|
|
Europa
O inimigo dentro de casa
A
Europa tem dificuldade para controlar
o avanço do fanatismo e do terrorismo
entre seus habitantes muçulmanos
AFP
 |
| Sob
o olhar complacente da polícia, muçulmanos ingleses
prestam homenagem aos terroristas do 11 de Setembro e, na foto
abaixo, escola fundamentalista em Londres. |
AP
 |
Um
mês atrás, nove jovens muçulmanos de classe
média nascidos na Inglaterra foram presos em Londres com
meia tonelada de nitrato de amônia, produto químico
com o qual se podem fabricar explosivos. A quantidade apreendida
seria suficiente para causar uma explosão cinco vezes mais
potente que a do atentado da Al Qaeda em Bali, que matou 200 pessoas
em 2002. A conversão desses jovens ingleses à guerra
santa islâmica e a forma metódica como eles se preparavam
para chacinar seus concidadãos são sintomas de um
grave perigo: a expansão do fanatismo nas comunidades muçulmanas
da Europa. Os atentados contra os trens em Madri, com duas centenas
de mortos em março, foram realizados por uma célula
de terroristas locais. As pesquisas mostram que apenas uma minoria
dos mais de 11 milhões de muçulmanos da Europa Ocidental
simpatiza com o terrorismo. Mas o que se vê agora é
um fenômeno inverso ao da aculturação que existia
no passado. Há uma busca crescente, sobretudo entre os jovens,
por raízes islâmicas.
É
nesse universo fértil, em que se junta a frustração
pelas dificuldades de adaptação típicas da
imigração com uma visão mitificada do Islã,
que prolifera a exortação à guerra santa feita
por clérigos radicais. Neste momento, o governo inglês
luta na Justiça para deportar Abu Hamza, um mulá nascido
no Egito e radicado em Londres desde 1980. Num acidente com uma
bomba num campo de treinamento da Al Qaeda no Afeganistão,
ele perdeu as duas mãos e ficou cego de um olho. Ao voltar
para a Inglaterra, tornou-se conhecido por pregar abertamente a
guerra santa numa mesquita de Londres. Ele também arenga
seu veneno em comícios organizados em ruas e parques londrinos.
Entre seus seguidores está Richard Reid, preso num avião
que ia para Miami, em 2001, com uma bomba escondida no sapato. Há
um ano, o governo usou uma nova lei antiterror para pedir a deportação
do clérigo. Por meio de recursos, ele conseguiu protelar
a decisão da Justiça para 2005. No ano passado, um
grupo fundamentalista liderado pelo xeque Omar Bakri Mohamed e formado
basicamente por filhos de imigrantes paquistaneses nascidos na Inglaterra
promoveu um ato de homenagem aos terroristas do 11 de Setembro
os "Magníficos 19", como eles os chamam. A cerimônia
foi na rua, sob o olhar impotente da polícia.
Como
combater o terrorismo sem violar os direitos civis de muçulmanos
é o dilema das democracias ocidentais. Para conter o avanço
fundamentalista, alguns países estão fechando o cerco
aos clérigos acusados de incitar o ódio ou de fomentar
o terrorismo. O governo da Espanha e o da Alemanha estudam meios
de monitorar os sermões nas mesquitas. A Itália deportou
um clérigo senegalês. Só neste ano, a França
expulsou dois imãs estrangeiros e ameaçou outros três
de deportação. As dificuldades legais para as expulsões
são enormes. Numa entrevista, o clérigo argelino Abdelkader
Bouziane, de 52 anos e há 25 vivendo na França, defendeu
a poligamia e o direito de o marido espancar a mulher. As autoridades
francesas imediatamente colocaram Bouziane num avião rumo
a Argel. Dias depois, a Justiça francesa declarou nula a
deportação sem direito a recurso e Bouziane
pôde voltar para a França.
Vários
países europeus também reforçaram a vigilância
sobre grupos terroristas que agem ao estilo da Máfia dentro
da comunidade islâmica. Eles controlam atividades ilegais,
como venda de vistos falsificados, e usam células espalhadas
pelo continente para arrecadar dinheiro para suas atividades. Recentemente,
as autoridades francesas revelaram que vários frascos contendo
ricina em pó, uma toxina venenosa extraída da mamona,
foram distribuídos para células da Al Qaeda na Espanha,
na Inglaterra, na Rússia e no norte do Iraque. Solúvel
e inodora, a ricina pode contaminar em pequena escala suprimentos
de água ou de alimentos. Ela ataca as células, causando
hemorragia interna e falência dos órgãos. Uma
dose injetada no sangue, do tamanho de uma ponta de alfinete, é
suficiente para matar em 36 horas. Os frascos foram produzidos por
um francês filho de imigrantes argelinos num laboratório
improvisado dentro de casa, em Lyon. O terrorista, de 29 anos, está
preso desde 2002, acusado de planejar um atentado mas só
agora sua produção de ricina foi revelada. Os frascos
distribuídos ainda não foram localizados.
|