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Queremos
fantasia
Executivo da Blockbuster diz que os
filmes funcionam como uma espécie
de terapia para as pessoas fugirem
da realidade violenta
Monica
Weinberg
Divulgação
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"No
mundo
todo as pessoas amam o universo paralelo e mágico produzido
em Hollywood"
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Depois
dos atentados às torres gêmeas do World Trade Center, em
Nova York, o aluguel de fitas nas locadoras de vídeo explodiu.
Quando uma manchete ruim aparece estampada num jornal brasileiro, as pessoas
vão pegar um filme açucarado para assistir no conforto de
casa. Os asiáticos preferem as tramas de ação a qualquer
outro gênero. Essas são constatações do inglês
Nigel Travis, o principal executivo da Blockbuster, a maior rede de locação
de fitas no mundo, esparramada por 26 países. Nesta quinta-feira,
Travis vem pela primeira vez ao Brasil inaugurar a loja número
8.000 da rede, que fica em São Paulo. Aos 52 anos, formado em administração
de empresas, foi executivo na Rolls-Royce e na Burger King até
ingressar no negócio de filmes, oito anos atrás. Cinéfilo,
ele adora as produções inglesas e perdeu a conta de quantas
vezes assistiu a Quatro Casamentos e Um Funeral. De Nova York,
ele deu a seguinte entrevista a VEJA.
Veja Uma crítica freqüente no mercado de cinema
é que Hollywood impõe um padrão de filme aos espectadores.
Até onde essa crítica procede?
Travis
As coisas no mundo do cinema não funcionam dessa forma. A indústria
vem aprendendo a colocar o espectador, que é o cliente em questão,
no centro das grandes decisões. Um produtor só faz mais
um filme de ação porque sabe que as pessoas estão
ávidas por esse tipo de entretenimento. Hoje, um homem de negócios
na área de lazer precisa deter informações sobre
a sociedade que pretende entreter. Sabe-se quanto um cliente pode gastar
nas horas livres, o tempo de que ele dispõe para o lazer, se assiste
aos filmes com a família e até se prefere pipoca doce à
salgada. É por isso, tentando agradar ao consumidor e superar a
expectativa de quem vai ao cinema, que os estúdios investem pesado
em tecnologia e as salas de exibição estão cada vez
mais confortáveis.
Veja E qual é o tipo de filme que as pessoas querem
hoje?
Travis
As pessoas adoram ser transportadas para realidades paralelas e mágicas,
cheias de fantasias e idealizações. Elas gostam de finais
felizes, filmes açucarados e muita ação no mundo
todo. Nesse ponto, a indústria de Hollywood é a que dá
com mais eficiência o que o público quer. E os números
mostram isso com clareza. O sucesso de Harry Potter é emblemático.
Mais de 200 milhões de clientes no mundo todo já alugaram
uma cópia, e esse número não pára de crescer.
Isso sem contar o desempenho extraordinário dos livros protagonizados
pelo personagem e os brinquedinhos temáticos que não esquentam
nas prateleiras. Por quê? Porque Harry Potter promove uma
deliciosa viagem a uma realidade encantada. O que as pessoas querem é
escapar de suas rotinas massacrantes, que muitas vezes as incomodam e
angustiam. Isso ficou claro após o atentado às torres gêmeas.
Veja Como?
Travis
Depois dos ataques ao World Trade Center, em setembro passado, nossas
vendas aumentaram para valer. As pessoas queriam esquecer a tragédia
e alugaram filmes com mensagens positivas com esse objetivo. Outro caso
pode ser conferido na Irlanda, um país mergulhado em eterno conflito
sangrento. Ali temos um de nossos melhores desempenhos dentre os 26 países
em que atuamos. No Brasil, quando uma má notícia aparece
no jornal, como o tiroteio em uma favela ou um assassinato cruel, também
verificamos que as vendas crescem. Há uma conexão clara
entre manchetes ruins sobre economia, política e sociedade e a
procura por lazer. O negócio de filmes em casa leva dupla vantagem
numa situação adversa porque dá asas à fuga
da realidade e, ao mesmo tempo, proporciona diversão na segurança
do lar. Em tempos de noticiário ruim, é o que as pessoas
mais querem nas horas livres.
Veja E quando as pessoas estão felizes e otimistas?
Travis
As pesquisas mostram que o entretenimento fica forte quando a situação
é ruim, mas também cresce em épocas de euforia. Essa
é a grande vantagem da indústria do lazer. Ela serve à
alegria e à tristeza e consegue sobreviver durante as crises econômicas
e políticas que atingem em cheio outros segmentos. Um aspecto importante
é que, mesmo quando as pessoas têm menos dinheiro no bolso,
elas sempre vão encontrar uma opção de lazer adequada
à sua situação. A sofisticação do entretenimento
criou alternativas para qualquer tipo de consumidor. Num país mais
pobre, como o Brasil, alugar um filme custa em média 5 reais e
diverte uma família de pelo menos quatro pessoas.
