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Edição 1 756 - 19 de junho de 2002
Entrevista: Nigel Travis

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Queremos fantasia

Executivo da Blockbuster diz que os
filmes funcionam como uma espécie
de terapia para as pessoas fugirem
da realidade violenta

Monica Weinberg

 
Divulgação

"No mundo todo as pessoas amam o universo paralelo e mágico produzido em Hollywood"

Depois dos atentados às torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York, o aluguel de fitas nas locadoras de vídeo explodiu. Quando uma manchete ruim aparece estampada num jornal brasileiro, as pessoas vão pegar um filme açucarado para assistir no conforto de casa. Os asiáticos preferem as tramas de ação a qualquer outro gênero. Essas são constatações do inglês Nigel Travis, o principal executivo da Blockbuster, a maior rede de locação de fitas no mundo, esparramada por 26 países. Nesta quinta-feira, Travis vem pela primeira vez ao Brasil inaugurar a loja número 8.000 da rede, que fica em São Paulo. Aos 52 anos, formado em administração de empresas, foi executivo na Rolls-Royce e na Burger King até ingressar no negócio de filmes, oito anos atrás. Cinéfilo, ele adora as produções inglesas e perdeu a conta de quantas vezes assistiu a Quatro Casamentos e Um Funeral. De Nova York, ele deu a seguinte entrevista a VEJA.

Veja – Uma crítica freqüente no mercado de cinema é que Hollywood impõe um padrão de filme aos espectadores. Até onde essa crítica procede?
Travis – As coisas no mundo do cinema não funcionam dessa forma. A indústria vem aprendendo a colocar o espectador, que é o cliente em questão, no centro das grandes decisões. Um produtor só faz mais um filme de ação porque sabe que as pessoas estão ávidas por esse tipo de entretenimento. Hoje, um homem de negócios na área de lazer precisa deter informações sobre a sociedade que pretende entreter. Sabe-se quanto um cliente pode gastar nas horas livres, o tempo de que ele dispõe para o lazer, se assiste aos filmes com a família e até se prefere pipoca doce à salgada. É por isso, tentando agradar ao consumidor e superar a expectativa de quem vai ao cinema, que os estúdios investem pesado em tecnologia e as salas de exibição estão cada vez mais confortáveis.

Veja – E qual é o tipo de filme que as pessoas querem hoje?
Travis – As pessoas adoram ser transportadas para realidades paralelas e mágicas, cheias de fantasias e idealizações. Elas gostam de finais felizes, filmes açucarados e muita ação no mundo todo. Nesse ponto, a indústria de Hollywood é a que dá com mais eficiência o que o público quer. E os números mostram isso com clareza. O sucesso de Harry Potter é emblemático. Mais de 200 milhões de clientes no mundo todo já alugaram uma cópia, e esse número não pára de crescer. Isso sem contar o desempenho extraordinário dos livros protagonizados pelo personagem e os brinquedinhos temáticos que não esquentam nas prateleiras. Por quê? Porque Harry Potter promove uma deliciosa viagem a uma realidade encantada. O que as pessoas querem é escapar de suas rotinas massacrantes, que muitas vezes as incomodam e angustiam. Isso ficou claro após o atentado às torres gêmeas.

Veja – Como?
Travis – Depois dos ataques ao World Trade Center, em setembro passado, nossas vendas aumentaram para valer. As pessoas queriam esquecer a tragédia e alugaram filmes com mensagens positivas com esse objetivo. Outro caso pode ser conferido na Irlanda, um país mergulhado em eterno conflito sangrento. Ali temos um de nossos melhores desempenhos dentre os 26 países em que atuamos. No Brasil, quando uma má notícia aparece no jornal, como o tiroteio em uma favela ou um assassinato cruel, também verificamos que as vendas crescem. Há uma conexão clara entre manchetes ruins sobre economia, política e sociedade e a procura por lazer. O negócio de filmes em casa leva dupla vantagem numa situação adversa porque dá asas à fuga da realidade e, ao mesmo tempo, proporciona diversão na segurança do lar. Em tempos de noticiário ruim, é o que as pessoas mais querem nas horas livres.

Veja – E quando as pessoas estão felizes e otimistas?
Travis – As pesquisas mostram que o entretenimento fica forte quando a situação é ruim, mas também cresce em épocas de euforia. Essa é a grande vantagem da indústria do lazer. Ela serve à alegria e à tristeza e consegue sobreviver durante as crises econômicas e políticas que atingem em cheio outros segmentos. Um aspecto importante é que, mesmo quando as pessoas têm menos dinheiro no bolso, elas sempre vão encontrar uma opção de lazer adequada à sua situação. A sofisticação do entretenimento criou alternativas para qualquer tipo de consumidor. Num país mais pobre, como o Brasil, alugar um filme custa em média 5 reais e diverte uma família de pelo menos quatro pessoas.

