
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
Gustavo
Franco
Dívida
pública
e fumaça verde
"Em
eleições apertadas, o normal é que
a dívida interna se torne dívida de um dia
de prazo. Ninguém no Banco Central pode
alegar que não sabia que o mercado iria
querer encurtar os prazos nesta eleição"
Periodicamente,
em ano eleitoral, discutem-se muito o tamanho, a origem, a sustentabilidade
e as técnicas de rolagem da dívida pública. Na semana
que passou o assunto esteve quente, os mercados nervosos e os políticos
cheios de frases de efeito sobre ele. A questão é complexa,
e o leitor merece explicações.
Comecemos com os números básicos sobre tamanho e origem.
Em 1993, a dívida pública total era de 33,1% do PIB; em
1998 chegou a 42,6%; e ao final de 2001 atingiu 53,3%. É muito
crescimento, mas bem longe dos números que a oposição
gosta de recitar, segundo os quais a dívida teria aumentado dez
vezes, ou coisa assim. É preciso cuidado ao comparar números
de 1993, quando a moeda era o cruzeiro real e a inflação
atingia 3.000% anuais, com os de hoje.
Em 1993, a dívida interna representava 18,6% do PIB e a externa
14,5%, quase meio a meio. Em 1998, os números passaram para 36%
e 6,6% do PIB, respectivamente, e em 2001 para 42,7% e 10,5%. Portanto,
de 1993 para 2001 diminuiu sensivelmente a dívida externa e aumentou
a interna.
No período 1993-1998, a dívida pública cresceu tanto
quanto no período posterior, 1999-2001. No primeiro mandato de
FHC tivemos mais reconhecimento de "esqueletos" (dívida pública
existente mas ausente das estatísticas), mas também bem
mais privatização. Os juros foram mais altos, mas a despesa
é composta de muitas outras coisas e, como dizia o saudoso professor
Simonsen, "déficit não tem caráter": a dívida
aumentou porque tivemos déficit, e déficit é receita
menos despesa.
Nós ainda exibimos um déficit significativo, de 3,5 ou 4%
do PIB. Os americanos têm superávit, e o Tesouro deles paga
1,75% ao ano para tomar dinheiro emprestado. O nosso desembolsa 18,5%,
não por masoquismo, mas em razão da pouca disposição
que nós poupadores brasileiros temos de emprestar ao governo, combinada
com a insistência dele em gastar além do que arrecada. Com
efeito, o crédito de uma nação é um de seus
ativos intangíveis mais importantes. Leva anos, talvez décadas,
para ser conquistado. Bem, mas seria essa nossa combinação
de déficit e dívida pública "insustentável"?
Estaríamos com problemas de "rolagem"?
A "rolagem" é um processo complexo, que devemos observar com a
reverência que dedicamos, por exemplo, a um gasômetro. Engenheiros
especializados tomam conta dos controles, sempre atentos a mostradores
e termômetros, tudo muito limpo e arrumado. Um desavisado não
se dá conta de que ali se manuseiam gases venenosos e explosivos,
exceto quando começa a vazar uma fumaça verde e os engenheiros
apavorados passam a correr de um lado para o outro.
Os mercados financeiros que temos hoje, complexos e abertos como nunca,
têm essa mesma delicadeza. Há anos que os engenheiros do
Banco Central administram a rolagem da dívida interna com imenso
cuidado, sendo raros os problemas na área. Toda a arte reside em
manter uma relação cooperativa, embora não subserviente,
com a "clientela": os administradores da poupança financeira nacional.
Há tempos subsiste uma espécie de "ciclo político"
na administração da dívida pública. O mercado
alonga a dívida interna de bom grado no início de um governo
que trata bem seus credores e encurta dramaticamente ao final. Em eleições
apertadas, o normal é que a dívida interna praticamente
toda migre para o overnight, ou seja, se torne dívida de um dia
de prazo. Os poupadores não querem correr riscos, o que é
muito natural e sempre foi assim. Ninguém no Banco Central pode
alegar que não sabia que o mercado iria querer encurtar os prazos
nesta eleição.
Mas o fato é que o BC vem relutando em diminuir os prazos, prejudicando
aqueles que o apoiaram no passado e concordaram em alongá-los na
expectativa de que, se quisessem reduzi-los, o BC os ajudaria. Como sempre
fez. Mas o BC não apenas não encurtou sem perdas grandes
como também obrigou o reconhecimento delas nos fundos mútuos,
gerando enorme e compreensível mau humor. Surgiu fumaça
verde, e os engenheiros começaram a bater cabeça. Um pequeno
vazamento no gasômetro pode gerar imensa confusão.
Gustavo Franco
é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco Central
(gfranco@palavra.com
www.gfranco.com.br)
|
|
 |