Veja O gosto das pessoas por filmes é parecido no
mundo todo?
Travis
É. Sabemos que, independentemente do país de origem, elas
adoram filmes e, mais que isso, gostam de Hollywood. Mas o paladar também
tem nuances de acordo com a cultura. Os latinos têm uma queda por
filmes dramáticos. Na Ásia, as tramas de ação
fazem mais sucesso. Aí não basta ter uma oferta restrita
a Hollywood, embora ela responda a uma parte essencial da demanda de nossos
clientes. Percebemos que as pessoas valorizam, e muito, os filmes nacionais.
Os brasileiros alçaram o seu Central do Brasil ao ranking
dos mais procurados durante várias semanas. Na Inglaterra, as produções
Quatro Casamentos e Um Funeral e O Diário de Bridget
Jones foram um estrondo. E os asiáticos vêem e apreciam
muito as fitas de ação produzidas na Ásia. Isso mostra
que, apesar do poder de Hollywood, temos uma saudável diversidade
de gostos. É importante perceber as nuances, pois falamos de um
mercado que, só nos Estados Unidos, movimenta por ano mais do que
o setor de saúde e o de vestuário.
Veja Cinema e locação de filmes rendem tudo
isso?
Travis
A estimativa com que trabalhamos é de 700 bilhões de dólares
no mundo inteiro. Esse valor se refere a todo o dinheiro movimentado em
um ano pela indústria de cinema, vídeo e games até
revistas e internet. E sabemos que qualquer um dos ingredientes do pacote
tem potencial para crescer. Olhe o mercado de games, por exemplo. Nos
Estados Unidos ele representa 10% de nosso faturamento, e esperamos que
no fim do ano chegue a 20%. No mundo, a expectativa é que a venda
e o aluguel desses jogos eletrônicos pulem de 8 bilhões para
20 bilhões de dólares até o término de 2003.
Veja Por que os jogos fazem tanto sucesso?
Travis
Porque dão às pessoas a chance de sentir que controlam a
realidade. A tecnologia avançou tanto que não é preciso
mais se esforçar para mergulhar no sonho. Os jogos são tecnicamente
tão perfeitos que você pode jogar futebol em qualquer lugar
do mundo e reproduzir um estádio exatamente como ele é.
Há jogos em que se imita até a realidade do espectador no
estádio. O número de cadeiras e até o saco de pipoca
são idênticos aos da vida real. O jogador pode sentir o prazer
de ser um Pelé, no Brasil, ou um Shaquille O'Neal, nos Estados
Unidos. E o melhor: vencer. Quem não quer embarcar na fantasia
de tornar-se uma celebridade mundial? A grande sacada aí é
que se vai a um mundo próximo do real, mas que é sempre
da maneira que o dono do controle quer que seja. Os jogos satisfazem a
ilusão da realidade controlada. E estou certo de que as pessoas
não vão parar de alugar filmes ou ir ao cinema porque estão
jogando mais games. A lição que a indústria do lazer
está ensinando a quem vive dela é que os consumidores dificilmente
trocam uma forma de entretenimento por outra. Eles vão é
somando os brinquedinhos.
Veja Em quanto tempo o videocassete vai desaparecer?
Travis
Isso ainda vai demorar muito a acontecer. O que percebemos é que
as pessoas não querem descartar as antigas máquinas. A experiência
da vitrola, substituída pelo aparelho de CD, mostrou que é
preciso muito tempo mesmo para alguém colocar um bem desse tipo
na lata do lixo. Só nos Estados Unidos são 19 milhões
de videocassetes totalmente na ativa. As pesquisas que realizamos mostram
dois movimentos. O primeiro confirma de fato a expansão do DVD.
Nos Estados Unidos, ele representa cerca de 30% de nossos negócios
de locação e venda de fitas. No Brasil, como temos uma clientela
muito mais concentrada nas faixas de renda mais altas, essa fatia é
maior ainda: a metade dos clientes já prefere o DVD. O segundo
movimento que observamos é que os clientes não deixaram
de alugar fitas para o videocassete. Os adultos em geral retiram DVDs
para si e cópias de vídeo para as crianças. Um aparelho
fica num quarto e o outro na sala. Isso quer dizer que hoje temos mais
chances de fazer negócio do que antes do advento do DVD.
Veja Há experiências com novas tecnologias para
permitir que as pessoas aluguem filmes. Uma delas possibilita que o título
seja selecionado diretamente de um cardápio na tela da televisão.
