Edição 1854 . 19 de maio de 2004

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Sexo
Yes, queremos ser sexy

Vender o Brasil como a terra da
sensualidade ainda funciona:
os ingleses compram


Silvia Rogar, de Londres


Fotos JLE
JLE
Vanessa, a Madame V da marca de lingerie (à dir.), dá aula de sedução na Selfridges: promoção brasileira em Londres tem biquíni, desfile de moda, réplica de quarto de motel e bateria de escola de samba

Os ingleses, como todo mundo sabe e o cinema, o teatro, a literatura e as séries cômicas da BBC não se cansam de mostrar, são frios, pouco emotivos e menos ainda criativos na cama. Os brasileiros, ao contrário, são quentes como pimenta e andam com suas emoções constantemente sambando à flor da pele cor de canela. Explorando como podem esses dois estereótipos nacionais, profissionais brasileiros de diversas extrações estão vendendo o seu peixinho nas gélidas ilhas britânicas. Nenhum lugar-comum lhes é estranho. O lema "é brasileiro, é sexy" virou uma espécie de marketing para atividades variadas, que vão de aulas de samba a venda de lingerie. Na franja mais afastada estão os shows de strip-tease e os notórios rapazes de programa brasileiros, capazes de provocar paixões de abalar o reino. "A inglesa está querendo se comunicar mais com o corpo. E quem pode dar melhores dicas do que as brasileiras? Somos as mulheres mais sensuais do mundo, encaramos o assunto como estilo de vida", gaba-se a mineira Vanessa Senem, 30 anos, dona da marca de lingeries Madame V e uma espécie de líder do movimento de sedução para inglês ver. As calcinhas e os sutiãs Madame V são parte dos 800 tipos de produtos do Brasil à venda neste mês na loja de departamentos Selfridges, que, como faz habitualmente com outros países, promove uma feira batizada de Brasil 40º, em parceria com o governo brasileiro. Ao lado da obrigatória combinação Havaianas-cachaça-biquíni, comparecem marcas como Reinaldo Lourenço e Carlos Miele e objetos com o design dos irmãos Campana. Foram convocadas ainda profissionais de beleza para botar a mão na cera e mostrar a depilação à brasileira. Ou simplesmente brazilian, como é chamada lá fora, uma combinação de técnica e estilo que impressiona particularmente pelas intervenções, digamos, na área da virilha.

Vanessa lançou seus produtos em Londres há oito meses e a promoção da Selfridges caiu do céu. Lá, ganhou um cantinho especial: uma réplica de quarto de motel, com cama redonda e espelhos. Na inauguração, jornalistas e curiosas lotaram as aulas de sedução oferecidas por Vanessa em pessoa – as quais, garante, já ministrou (em particular e sem cobrar um centavo) para gente como a modelo Kate Moss e a estilista Stella McCartney. O que explica o interesse que vem despertando a decantada sensualidade brasileira? "O país passa por um momento cármico internacional", filosofa Vanessa, num discurso vagamente afinado com o do Itamaraty sob o governo Lula. Nascida em Belo Horizonte, ela se mudou aos 21 anos para a Europa. Foi compradora de moda e relações-públicas antes de abrir negócio próprio. A arte da sedução, proclama, é um dom inato. "Sou femme fatale desde os 5 anos de idade", apregoa. A grife Madame V vende na Inglaterra, na Espanha e nos Estados Unidos as 1.200 peças – na maioria, bem-comportadas até – que produz por mês numa fábrica em Minas Gerais. O campeão de vendas na Selfridges até agora é um conjunto de calcinha e sutiã com estampa de cerejinhas. Combina com um colar que tem a fruta como pingente. "Faço esses kits para o parceiro lembrar dos momentos íntimos em outras situações, quando olhar para a bijuteria", explica.

Vanessa abre suas aulas recomendando que todas aprendam a ter os cuidados estéticos da mulher brasileira. "Ela vai à manicure, pedicure e depiladora religiosamente, para se sentir bem. A brasileira se acha o máximo", ensina. Depois, pede às alunas que requebrem os quadris, olhando nos olhos umas das outras – momento em que todas as jornalistas inglesas aproveitaram para se entregar à melhor de todas as especialidades locais, o humor autodepreciativo. "Ela abre seu 'livrinho de receitas'; meus olhos correm pela página e noto as palavras 'mel' e 'genitais' perigosamente próximas", escreveu Hadley Freeman no The Guardian. Sem medo de ser acusada de denegrir a reputação nacional ou de participar de alguma sinistra conspiração neocolonialista, ela ri do que viu e ouviu: "A aula é cheia de estereótipos. Mas me diverti, principalmente aprendendo a fazer o olhar sensual para a paquera".

A inglesa de origem indiana Shahida Lorente, casada com um brasileiro, explora a vertente da sensualidade tropical há dez anos, quando lançou a grife Exotica – Knickers from Brazil ("calcinhas do Brasil"), que tem duas lojas em Londres. "Quando abrimos a loja, a inglesa era mais conservadora. Agora está mais aberta e querendo ficar mais sexy", anota. A única manifestação da sensualidade brasuca a causar certa polêmica é a que envolve estrelas dos clubes de strip-tease. Em Londres, hoje, as brasileiras são maioria entre elas, hegemonia que compreensivelmente desperta certa rivalidade. "Algumas não falam uma palavra de inglês, mas fazem sucesso porque têm o corpo perfeito à base de silicone e cirurgia plástica", sibila uma experiente stripper inglesa. Em tempo: na intimidade do casal, a cartilha de Madame V é contra o strip-tease. "Se o homem tiver menos de 30 anos, corre o risco de cair na gargalhada. Melhor preparar um jantar afrodisíaco", aconselha, num raro momento de realismo.

 
 
 
 
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