Edição 1854 . 19 de maio de 2004

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Cinema
Não é o Russel

A culpa não cabe só a Brad Pitt,
mas ele é o calcanhar-de-aquiles
do épico Tróia


Isabela Boscov


Divulgação
Pitt, como o guerreiro Aquiles: físico de deus, atuação de mortal

Trailer
Cenas do filme

Em O Desprezo, de Jean-Luc Godard, um cineasta europeu e um produtor americano entram em choque por causa de uma adaptação da Odisséia – o primeiro quer se manter fiel à obra de Homero, e o segundo quer fazer dela um entretenimento. Godard decide a disputa com o poder olímpico dos diretores: mata o produtor, para que sobrevivam o cineasta e a sua idéia. Que Godard e Wolfgang Petersen, então, não se encontrem por aí, ou a saúde do alemão correrá risco. Tróia (Troy, Estados Unidos, 2004), a versão de Petersen para a Ilíada de Homero, em cartaz no país, sofre de um tipo de gigantismo comum em Hollywood: o filme é grande porque isso é só o que ele sabe ser. Já os temas de Homero nunca pareceram tão pequenos. Não se trata de cobrar purismo onde ele não é cabível, ou de menosprezar os acertos do filme – entre os quais o mais notável é a luz branca do sol sempre a pino, que desde o início separa Tróia dos velhos épicos romanos do cinema. O problema de Tróia é que ele deixa transparecer quanto Petersen e seu astro – Brad Pitt, como o guerreiro Aquiles – estão deslocados na Grécia da Idade do Bronze, indecisos entre botar para quebrar e divertir a platéia e ruminar reflexões "profundas" para as quais não foram talhados.

Aquiles era filho de um homem e uma deusa. Era, portanto, mais forte do que um mortal comum, e também mais informado sobre a verdadeira natureza dos deuses. Mas faltava-lhe o arbítrio destes: não podia escapar de seu dom e destino, que era guerrear e matar. Não por acaso, então, tinha uma visão implacável sobre os outros homens, suas guerras fúteis e egoístas e sobre seu próprio papel de mercenário nelas – no caso, a serviço da Grécia, que cerca Tróia com uma força esmagadora para que o rei Agamênon e seu irmão Menelau resgatem a rainha Helena, raptada (de muito boa vontade, aliás) pelo príncipe troiano Páris. Em Tróia, porém, ele parece um daqueles personagens da novela das 8 que vivem para se ver na revista Fama: só pensa em entrar para a história. Reduzido assim a aspirante a celebridade, Aquiles circula pelo campo de batalha com a cara e a atitude que lhe convêm – de um astro de cinema emburrado, que faz esse serviço porque precisa dele para elevar seu status.

No lugar certo, como em Clube da Luta, Pitt é um bom ator, e não se pode culpá-lo inteiramente por ser um Aquiles tão tolo. Sua atuação reflete o desempenho de Petersen, que age mais como um mestre-de-obras do que como um diretor, erguendo paredes – ou grandes seqüências – sem uma visão abrangente ou autoral da casa que tem de construir. Mesmo quando as cenas são arrebatadoras, como aquela em que o príncipe troiano Heitor (Eric Bana, o verdadeiro astro do filme) mata por engano o primo de Aquiles, a emoção que despertam se desfaz logo a seguir. Não há aqui a fluidez e o crescendo de Gladiador – a comparação é inevitável – ou a firmeza do diretor Ridley Scott, que lutou pelo então pouco conhecido Russell Crowe por saber que ele era o alicerce dramático de que o projeto necessitava. O que funciona em Tróia é o que menos depende de Petersen: o elenco de apoio formado por ingleses, escoceses, irlandeses e australianos, que conhecem os textos clássicos desde a escola, treinaram-se no teatro e não precisam de apostila para acompanhar Homero.

 
 
 
 
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