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Futebol
emburrece
"Fui
obrigado a torcer
contra o Brasil,
já que pedi a cabeça do treinador.
Não me importa perder a Copa.
O
que não quero é perder a razão"
Se eu fosse o roqueiro Ozzy Osbourne e minha vida se transformasse num
reality show, com câmaras espalhadas por todos os cantos
da casa, os telespectadores me veriam o tempo inteiro deitado no sofá,
imóvel, na frente da TV, assistindo a seis ou sete horas diárias
de Copa do Mundo. Futebol é a coisa mais estupidificante que existe.
Outro dia, acompanhei com imenso interesse uma reportagem sobre a água
benta que o técnico italiano derramou antes de Totti cobrar uma
falta, mas mudei de canal assim que o noticiário começou
a tratar de assuntos desimportantes, como a bomba radioativa que os terroristas
planejavam explodir em Washington.
O pior é que, nesta Copa do Mundo, eu nem tenho um time preferido.
Em geral, escolho-o no decorrer do jogo. Até já aconteceu
de começar torcendo para um time e, no intervalo, virar a casaca
e passar a torcer para o outro. Por puro sentimento de inferioridade latino-americano,
torci rumorosamente contra os Estados Unidos e a França. A Itália
contou com a minha simpatia, por ser o país natal de meu filho.
O patriotismo me levou a torcer pela pobre Argentina. Não que a
Argentina seja a minha pátria, mas ela é mais próxima
de mim do que, por exemplo, a Suécia ou o Piauí. Quanto
ao Brasil, fui obrigado a torcer contra, já que pedi, repetidas
vezes, a cabeça do treinador. Não me importa perder a Copa
do Mundo. O que eu não quero é não ter razão.
Voltando a Ozzy Osbourne, li que o licenciamento de mercadorias associado
ao seu reality show irá render neste ano cerca de 200 milhões
de dólares. O licenciamento inclui ursos de pelúcia falantes,
coleiras para cachorro e camisetas com mensagens profanas. Você
pode achar tudo isso meio deprimente, mas Ozzy Osbourne, dos roqueiros
do passado, é o que soube envelhecer com mais dignidade. Bem pior
do que ele é Mick Jagger, que será condecorado pela rainha
Elizabeth II, ou Ringo Starr, que recitou um poema para o noivo Paul McCartney,
ou Peter Gabriel, que comemorou seu mais recente casamento soltando uma
pomba branca. Nada mais kitsch do que um velho roqueiro tentando recomeçar
a vida. Acho que eles deveriam ser isolados depois de certa idade.
Em matéria de reality shows, minha experiência se
resume a uns dez minutos de Big Brother e mais uns dez minutos
de Casa dos Artistas. Neste segundo caso, pude observar os artistas
enquanto se fantasiavam de pirata, de gladiador, de odalisca e se exibiam
alegremente diante das câmaras. Quem também fazia isso era
outro artista, um dos maiores de todos os tempos, o pintor holandês
Rembrandt: fantasiava-se com chapéus emplumados, casacos de pele
e brincos na orelha. A seguir, posava diante do espelho e pintava auto-retratos.
Da mesma maneira que Ozzy Osbourne, muitas vezes ele envolvia a família
nessa história, pintando o retrato de seu filho, de sua nora, de
seu pai, igualmente fantasiados.
Perguntaram ao historiador inglês Simon Schama em que lugar ele
gostaria de viver, se pudesse voltar no tempo. Ele escolheu Amsterdã,
em 1660: "O melhor pão, os melhores quadros, sem reis, sem guerras,
sem bispos e, nas redondezas, Rembrandt". Entre o Rembrandt original e
seus arremedos do século XXI, eu também fico com o original.
Por favor, levem-me para Amsterdã, em 1660.
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