Edição 1854 . 19 de maio de 2004

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Olimpíadas
A diferença no detalhe

Novas tecnologias ajudam atletas a lutar
pelos centésimos de segundo em Atenas

 
Fotos divulgação

RÁPIDA NO TÚNEL DE VENTO
A Swift Suit, da Nike, tem diferentes tecidos em cada parte
do corpo para melhorar a aerodinâmica. Ganho previsto nos 100 metros rasos: 0,03 segundo

O velocista americano Tim Montgomery bateu o recorde mundial dos 100 metros rasos com a impressionante marca de 9,78 segundos, em 2002. Significa que ele foi 0,01 segundo mais rápido do que o recordista anterior. Num universo onde centésimos de segundo fazem tanta diferença, o sucesso pode estar num detalhe – na roupa ou no calçado que o atleta usa, por exemplo. É isso que dá sentido ao investimento feito pela Nike no desenvolvimento de um traje capaz de tornar um corredor de elite três centésimos de segundo mais rápido. Esse é o resultado aferido nos testes realizados pela empresa em túneis de vento, similares àqueles usados por equipes de Fórmula 1 para verificar a aerodinâmica dos seus carros. Chamada de Swift Suit, a vestimenta é uma das novidades tecnológicas que os fabricantes de material esportivo planejam lançar nos Jogos Olímpicos de Atenas, que começam em agosto.

COM JEITO DE PEIXE GRANDE
FastSkin, da Speedo, reduz em até 8% o atrito do corpo do nadador com a água, fazendo-o deslizar mais rápido na piscina

De olho no cronômetro, as empresas passaram a convocar seus atletas de ponta para palpitar nos novos produtos. O Projeto Swift da Nike, um conjunto de roupas de alta performance para vários esportes, contou com a participação de nomes de peso, como o ciclista americano Lance Armstrong, dono de cinco títulos da Volta da França, para chegar ao desenho final de seus modelos. O macacão Swift pode dar até 39 segundos de vantagem em 55 quilômetros de pedalagem. O segredo é a aerodinâmica. Os designers mediram a velocidade do vento em diferentes partes do corpo do atleta e, a partir daí, escolheram tecidos com texturas apropriadas para cada região, diminuindo a resistência do ar e da água. A busca pelo detalhe levou a Nike a projetar uma sapatilha de salto alto, a Monsterfly. Projetado para provas de 100 metros rasos, o calçado é muito leve, com apenas 192,7 gramas. O salto alto decorre de estudos que mostram que o cansaço nos últimos 30 metros da prova faz o atleta tocar o calcanhar no chão, perdendo potência e velocidade. A Monsterfly ajuda-o a correr na ponta dos pés durante toda a corrida.

A Adidas também recorreu ao know-how dos seus melhores esportistas para preparar lançamentos. A empresa focou sua atenção no bem-estar dos atletas durante as provas. Com assessoria do etíope Haile Gebrselassie, recordista mundial da maratona de 10.000 metros, o fabricante alemão criou um tecido térmico que elimina com rapidez o suor do corpo. O resultado é uma roupa que não só mantém o atleta seco, mas também na temperatura ideal. É um detalhe importante, uma vez que 75% da energia do corpo é usada para regular sua temperatura. Com isso, a força do atleta pode ser canalizada para melhorar seu desempenho. A Speedo lançou a segunda versão da FastSkin, roupa com textura de pele de tubarão que diminui em 8% o atrito do corpo do atleta com a água e faz com que ele deslize com mais facilidade. A fórmula, que torna desnecessário que os atletas raspem os pêlos do corpo para facilitar o deslizamento, foi testada por Michael Phelps, o americano mais jovem a disputar as Olimpíadas. A Adidas, por sua vez, produziu uma roupa de natação com miniplacas nas costas, que facilitam a passagem da água. Chamada de Jet Concept, será usada nas Olimpíadas de Atenas por Ian Thorpe, o nadador australiano conhecido como Torpedo devido a seu desempenho na piscina.

SAPATILHA COM SALTO
A Monsterfly, da Nike, evita que o velocista toque o calcanhar no chão e perca velocidade no final da prova

Há também soluções tecnológicas para problemas imperceptíveis à maioria das pessoas. O bico por onde se enche a bola de futebol é um fator de desequilíbrio. Em teoria, pode ser o responsável por aquele gol que o atacante perdeu de forma inexplicável. A Adidas acredita ter corrigido esse inconveniente colocando lastros para compensar o peso do bico. Colocados em diferentes pontos dentro da redonda, eles deixam a bola balanceada e o chute do jogador, mais preciso. Além de ajudar os atletas a conquistar melhores tempos, as novas tecnologias atuam como importante fator psicológico. "O atleta sente mais confiança e pode ter um rendimento melhor", afirma o alemão Bernd Feldmann, da Adidas. Os Jogos Olímpicos sempre foram o palco ideal para o lançamento de novidades. Toda essa parafernália não significa que recordes mundiais serão derrubados um atrás do outro só porque o nadador está usando uma roupa que o faz parecer com um peixe. O que decide uma prova ainda é a dedicação aos treinos e o imponderável. "Se o café-da-manhã no dia da prova não cair bem, o atleta não terá um bom desempenho", observa o americano Jordan Wand, diretor do Projeto Swift. São imponderáveis que podem pôr a perder o trabalho desenvolvido pelo atleta durante anos, não importa a qualidade da roupa ou do calçado que use.

 

Com motor e computador

O desenvolvimento de novas tecnologias esportivas é sempre bem-vindo – ainda que algumas delas levem a pensar sobre quem, afinal, precisa disso. O Adidas 1, que começará a ser vendido em dezembro, é um tênis equipado com um microprocessador capaz de realizar 1 000 cálculos por segundo e motor para ajustar o sistema de amortecimento em tempo real. A cada passo, sensores medem a distância entre o calcanhar do corredor e o chão. O computador avalia também as condições do terreno e até mesmo o estilo de corrida de quem usa o calçado. Um pequeno painel luminoso indica qual é o ajuste desejado – mais duro ou mais macio. É um luxo para quem não se importa em pagar 1.000 reais por um calçado que não será usado em competições pelos melhores atletas. Com 400 gramas, o Adidas 1 é muito pesado para competição, e nenhum atleta vai usá-lo em Atenas.

 
 
 
 
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