Essa não é uma ameaça ao negócio de locação?
Travis
Em primeiro lugar, acho que ainda vai demorar muito para a tecnologia
virar uma realidade para o consumidor. Isso porque há um encantamento
generalizado com o DVD e porque não há interesse dos grandes
estúdios cinematográficos. Eles não podem prescindir
do lucro que vem do aluguel e da venda dos filmes que produzem. Cada fita
vendida rende 14 dólares ao estúdio que nela investiu. Uma
transação realizada via televisão, nos moldes da
nova tecnologia, daria lucro equivalente a um quinto do atual.
Veja E se a nova tecnologia virar de fato uma realidade?
Travis
Mesmo que se torne real no futuro, acredito que a locação
de filmes continuará de pé. A explicação é
simples. Quando uma pessoa sai de casa para alugar um filme, ela quer
mais que uma fita para ver em casa. Quer manusear as caixinhas dos filmes,
quer comprar uma pipoca, dar um balão para o filho. E tudo isso
uma videolocadora reúne hoje. É esse o conceito de entretenimento
moderno. Tudo, ao mesmo tempo, à disposição do cliente.
Na Itália, nós colocamos pizza congelada à venda
porque queremos ser lembrados também por isso. A idéia é
oferecer um lugar onde a escolha esteja disponível e que transforme
uma estada sem graça em casa numa coisa especial. Da mesma forma,
ninguém deixa de assistir a um bom filme no cinema para vê-lo
em casa. São mercados diferentes.
Veja O vídeo então não compete com o
cinema?
Travis
De jeito nenhum. Eles são absolutamente complementares. Quando
uma fita como Titanic ou O Senhor dos Anéis faz sucesso
fragoroso no cinema, sabemos que daqui a seis meses vamos alugar e vender
as cópias como água. Festejamos se uma bilheteria fatura
centenas de milhões de dólares porque também saborearemos
parte disso mais tarde. Isso porque, quando uma pessoa gosta de um filme,
as chances de ela comprar uma cópia crescem muito. E mais: seis
de cada dez pessoas que alugam uma cópia já a viram pelo
menos uma vez no cinema. Há também filmes que passam em
branco nas telas de cinema porque, por azar, foram lançados no
mesmo período de um estrondo como Guerra nas Estrelas. Como
resultado, ficaram ofuscados. Eles fracassaram no circuito cinematográfico,
mas quando chegam às prateleiras todo mundo quer ver. Ganhamos
ainda com o movimento mundial estudado amplamente pelos sociólogos
e apelidado de cocoon (casulo, em inglês). É a tendência
moderna de as pessoas se fecharem em casa ao lado dos familiares.
Veja É um fator que afeta positivamente o lazer em
casa no mundo todo?
Travis
Sim. É uma tendência bem clara entre as famílias ocidentais.
Eu trabalhava na rede de hambúrgueres Burger King quando uma socióloga
alertou a diretoria de que o novo século seria o dos cocooners,
aquelas pessoas cujo maior divertimento é permanecer nas conchas
de suas residências, junto de seus entes queridos. A pesquisadora
disse que essa seria a maior de todas as influências na sociedade
e que qualquer investidor deveria estar atento ao fenômeno. Isso
foi em 1990. De lá para cá, só vi a onda crescer,
gradativamente. Quanto mais as pessoas trabalham, mais elas desejam gastar
o restante do tempo de que dispõem com os filhos e o cônjuge
no conforto de casa. É uma tendência que corre paralela ao
anseio por segurança.
Veja A Blockbuster tem investido também na produção
de filmes. É preciso ganhar tamanho e diversificar para sobreviver
no mundo do entretenimento contemporâneo?
Travis
Não necessariamente. É claro que, quanto mais pontas da
cadeia uma empresa puder dominar, maiores são suas chances de prosperar.
Veja o caso das produções nas quais estamos investindo.
Só neste ano serão 120 novos títulos em que colocamos
dinheiro. A idéia é incentivar a confecção
de filmes que estão em falta no mercado e qu50;
Não necessariamente. É claro que, quanto mais pontas da
cadeia uma empresa puder dominar, maiores são suas chances de prosperar.
Veja o caso das produções nas quais estamos investindo.
Só neste ano serão 120 novos títulos em que colocamos
dinheiro. A idéia é incentivar a confecção
de filmes que estão em falta no mercado e que nossos clientes estão
pedindo. Assim você domina o processo. Os negros querem mais enredos
de negros e os hispânicos mais tramas de ação? Então,
se ninguém está fazendo, vale a pena fazer. O ponto é,
mais uma vez, informação. Se você produz lazer sob
medida, há poucas possibilidades de não agradar.
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