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Cinema
Não
é o Russel
A
culpa não cabe só a Brad Pitt,
mas ele é o calcanhar-de-aquiles
do épico Tróia

Isabela
Boscov
Divulgação
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| Pitt,
como o guerreiro Aquiles: físico de deus, atuação
de mortal |
Em
O Desprezo, de Jean-Luc Godard, um cineasta europeu e um
produtor americano entram em choque por causa de uma adaptação
da Odisséia o primeiro quer se manter fiel
à obra de Homero, e o segundo quer fazer dela um entretenimento.
Godard decide a disputa com o poder olímpico dos diretores:
mata o produtor, para que sobrevivam o cineasta e a sua idéia.
Que Godard e Wolfgang Petersen, então, não se encontrem
por aí, ou a saúde do alemão correrá
risco. Tróia (Troy, Estados Unidos, 2004),
a versão de Petersen para a Ilíada de Homero,
em cartaz no país, sofre de um tipo de gigantismo comum em
Hollywood: o filme é grande porque isso é só
o que ele sabe ser. Já os temas de Homero nunca pareceram
tão pequenos. Não se trata de cobrar purismo onde
ele não é cabível, ou de menosprezar os acertos
do filme entre os quais o mais notável é a
luz branca do sol sempre a pino, que desde o início separa
Tróia dos velhos épicos romanos do cinema.
O problema de Tróia é que ele deixa transparecer
quanto Petersen e seu astro Brad Pitt, como o guerreiro Aquiles
estão deslocados na Grécia da Idade do Bronze,
indecisos entre botar para quebrar e divertir a platéia e
ruminar reflexões "profundas" para as quais não foram
talhados.
Aquiles
era filho de um homem e uma deusa. Era, portanto, mais forte do
que um mortal comum, e também mais informado sobre a verdadeira
natureza dos deuses. Mas faltava-lhe o arbítrio destes: não
podia escapar de seu dom e destino, que era guerrear e matar. Não
por acaso, então, tinha uma visão implacável
sobre os outros homens, suas guerras fúteis e egoístas
e sobre seu próprio papel de mercenário nelas
no caso, a serviço da Grécia, que cerca Tróia
com uma força esmagadora para que o rei Agamênon e
seu irmão Menelau resgatem a rainha Helena, raptada (de muito
boa vontade, aliás) pelo príncipe troiano Páris.
Em Tróia, porém, ele parece um daqueles personagens
da novela das 8 que vivem para se ver na revista Fama: só
pensa em entrar para a história. Reduzido assim a aspirante
a celebridade, Aquiles circula pelo campo de batalha com a cara
e a atitude que lhe convêm de um astro de cinema emburrado,
que faz esse serviço porque precisa dele para elevar seu
status.
No
lugar certo, como em Clube da Luta, Pitt é um bom
ator, e não se pode culpá-lo inteiramente por ser
um Aquiles tão tolo. Sua atuação reflete o
desempenho de Petersen, que age mais como um mestre-de-obras do
que como um diretor, erguendo paredes ou grandes seqüências
sem uma visão abrangente ou autoral da casa que tem
de construir. Mesmo quando as cenas são arrebatadoras, como
aquela em que o príncipe troiano Heitor (Eric Bana, o verdadeiro
astro do filme) mata por engano o primo de Aquiles, a emoção
que despertam se desfaz logo a seguir. Não há aqui
a fluidez e o crescendo de Gladiador a comparação
é inevitável ou a firmeza do diretor Ridley
Scott, que lutou pelo então pouco conhecido Russell Crowe
por saber que ele era o alicerce dramático de que o projeto
necessitava. O que funciona em Tróia é o que
menos depende de Petersen: o elenco de apoio formado por ingleses,
escoceses, irlandeses e australianos, que conhecem os textos clássicos
desde a escola, treinaram-se no teatro e não precisam de
apostila para acompanhar Homero.
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