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Edição 1 756 - 19 de junho de 2002
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Futebol emburrece

"Fui obrigado a torcer contra o Brasil,
já que pedi a cabeça do treinador.
Não me importa perder a Copa.
O que não quero é perder a razão"

Se eu fosse o roqueiro Ozzy Osbourne e minha vida se transformasse num reality show, com câmaras espalhadas por todos os cantos da casa, os telespectadores me veriam o tempo inteiro deitado no sofá, imóvel, na frente da TV, assistindo a seis ou sete horas diárias de Copa do Mundo. Futebol é a coisa mais estupidificante que existe. Outro dia, acompanhei com imenso interesse uma reportagem sobre a água benta que o técnico italiano derramou antes de Totti cobrar uma falta, mas mudei de canal assim que o noticiário começou a tratar de assuntos desimportantes, como a bomba radioativa que os terroristas planejavam explodir em Washington.

O pior é que, nesta Copa do Mundo, eu nem tenho um time preferido. Em geral, escolho-o no decorrer do jogo. Até já aconteceu de começar torcendo para um time e, no intervalo, virar a casaca e passar a torcer para o outro. Por puro sentimento de inferioridade latino-americano, torci rumorosamente contra os Estados Unidos e a França. A Itália contou com a minha simpatia, por ser o país natal de meu filho. O patriotismo me levou a torcer pela pobre Argentina. Não que a Argentina seja a minha pátria, mas ela é mais próxima de mim do que, por exemplo, a Suécia ou o Piauí. Quanto ao Brasil, fui obrigado a torcer contra, já que pedi, repetidas vezes, a cabeça do treinador. Não me importa perder a Copa do Mundo. O que eu não quero é não ter razão.

Voltando a Ozzy Osbourne, li que o licenciamento de mercadorias associado ao seu reality show irá render neste ano cerca de 200 milhões de dólares. O licenciamento inclui ursos de pelúcia falantes, coleiras para cachorro e camisetas com mensagens profanas. Você pode achar tudo isso meio deprimente, mas Ozzy Osbourne, dos roqueiros do passado, é o que soube envelhecer com mais dignidade. Bem pior do que ele é Mick Jagger, que será condecorado pela rainha Elizabeth II, ou Ringo Starr, que recitou um poema para o noivo Paul McCartney, ou Peter Gabriel, que comemorou seu mais recente casamento soltando uma pomba branca. Nada mais kitsch do que um velho roqueiro tentando recomeçar a vida. Acho que eles deveriam ser isolados depois de certa idade.

Em matéria de reality shows, minha experiência se resume a uns dez minutos de Big Brother e mais uns dez minutos de Casa dos Artistas. Neste segundo caso, pude observar os artistas enquanto se fantasiavam de pirata, de gladiador, de odalisca e se exibiam alegremente diante das câmaras. Quem também fazia isso era outro artista, um dos maiores de todos os tempos, o pintor holandês Rembrandt: fantasiava-se com chapéus emplumados, casacos de pele e brincos na orelha. A seguir, posava diante do espelho e pintava auto-retratos. Da mesma maneira que Ozzy Osbourne, muitas vezes ele envolvia a família nessa história, pintando o retrato de seu filho, de sua nora, de seu pai, igualmente fantasiados.

Perguntaram ao historiador inglês Simon Schama em que lugar ele gostaria de viver, se pudesse voltar no tempo. Ele escolheu Amsterdã, em 1660: "O melhor pão, os melhores quadros, sem reis, sem guerras, sem bispos e, nas redondezas, Rembrandt". Entre o Rembrandt original e seus arremedos do século XXI, eu também fico com o original. Por favor, levem-me para Amsterdã, em 1660.

 
 
   
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