Veja – O gosto das pessoas por filmes é parecido no mundo todo?
Travis – É. Sabemos que, independentemente do país de origem, elas adoram filmes e, mais que isso, gostam de Hollywood. Mas o paladar também tem nuances de acordo com a cultura. Os latinos têm uma queda por filmes dramáticos. Na Ásia, as tramas de ação fazem mais sucesso. Aí não basta ter uma oferta restrita a Hollywood, embora ela responda a uma parte essencial da demanda de nossos clientes. Percebemos que as pessoas valorizam, e muito, os filmes nacionais. Os brasileiros alçaram o seu Central do Brasil ao ranking dos mais procurados durante várias semanas. Na Inglaterra, as produções Quatro Casamentos e Um Funeral e O Diário de Bridget Jones foram um estrondo. E os asiáticos vêem e apreciam muito as fitas de ação produzidas na Ásia. Isso mostra que, apesar do poder de Hollywood, temos uma saudável diversidade de gostos. É importante perceber as nuances, pois falamos de um mercado que, só nos Estados Unidos, movimenta por ano mais do que o setor de saúde e o de vestuário.

Veja – Cinema e locação de filmes rendem tudo isso?
Travis – A estimativa com que trabalhamos é de 700 bilhões de dólares no mundo inteiro. Esse valor se refere a todo o dinheiro movimentado em um ano pela indústria de cinema, vídeo e games até revistas e internet. E sabemos que qualquer um dos ingredientes do pacote tem potencial para crescer. Olhe o mercado de games, por exemplo. Nos Estados Unidos ele representa 10% de nosso faturamento, e esperamos que no fim do ano chegue a 20%. No mundo, a expectativa é que a venda e o aluguel desses jogos eletrônicos pulem de 8 bilhões para 20 bilhões de dólares até o término de 2003.

Veja – Por que os jogos fazem tanto sucesso?
Travis – Porque dão às pessoas a chance de sentir que controlam a realidade. A tecnologia avançou tanto que não é preciso mais se esforçar para mergulhar no sonho. Os jogos são tecnicamente tão perfeitos que você pode jogar futebol em qualquer lugar do mundo e reproduzir um estádio exatamente como ele é. Há jogos em que se imita até a realidade do espectador no estádio. O número de cadeiras e até o saco de pipoca são idênticos aos da vida real. O jogador pode sentir o prazer de ser um Pelé, no Brasil, ou um Shaquille O'Neal, nos Estados Unidos. E o melhor: vencer. Quem não quer embarcar na fantasia de tornar-se uma celebridade mundial? A grande sacada aí é que se vai a um mundo próximo do real, mas que é sempre da maneira que o dono do controle quer que seja. Os jogos satisfazem a ilusão da realidade controlada. E estou certo de que as pessoas não vão parar de alugar filmes ou ir ao cinema porque estão jogando mais games. A lição que a indústria do lazer está ensinando a quem vive dela é que os consumidores dificilmente trocam uma forma de entretenimento por outra. Eles vão é somando os brinquedinhos.

Veja – Em quanto tempo o videocassete vai desaparecer?
Travis – Isso ainda vai demorar muito a acontecer. O que percebemos é que as pessoas não querem descartar as antigas máquinas. A experiência da vitrola, substituída pelo aparelho de CD, mostrou que é preciso muito tempo mesmo para alguém colocar um bem desse tipo na lata do lixo. Só nos Estados Unidos são 19 milhões de videocassetes totalmente na ativa. As pesquisas que realizamos mostram dois movimentos. O primeiro confirma de fato a expansão do DVD. Nos Estados Unidos, ele representa cerca de 30% de nossos negócios de locação e venda de fitas. No Brasil, como temos uma clientela muito mais concentrada nas faixas de renda mais altas, essa fatia é maior ainda: a metade dos clientes já prefere o DVD. O segundo movimento que observamos é que os clientes não deixaram de alugar fitas para o videocassete. Os adultos em geral retiram DVDs para si e cópias de vídeo para as crianças. Um aparelho fica num quarto e o outro na sala. Isso quer dizer que hoje temos mais chances de fazer negócio do que antes do advento do DVD.

