder (Getúlio-Café Filho, Jânio-Jango, Collor-Itamar, para citar uns poucos). Que não sejam traídos pela etimologia. Presidente e presídio ironia das ironias são palavras com origem comum. Presidente vem do latim praesidere, formado por prae (antes) e sidere (sentar-se, estabelecer-se). Praesidere por sua vez originou praesidiu, a força encarregada de proteger uma fortaleza. Mais adiante praesidiu passou a designar a própria fortaleza e, por extensão, cárcere. Que um candidato, ao almejar a primeira das palavras de raiz comum, não venha a acabar merecedor da segunda.
As
explicações sobre a origem das palavras e expressões
aqui reproduzidas foram tiradas de um livro que acaba de ser lançado
A Casa da Mãe Joana, de autoria do advogado e professor
Reinaldo Pimenta (Editora Campus). O livro traz, como subtítulo,
Curiosidades nas Origens das Palavras, Frases e Marcas, e é
uma delícia de leitura. O autor é não só competente
colecionador de curiosidades. Também escreve com graça e
humor afiado. Algumas das etimologias apresentadas são duvidosas,
como as aqui expostas para "calote" e "carcamano", mas releve-se: não
se trata de livro científico. Ah sim... E, como promete o título,
o autor explica quem é a Mãe Joana, e onde ficava a sua
casa.
|
|
|
|