Edição 1854 . 19 de maio de 2004

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China
O que esperar da China

O Brasil busca parcerias e oportunidades
comerciais no país onde o espetáculo do
crescimento
já dura 25 anos


Lucila Soares

Conheça o país: China

Ao desembarcar em Pequim, no próximo dia 23, o presidente Lula e sua supercomitiva de ministros, governadores e empresários já terão lido dezenas de relatórios dando conta do vertiginoso crescimento da China e do imenso potencial de negócios que o país representa para o Brasil. Ainda assim, vão se surpreender. O ritmo avassalador da economia chinesa, que nos últimos 25 anos quadruplicou seu produto interno bruto, é visível, a olho nu, no volume de prédios em construção, na quantidade de carros novos em circulação e nas ruas de comércio que abrigam as principais redes de varejo e as mais sofisticadas grifes do mundo. As marcas do capital internacional estão em toda parte – até na Cidade Proibida, o complexo de palácios que foi sede do Império Chinês e em cuja entrada está o monumental retrato de Mao Tsé-tung. Ao lado da imagem do líder da tomada do poder pelos comunistas em 1949, uma placa informa que "este palácio foi restaurado com suporte financeiro do American Express".

A corrida é mais do que justificada, em se tratando de um país de 1,3 bilhão de habitantes que, entre 1981 e 2002, cresceu à taxa média de 9,5% ao ano. A China iniciou a abertura da economia em 1978 e tem atraído investimentos estrangeiros da ordem de 40 bilhões de dólares por ano nos últimos tempos. O tamanho do mercado faz do país um parceiro obrigatório. Ninguém quer ficar de fora, e não há por que o Brasil fazer diferente. O comércio bilateral cresceu espetacularmente, mas ainda está longe de ser proporcional à importância da China no panorama internacional (veja quadro). "Os chineses já são nosso terceiro maior comprador, mas o Brasil representa apenas 1% das importações da China", diz Ivan Ramalho, secretário de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento. Para o Brasil, a China também representa um potencial parceiro para investimentos em infra-estrutura, contribuindo para a solução de um dos grandes gargalos da economia brasileira.

José Paulo Lacerda/AE
O ministro Furlan: esforço para diversificar exportações

Além dos negócios e acordos a ser prospectados, engatilhados e fechados, a viagem da comitiva brasileira pode ser útil como oportunidade de ver de perto um país em que o espetáculo do crescimento é realidade há 25 anos. É verdade que a China partiu de um patamar muito inferior ao do Brasil – ainda hoje, depois de todo o crescimento, a renda per capita chinesa é de 966 dólares, menos de um terço da brasileira. De qualquer modo, a experiência da China é impressionante, mais ainda quando se leva em conta o ineditismo do sistema híbrido que vigora no país, com governo comunista e mercado crescentemente livre e integrado ao mundo globalizado. Para o professor Simão Davi Silber, da Universidade de São Paulo, o segredo está no estabelecimento de uma estratégia de inserção na economia mundial e na estabilidade das políticas traçadas, de modo a dar confiança ao investidor internacional (veja quadro). Algo, como se vê, bem distante da realidade brasileira, assim como a impressionante capacidade de poupança interna, que viabiliza uma taxa de investimento de 40% do PIB, a mais alta do planeta. Mas fora esses dois fatores, que têm muito de cultural, os ingredientes chineses aplicáveis ao Brasil não são nenhuma inovação espetacular. Resumem-se a tratar bem o capital estrangeiro, com redução de burocracia, simplificação tributária e desoneração da folha de pagamentos. São medidas cuja não-adoção por aqui de nenhuma maneira se deve à ignorância sobre sua importância.

O que por vezes fica esquecido é que a continuidade do sucesso da receita chinesa depende da superação de desafios importantes. A China tem pela frente a dura empreitada de construir um arcabouço capitalista em pleno século XXI, quase 250 anos depois do início da Revolução Industrial, e sob um governo comunista. Nessa transição, virão à tona fragilidades que ficam em segundo plano diante do encantamento mundial com o desempenho econômico do país. A maior incógnita é como a China enfrentará a profunda desigualdade que seu modelo criou. Os mais de 800 milhões de chineses que vivem no campo – o equivalente a cinco Brasis – foram excluídos do crescimento, numa realidade que gera custos sociais altíssimos e pressões de conseqüências impossíveis de dimensionar. As províncias costeiras recebem 90% dos investimentos e respondem por 70% das exportações, enquanto o interior concentra 88% dos pobres. "A China reduziu drasticamente a pobreza, mas agora é preciso promover reformas para levar investimentos às outras regiões do país", diz Vinod Thomas, diretor do Banco Mundial para o Brasil. Outro fator preocupante é a precariedade do sistema financeiro. Uma boa parte do crescimento chinês foi feita com financiamento de empresas públicas por bancos idem. Esses empréstimos, classificados como "de baixa performance" – ou seja, de grande risco –, equivalem hoje a 20% da carteira de crédito dos quatro maiores bancos chineses. Um rombo potencial de 230 bilhões de dólares.

