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China
O
que esperar da China
O
Brasil busca parcerias
e oportunidades
comerciais
no
país onde o
espetáculo do
crescimento já
dura 25 anos

Lucila
Soares
Ao
desembarcar em Pequim, no próximo dia 23, o presidente Lula
e sua supercomitiva de ministros, governadores e empresários
já terão lido dezenas de relatórios dando conta
do vertiginoso crescimento da China e do imenso potencial de negócios
que o país representa para o Brasil. Ainda assim, vão
se surpreender. O ritmo avassalador da economia chinesa, que nos
últimos 25 anos quadruplicou seu produto interno bruto, é
visível, a olho nu, no volume de prédios em construção,
na quantidade de carros novos em circulação e nas
ruas de comércio que abrigam as principais redes de varejo
e as mais sofisticadas grifes do mundo. As marcas do capital internacional
estão em toda parte até na Cidade Proibida,
o complexo de palácios que foi sede do Império Chinês
e em cuja entrada está o monumental retrato de Mao Tsé-tung.
Ao lado da imagem do líder da tomada do poder pelos comunistas
em 1949, uma placa informa que "este palácio foi restaurado
com suporte financeiro do American Express".
A
corrida é mais do que justificada, em se tratando de um país
de 1,3 bilhão de habitantes que, entre 1981 e 2002, cresceu
à taxa média de 9,5% ao ano. A China iniciou a abertura
da economia em 1978 e tem atraído investimentos estrangeiros
da ordem de 40 bilhões de dólares por ano nos últimos
tempos. O tamanho do mercado faz do país um parceiro obrigatório.
Ninguém quer ficar de fora, e não há por que
o Brasil fazer diferente. O comércio bilateral cresceu espetacularmente,
mas ainda está longe de ser proporcional à importância
da China no panorama internacional (veja
quadro).
"Os chineses já são nosso terceiro maior comprador,
mas o Brasil representa apenas 1% das importações
da China", diz Ivan Ramalho, secretário de Comércio
Exterior do Ministério do Desenvolvimento. Para o Brasil,
a China também representa um potencial parceiro para
investimentos em infra-estrutura, contribuindo para a solução
de um dos grandes gargalos da economia brasileira.
José Paulo Lacerda/AE
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| O
ministro Furlan: esforço para diversificar exportações
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Além
dos negócios e acordos a ser prospectados, engatilhados e
fechados, a viagem da comitiva brasileira pode ser útil como
oportunidade de ver de perto um país em que o espetáculo
do crescimento é realidade há 25 anos. É verdade
que a China partiu de um patamar muito inferior ao do Brasil
ainda hoje, depois de todo o crescimento, a renda per capita chinesa
é de 966 dólares, menos de um terço da brasileira.
De qualquer modo, a experiência da China é impressionante,
mais ainda quando se leva em conta o ineditismo do sistema híbrido
que vigora no país, com governo comunista e mercado crescentemente
livre e integrado ao mundo globalizado. Para o professor Simão
Davi Silber, da Universidade de São Paulo, o segredo está
no estabelecimento de uma estratégia de inserção
na economia mundial e na estabilidade das políticas traçadas,
de modo a dar confiança ao investidor internacional (veja
quadro). Algo, como se vê, bem distante da
realidade brasileira, assim como a impressionante capacidade de
poupança interna, que viabiliza uma taxa de investimento
de 40% do PIB, a mais alta do planeta. Mas fora esses dois fatores,
que têm muito de cultural, os ingredientes chineses aplicáveis
ao Brasil não são nenhuma inovação espetacular.
Resumem-se a tratar bem o capital estrangeiro, com redução
de burocracia, simplificação tributária e desoneração
da folha de pagamentos. São medidas cuja não-adoção
por aqui de nenhuma maneira se deve à ignorância sobre
sua importância.
O
que por vezes fica esquecido é que a continuidade do sucesso
da receita chinesa depende da superação de desafios
importantes. A China tem pela frente a dura empreitada de construir
um arcabouço capitalista em pleno século XXI, quase
250 anos depois do início da Revolução Industrial,
e sob um governo comunista. Nessa transição, virão
à tona fragilidades que ficam em segundo plano diante do
encantamento mundial com o desempenho econômico do país.
A maior incógnita é como a China enfrentará
a profunda desigualdade que seu modelo criou. Os mais de 800 milhões
de chineses que vivem no campo o equivalente a cinco Brasis
foram excluídos do crescimento, numa realidade que
gera custos sociais altíssimos e pressões de conseqüências
impossíveis de dimensionar. As províncias costeiras
recebem 90% dos investimentos e respondem por 70% das exportações,
enquanto o interior concentra 88% dos pobres. "A China reduziu drasticamente
a pobreza, mas agora é preciso promover reformas para levar
investimentos às outras regiões do país", diz
Vinod Thomas, diretor do Banco Mundial para o Brasil. Outro fator
preocupante é a precariedade do sistema financeiro. Uma boa
parte do crescimento chinês foi feita com financiamento de
empresas públicas por bancos idem. Esses empréstimos,
classificados como "de baixa performance" ou seja, de grande
risco , equivalem hoje a 20% da carteira de crédito
dos quatro maiores bancos chineses. Um rombo potencial de 230 bilhões
de dólares.
Esses
são apenas alguns dos motivos pelos quais é necessário
olhar com cautela para o modelo chinês. De imediato, o que
preocupa é o excessivo aquecimento da economia, que começa
a pressionar a inflação e pode provocar alta de juros.
