Edição 1854 . 19 de maio de 2004

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Tales Alvarenga
Álcool, sexo e tabaco

"Os fundadores da nação americana eram
cidadãos
eruditos e respeitáveis, mas
gostavam da
vizinhança de um barril"

Perguntava-se em Brasília, na semana passada, por que o jornal The New York Times teria publicado uma reportagem dizendo que o presidente Lula está bebendo demais. É simples. O autor da reportagem, o jornalista americano Larry Rohter, escreveu o artigo porque julgou o assunto interessante. E o New York Times publicou porque também julgou o tema interessante. Pode-se discutir se jornalista e jornal agiram de forma apropriada diante do tema. Mas não passa de delírio a suspeita de que os Estados Unidos estejam movendo uma conspiração contra Lula, como os petistas chegaram a afirmar.

Nesse e em vários outros episódios, a imprensa dos EUA e os cidadãos americanos exibem traços opostos do seu caráter nacional. Com sua herança puritana, tendem a um fundamentalismo moral contra os prazeres pecaminosos, o álcool entre eles, mas também o tabaco e o sexo. Na direção inversa, os americanos são fascinados pela devassidão.

Quanto à bebida, o bom senso nos informa que se devem temer mais os que nunca bebem. Adolf Hitler, além de abstêmio, era antitabagista e vegetariano. O terrorista Osama bin Laden, que também não bebe, mandou jogar dois jatos sobre o World Trade Center e um terceiro sobre o prédio do Pentágono. Seu adversário número 1, o presidente americano George Bush, conta que se curou do alcoolismo de anos atrás por intervenção de Deus. Curado, sem precisar de uma única dose para criar coragem, invadiu dois países, o Afeganistão e o Iraque.

Ao tempo em que escreveram sua admirável Constituição de sete artigos, que continua a mesma por mais de 200 anos, os fundadores da nação americana nada tinham contra um bom copo na hora certa. Eram cidadãos eruditos e respeitáveis, mas gostavam da vizinhança de um barril. O primeiro presidente, George Washington, apreciava uma mistura de rum, cerveja, ovos, creme e açúcar. Thomas Jefferson entornava três doses por dia. E o general Ulysses Grant ganhou a Guerra de Secessão auxiliado pelos pileques. Foi eleito presidente dos EUA. Entre 1920 e 1933, para acabar com o insulto ao fígado, o governo americano baixou uma proibição geral ao consumo de álcool. Era o traço puritano agindo. O lado libertino da nação se rebelou. Nunca se bebeu tanto nos EUA como durante a chamada Lei Seca. Em 1960, o charmoso John Kennedy se elegeu presidente tendo como pai um empresário que contrabandeara bebidas. Kennedy não tinha preconceito contra uísque e charutos e levava sua paixão pelo sexo a tal ponto que, além da caça diária a atrizes, secretárias e garçonetes, chegava a contratar prostitutas para situações de emergência.

Hoje, a vida anda áspera nos EUA. Fumar em Nova York dá multa. Beber, como diz Bush, é uma atividade que clama pela intervenção divina. O sexo ainda é permitido, mas o presidente Bill Clinton aprendeu que é preciso tomar cuidado. Por divertir-se com uma estagiária e um charuto no Salão Oval da Casa Branca, Clinton quase perdeu o emprego. Os franceses, os russos e os japoneses bebem, fumam e fazem sexo com mais naturalidade. Os ianomâmis e os esquimós também fazem. O problema do governo Lula não é um drinque a mais ou a menos, a não ser para os puritanos do New York Times. O problema está é na ressaca geral que se abateu sobre o governo petista quando teve de engolir tudo aquilo que pregou durante vinte anos. Foi um gesto heróico. Mas, agora, espera-se que a turma de Lula acorde desse porre ideológico. E comece a governar. Hoje.

 
 
 
 
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