Esses são apenas alguns dos motivos pelos quais é necessário olhar com cautela para o modelo chinês. De imediato, o que preocupa é o excessivo aquecimento da economia, que começa a pressionar a inflação e pode provocar alta de juros. Um freio na economia chinesa é uma perspectiva assustadora, pelo peso que o país tem na economia global. Para alguns analistas, o mundo pode estar diante de uma nova bolha, semelhante à da internet. Seria muito grave se ocorresse algo parecido com a China. Só para dar um exemplo, no fim de 2002 um congestionamento nos portos forçou o país a reduzir temporariamente suas compras de aço. O preço despencou 20%. Para outros observadores, a China pode estar iniciando uma correção de rumo que terá impactos diferentes em cada setor. Na siderurgia, um dos setores mais importantes para o Brasil, as incógnitas não anulam perspectivas promissoras. "O setor tem muito a ganhar se a siderurgia chinesa se mostrar sustentável, mas isso não significa que não haverá sustos, porque as oscilações de preço são típicas desse mercado", diz o economista Germano Mendes De Paula, da Universidade Federal de Uberlândia.

Para o Brasil, o melhor é encarar a China principalmente como uma grande oportunidade de diversificar mercados. Mario Marconini, diretor executivo do Centro Brasileiro de Relações Internacionais, avalia que o potencial de cooperação entre os dois países é grande, mas transformar isso numa relação estratégica forte é mais complicado. Politicamente, a aproximação faz sentido. China, Brasil, Índia e África do Sul são líderes em suas regiões e devem se articular, como já fizeram no Grupo dos 20. Comercialmente, no entanto, a China é um concorrente perigoso e predatório. Ganha mercado pelo preço, não pela qualidade. "Para se inserir no mundo, o bom é competir com países que têm base industrial melhor que a sua, como os EUA, por exemplo, para estimular a competitividade. A China faz o oposto disso", diz Marconini.

Se as questões de curto prazo preocupam, num horizonte mais longo a China é um mistério ainda mais insondável. Instituições respeitadas internacionalmente já fizeram projeções pelas quais, mesmo se o ritmo de crescimento cair à metade, o país está fadado a tornar-se a maior economia do mundo até a metade deste século. Pode ser. Mas a história recente mostra que não há oráculo capaz de garantir o acerto de previsões de tão longo prazo. Basta lembrar a quantidade de livros escritos sobre o milagre japonês, dando conta de que o país seria a grande potência do século XXI. "A bolha imobiliária estourou, atingiu a bolsa e o mercado financeiro, e o Japão ficou estagnado por mais de dez anos", lembra o ex-ministro Marcílio Marques Moreira, consultor da Merrill Lynch.

 

 

 

Chinês na ponta da língua


Claudio Rossi
O engenheiro Perin: aluno de um curso de mandarim

O incremento das relações comerciais entre Brasil e China já promoveu o crescimento de pelo menos um mercado nacional: o de professores, tradutores e intérpretes do mandarim, a língua oficial da China. Desde 2001, escolas especializadas no ensino do idioma, como o Centro Social Chinês de São Paulo, quadruplicaram seu número de alunos. Só neste ano, o Centro de Língua e Cultura Chinesa, também em São Paulo, recebeu 130 novos estudantes. No ano passado, tinha apenas quarenta. O fenômeno se repete no Rio, onde a espera por uma vaga na agenda de um professor particular de mandarim chega a quase um ano.

Os novos interessados no aprendizado do idioma são, principalmente, empresários e profissionais liberais que têm ou pretendem ter negócios com os chineses. O engenheiro Gustavo Perin, por exemplo, decidiu aprender a língua na volta de uma viagem de trabalho à China. Como cerca de 20% da população de lá fala inglês, ele conta que teve dificuldade até para tomar um táxi. "Tinha de pedir ao pessoal do hotel que escrevesse o endereço do meu destino em um cartão", conta. Com seis meses de curso, Perin já ensaia suas primeiras frases em mandarim, mas admite não ter feito grandes progressos no que se refere à leitura e à escrita. O complexo alfabeto chinês tem mais de 10 000 caracteres – e a compreensão de uma notícia de jornal, por exemplo, exige o domínio de pelo menos 3 000 deles.

Quase tão intrincadas quanto o alfabeto são as regras da boa convivência na China. Na tentativa de evitar possíveis gafes por parte de empresários brasileiros no trato com seus colegas orientais, a Agência de Promoção de Exportações do Brasil (Apex) preparou uma espécie de manual de etiqueta destinado a facilitar a vida dos negociantes. O manual, disponível no site da agência na internet, inclui dicas como: dirigir-se a seu interlocutor chamando-o pelo sobrenome, precedido pelo cargo que ele ocupa ("superintendente Wong", por exemplo); evitar frases negativas como "não posso" ou "isso é impossível" (melhor substituí-las por "vou pensar no assunto" ou "vou ver o que posso fazer", consideradas mais polidas); não oferecer presentes embrulhados em papel branco (a cor do luto na China); estar disponível para estender as negociações além do horário combinado – e, eventualmente, ser convidado a recomeçar tudo novamente no dia seguinte. "Os chineses gostam de marcar muitos encontros antes de concretizar um negócio", afirma David Shyu, professor do Centro Social Chinês de São Paulo. "Entendem que é uma forma de conhecer melhor seus parceiros e adquirir confiança neles."

 

Com reportagem de Silvana Mautone

 

 
 
 
 
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