Um freio na economia chinesa é uma perspectiva assustadora,
pelo peso que o país tem na economia global. Para alguns
analistas, o mundo pode estar diante de uma nova bolha, semelhante
à da internet. Seria muito grave se ocorresse algo parecido
com a China. Só para dar um exemplo, no fim de 2002 um congestionamento
nos portos forçou o país a reduzir temporariamente
suas compras de aço. O preço despencou 20%. Para outros
observadores, a China pode estar iniciando uma correção
de rumo que terá impactos diferentes em cada setor. Na siderurgia,
um dos setores mais importantes para o Brasil, as incógnitas
não anulam perspectivas promissoras. "O setor tem muito a
ganhar se a siderurgia chinesa se mostrar sustentável, mas
isso não significa que não haverá sustos, porque
as oscilações de preço são típicas
desse mercado", diz o economista Germano Mendes De Paula, da Universidade
Federal de Uberlândia.
Para
o Brasil, o melhor é encarar a China principalmente como
uma grande oportunidade de diversificar mercados. Mario Marconini,
diretor executivo do Centro Brasileiro de Relações
Internacionais, avalia que o potencial de cooperação
entre os dois países é grande, mas transformar isso
numa relação estratégica forte é mais
complicado. Politicamente, a aproximação faz sentido.
China, Brasil, Índia e África do Sul são líderes
em suas regiões e devem se articular, como já fizeram
no Grupo dos 20. Comercialmente, no entanto, a China é um
concorrente perigoso e predatório. Ganha mercado pelo preço,
não pela qualidade. "Para se inserir no mundo, o bom é
competir com países que têm base industrial melhor
que a sua, como os EUA, por exemplo, para estimular a competitividade.
A China faz o oposto disso", diz Marconini.
Se
as questões de curto prazo preocupam, num horizonte mais
longo a China é um mistério ainda mais insondável.
Instituições respeitadas internacionalmente já
fizeram projeções pelas quais, mesmo se o ritmo de
crescimento cair à metade, o país está fadado
a tornar-se a maior economia do mundo até a metade deste
século. Pode ser. Mas a história recente mostra que
não há oráculo capaz de garantir o acerto de
previsões de tão longo prazo. Basta lembrar a quantidade
de livros escritos sobre o milagre japonês, dando conta de
que o país seria a grande potência do século
XXI. "A bolha imobiliária estourou, atingiu a bolsa e o mercado
financeiro, e o Japão ficou estagnado por mais de dez anos",
lembra o ex-ministro Marcílio Marques Moreira, consultor
da Merrill Lynch.
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Chinês
na ponta da língua
Claudio Rossi
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engenheiro Perin: aluno de um curso de mandarim
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O
incremento das relações comerciais entre
Brasil e China já promoveu o crescimento de pelo
menos um mercado nacional: o de professores, tradutores
e intérpretes do mandarim, a língua oficial
da China. Desde 2001, escolas especializadas no ensino
do idioma, como o Centro Social Chinês de São
Paulo, quadruplicaram seu número de alunos. Só
neste ano, o Centro de Língua e Cultura Chinesa,
também em São Paulo, recebeu 130 novos
estudantes. No ano passado, tinha apenas quarenta. O
fenômeno se repete no Rio, onde a espera por uma
vaga na agenda de um professor particular de mandarim
chega a quase um ano.
Os novos interessados no aprendizado do idioma são,
principalmente, empresários e profissionais liberais
que têm ou pretendem ter negócios com os
chineses. O engenheiro Gustavo Perin, por exemplo, decidiu
aprender a língua na volta de uma viagem de trabalho
à China. Como cerca de 20% da população
de lá fala inglês, ele conta que teve dificuldade
até para tomar um táxi. "Tinha de pedir
ao pessoal do hotel que escrevesse o endereço
do meu destino em um cartão", conta. Com seis
meses de curso, Perin já ensaia suas primeiras
frases em mandarim, mas admite não ter feito
grandes progressos no que se refere à leitura
e à escrita. O complexo alfabeto chinês
tem mais de 10 000 caracteres e a compreensão
de uma notícia de jornal, por exemplo, exige
o domínio de pelo menos 3 000 deles.
Quase tão intrincadas quanto o alfabeto são
as regras da boa convivência na China. Na tentativa
de evitar possíveis gafes por parte de empresários
brasileiros no trato com seus colegas orientais, a Agência
de Promoção de Exportações
do Brasil (Apex) preparou uma espécie de manual
de etiqueta destinado a facilitar a vida dos negociantes.
O manual, disponível no site da agência
na internet, inclui dicas como: dirigir-se a seu interlocutor
chamando-o pelo sobrenome, precedido pelo cargo que
ele ocupa ("superintendente Wong", por exemplo); evitar
frases negativas como "não posso" ou "isso é
impossível" (melhor substituí-las por
"vou pensar no assunto" ou "vou ver o que posso fazer",
consideradas mais polidas); não oferecer presentes
embrulhados em papel branco (a cor do luto na China);
estar disponível para estender as negociações
além do horário combinado e, eventualmente,
ser convidado a recomeçar tudo novamente no dia
seguinte. "Os chineses gostam de marcar muitos encontros
antes de concretizar um negócio", afirma David
Shyu, professor do Centro Social Chinês de São
Paulo. "Entendem que é uma forma de conhecer
melhor seus parceiros e adquirir confiança neles."
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Com
reportagem de
Silvana Mautone
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