Edição 1854 . 19 de maio de 2004

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Realeza
Todas querem ser rainhas

Dois príncipes se casam com duas plebéias.
E, por instantes,
o mundo fica cor-de-rosa


Lizia Bydlowski

Reuters
NOIVA DA TASMÂNIA
Frederik e Mary, o novo par real: onda de casamentos nobres por motivo plebeu, o amor


Em um momento de rara conjunção de más notícias, em todos os cenários, nada como um casamento real – ou, melhor ainda, dois – para aliviar corações e olhos da plebéia audiência. Em Copenhague, na tarde de sexta-feira, casaram-se em clima de euforia, para os padrões nórdicos, o príncipe herdeiro Frederik, de quase encalhados 36 anos, e a advogada Mary Donaldson, 32, moça comum, sem nada de relevante no currículo, fora a peculiaridade de vir do outro lado do mundo, literalmente – ela é da Tasmânia, a exótica ilha pertencente à Austrália. Em Madri, no próximo sábado, 22, casa-se o príncipe herdeiro Felipe, da mesma idade que o amigo Frederik, com a jornalista Letizia Ortiz, 31 – ela, sim, cheia de histórias: ex-apresentadora de TV, é famosa em seu país, foi casada e, pelo menos até o noivado, declarava-se agnóstica. Desde que os dois casamentos foram anunciados (o de Frederik, em outubro; o de Felipe, em janeiro), Dinamarca, Espanha e, por tabela, Austrália acompanham cada passo das jovens sem título que um dia serão rainhas, com o misto de admiração e afeição que plebeus e, principalmente, plebéias costumam dedicar às cinderelas que saem do nada para se instalar no mundo de fantasia das casas reais. É nesses momentos que a arcaica instituição da monarquia mostra o poder que tem nos regimes democráticos onde sobrevive: o de evocar mitos recorrentes.

 
AP
LOIRA HOMENAGEM
Meninas com tiara comemoram o casamento do príncipe herdeiro: eterno mito

Ao contrário do que ocorreu com a mais famosa noiva real da história recente – Diana, suavemente empurrada para os braços pouco ansiosos de Charles em virtude de duas qualidades: era virgem e vinha de cepa nobre –, a atual onda de casamentos coroados é toda fruto do mais plebeu dos motivos, o amor. Mary, filha de imigrantes escoceses, morava em Sydney, trabalhava com publicidade e divertia-se com amigos em um bar (o Slip Inn, hoje atração turística) quando lá entraram Frederik e Felipe de Espanha, que estavam na cidade para as Olimpíadas de 2000. O namoro começou aí, mas foi mantido em total segredo por mais de um ano. No fim de 2001, ela se mudou para Paris; em 2003, instalou-se em um apartamento em Copenhague, foi trabalhar na Motorola local e dedicou-se à árdua mas imprescindível tarefa de aprender dinamarquês. Não era a nora que a rainha Margrethe pediu a Deus, mas, no mínimo, soube sossegar o irrequieto príncipe herdeiro – esportista, festeiro, tatuado, namorador de cantoras e modelos de lingerie e amante da boa vida (certa vez foi flagrado nu à beira de uma piscina na Riviera Francesa). E ainda podia ser mais complicado: Máxima, casada com o herdeiro da Holanda, é argentina e filha de um ministro da ditadura; Mette Marit, da Noruega, tem um filho com um ex-traficante de drogas.

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OS PRÓXIMOS
Letizia e Felipe em noite de gala: ela tem passado, mas, melhor ainda, muito futuro


Dura e pouco à vontade no começo, Mary, que tem um professor de protocolo e uma professora de moda e estilo, já fala o idioma com alguma desenvoltura, melhorou consideravelmente a postura e aprendeu a acenar como princesa e a usar aquelas roupas estranhas da realeza, que de perto parecem feitas de cortina, mas de longe causam grande efeito. Na única entrevista que concedeu desde o noivado, citou (quem mais?) Kierkegaard: "Ele disse: 'Ousar é perder o pé por um momento. Não ousar é se perder'. Acho que a vida é exatamente assim". Na semana do casamento, com uma maratona de compromissos públicos e convidados importantes, os dinamarqueses entraram em clima de festa. A mais encantadora foi a que reuniu uma multidão de crianças que pareciam saídas de um livro de contos de fada, para ficar no clichê obrigatório, todas vestidas de príncipe e princesa. O desfile em carruagem aberta depois do casamento – em que Frederik chorou ao ver Mary entrar, de vestido tradicional e enorme cauda, ao lado do pai, de kilt – foi visto de perto por 250.000 pessoas. Como é previsível nessas ocasiões, o apoio à monarquia da Dinamarca disparou – chegou a 82%.

A empolgação popular deve se repetir nesta semana na Espanha, embora lá a futura rainha provoque muito mais trepidação do que a tépida Mary. Letizia é independente ("Me deixe terminar", disparou, quando Felipe tentou conter sua verborragia no dia do anúncio do noivado), segura de si e acostumada aos holofotes. Tem ex-marido e ex-namorados, e a possibilidade de que fotos e fatos de seu passado venham à tona provoca calafrios na casa real – o pintor cubano radicado no México Waldo Saavedra, a quem Letizia conheceu quando passou um ano no país, assinou um nu com o rosto dela, mas garante que é "só o rosto". "Fomos amigos", disse. Instalada em palácio desde janeiro, Letizia, que deixou o emprego no dia do noivado, empenha-se no curso intensivo de princesa. Procura limitar suas falas públicas a "Olá, como vai?" e "Até logo". Abandonou o hábito de mexer no cabelo, considerado provocante. O guarda-roupa, antes limitado a terninhos e terninhos (Armani, de preferência), aprimora-se dia a dia – no concerto em Copenhague, na véspera do casamento real, brilhou de saia vermelha e top estampado, com ombros de fora. Bonita, magra e de eterno salto alto para diminuir a diferença entre ela e o noivo de mais de 2 metros, Letizia é candidata a um dia alcançar o deslumbrante patamar da elegância que Diana deixou vago. Seria praticamente um desvio de comportamento na realeza da Espanha, onde as mulheres costumam combinar com as roupas desenxabidas. E uma alegria para um mundo que anda precisando de um pouco de diversão.

 
 
 
 
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