Veja – Há experiências com novas tecnologias para permitir que as pessoas aluguem filmes. Uma delas possibilita que o título seja selecionado diretamente de um cardápio na tela da televisão. Essa não é uma ameaça ao negócio de locação?
Travis – Em primeiro lugar, acho que ainda vai demorar muito para a tecnologia virar uma realidade para o consumidor. Isso porque há um encantamento generalizado com o DVD e porque não há interesse dos grandes estúdios cinematográficos. Eles não podem prescindir do lucro que vem do aluguel e da venda dos filmes que produzem. Cada fita vendida rende 14 dólares ao estúdio que nela investiu. Uma transação realizada via televisão, nos moldes da nova tecnologia, daria lucro equivalente a um quinto do atual.

Veja – E se a nova tecnologia virar de fato uma realidade?
Travis – Mesmo que se torne real no futuro, acredito que a locação de filmes continuará de pé. A explicação é simples. Quando uma pessoa sai de casa para alugar um filme, ela quer mais que uma fita para ver em casa. Quer manusear as caixinhas dos filmes, quer comprar uma pipoca, dar um balão para o filho. E tudo isso uma videolocadora reúne hoje. É esse o conceito de entretenimento moderno. Tudo, ao mesmo tempo, à disposição do cliente. Na Itália, nós colocamos pizza congelada à venda porque queremos ser lembrados também por isso. A idéia é oferecer um lugar onde a escolha esteja disponível e que transforme uma estada sem graça em casa numa coisa especial. Da mesma forma, ninguém deixa de assistir a um bom filme no cinema para vê-lo em casa. São mercados diferentes.

Veja – O vídeo então não compete com o cinema?
Travis – De jeito nenhum. Eles são absolutamente complementares. Quando uma fita como Titanic ou O Senhor dos Anéis faz sucesso fragoroso no cinema, sabemos que daqui a seis meses vamos alugar e vender as cópias como água. Festejamos se uma bilheteria fatura centenas de milhões de dólares porque também saborearemos parte disso mais tarde. Isso porque, quando uma pessoa gosta de um filme, as chances de ela comprar uma cópia crescem muito. E mais: seis de cada dez pessoas que alugam uma cópia já a viram pelo menos uma vez no cinema. Há também filmes que passam em branco nas telas de cinema porque, por azar, foram lançados no mesmo período de um estrondo como Guerra nas Estrelas. Como resultado, ficaram ofuscados. Eles fracassaram no circuito cinematográfico, mas quando chegam às prateleiras todo mundo quer ver. Ganhamos ainda com o movimento mundial estudado amplamente pelos sociólogos e apelidado de cocoon (casulo, em inglês). É a tendência moderna de as pessoas se fecharem em casa ao lado dos familiares.

Veja – É um fator que afeta positivamente o lazer em casa no mundo todo?
Travis – Sim. É uma tendência bem clara entre as famílias ocidentais. Eu trabalhava na rede de hambúrgueres Burger King quando uma socióloga alertou a diretoria de que o novo século seria o dos cocooners, aquelas pessoas cujo maior divertimento é permanecer nas conchas de suas residências, junto de seus entes queridos. A pesquisadora disse que essa seria a maior de todas as influências na sociedade e que qualquer investidor deveria estar atento ao fenômeno. Isso foi em 1990. De lá para cá, só vi a onda crescer, gradativamente. Quanto mais as pessoas trabalham, mais elas desejam gastar o restante do tempo de que dispõem com os filhos e o cônjuge no conforto de casa. É uma tendência que corre paralela ao anseio por segurança.

Veja – A Blockbuster tem investido também na produção de filmes. É preciso ganhar tamanho e diversificar para sobreviver no mundo do entretenimento contemporâneo?
Travis – Não necessariamente. É claro que, quanto mais pontas da cadeia uma empresa puder dominar, maiores são suas chances de prosperar. Veja o caso das produções nas quais estamos investindo. Só neste ano serão 120 novos títulos em que colocamos dinheiro. A idéia é incentivar a confecção de filmes que estão em falta no mercado e qu50; Não necessariamente. É claro que, quanto mais pontas da cadeia uma empresa puder dominar, maiores são suas chances de prosperar. Veja o caso das produções nas quais estamos investindo. Só neste ano serão 120 novos títulos em que colocamos dinheiro. A idéia é incentivar a confecção de filmes que estão em falta no mercado e que nossos clientes estão pedindo. Assim você domina o processo. Os negros querem mais enredos de negros e os hispânicos mais tramas de ação? Então, se ninguém está fazendo, vale a pena fazer. O ponto é, mais uma vez, informação. Se você produz lazer sob medida, há poucas possibilidades de não agradar.

 
 
   
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