|
|
Tales
Alvarenga
Álcool,
sexo e tabaco
"Os
fundadores da nação americana eram
cidadãos eruditos
e respeitáveis, mas
gostavam da vizinhança de um
barril"
Perguntava-se
em Brasília, na semana passada, por que o jornal The New
York Times teria publicado uma reportagem dizendo que o presidente
Lula está bebendo demais. É simples. O autor da reportagem,
o jornalista americano Larry Rohter, escreveu o artigo porque julgou
o assunto interessante. E o New York Times publicou porque
também julgou o tema interessante. Pode-se discutir se jornalista
e jornal agiram de forma apropriada diante do tema. Mas não
passa de delírio a suspeita de que os Estados Unidos estejam
movendo uma conspiração contra Lula, como os petistas
chegaram a afirmar.
Nesse
e em vários outros episódios, a imprensa dos EUA e
os cidadãos americanos exibem traços opostos do seu
caráter nacional. Com sua herança puritana, tendem
a um fundamentalismo moral contra os prazeres pecaminosos, o álcool
entre eles, mas também o tabaco e o sexo. Na direção
inversa, os americanos são fascinados pela devassidão.
Quanto
à bebida, o bom senso nos informa que se devem temer mais
os que nunca bebem. Adolf Hitler, além de abstêmio,
era antitabagista e vegetariano. O terrorista Osama bin Laden, que
também não bebe, mandou jogar dois jatos sobre o World
Trade Center e um terceiro sobre o prédio do Pentágono.
Seu adversário número 1, o presidente americano George
Bush, conta que se curou do alcoolismo de anos atrás por
intervenção de Deus. Curado, sem precisar de uma única
dose para criar coragem, invadiu dois países, o Afeganistão
e o Iraque.
Ao
tempo em que escreveram sua admirável Constituição
de sete artigos, que continua a mesma por mais de 200 anos, os fundadores
da nação americana nada tinham contra um bom copo
na hora certa. Eram cidadãos eruditos e respeitáveis,
mas gostavam da vizinhança de um barril. O primeiro presidente,
George Washington, apreciava uma mistura de rum, cerveja, ovos,
creme e açúcar. Thomas Jefferson entornava três
doses por dia. E o general Ulysses Grant ganhou a Guerra de Secessão
auxiliado pelos pileques. Foi eleito presidente dos EUA. Entre 1920
e 1933, para acabar com o insulto ao fígado, o governo americano
baixou uma proibição geral ao consumo de álcool.
Era o traço puritano agindo. O lado libertino da nação
se rebelou. Nunca se bebeu tanto nos EUA como durante a chamada
Lei Seca. Em 1960, o charmoso John Kennedy se elegeu presidente
tendo como pai um empresário que contrabandeara bebidas.
Kennedy não tinha preconceito contra uísque e charutos
e levava sua paixão pelo sexo a tal ponto que, além
da caça diária a atrizes, secretárias e garçonetes,
chegava a contratar prostitutas para situações de
emergência.
Hoje,
a vida anda áspera nos EUA. Fumar em Nova York dá
multa. Beber, como diz Bush, é uma atividade que clama pela
intervenção divina. O sexo ainda é permitido,
mas o presidente Bill Clinton aprendeu que é preciso tomar
cuidado. Por divertir-se com uma estagiária e um charuto
no Salão Oval da Casa Branca, Clinton quase perdeu o emprego.
Os franceses, os russos e os japoneses bebem, fumam e fazem sexo
com mais naturalidade. Os ianomâmis e os esquimós também
fazem. O problema do governo Lula não é um drinque
a mais ou a menos, a não ser para os puritanos do New
York Times. O problema está é na ressaca geral
que se abateu sobre o governo petista quando teve de engolir tudo
aquilo que pregou durante vinte anos. Foi um gesto heróico.
Mas, agora, espera-se que a turma de Lula acorde desse porre ideológico.
E comece a governar. Hoje.
|