Edição 1854 . 19 de maio de 2004

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Europa
O inimigo dentro de casa

A Europa tem dificuldade para controlar
o avanço do fanatismo e do terrorismo
entre seus habitantes muçulmanos



AFP
Sob o olhar complacente da polícia, muçulmanos ingleses prestam homenagem aos terroristas do 11 de Setembro e, na foto abaixo, escola fundamentalista em Londres.
AP

Em Profundidade: Islamismo

Um mês atrás, nove jovens muçulmanos de classe média nascidos na Inglaterra foram presos em Londres com meia tonelada de nitrato de amônia, produto químico com o qual se podem fabricar explosivos. A quantidade apreendida seria suficiente para causar uma explosão cinco vezes mais potente que a do atentado da Al Qaeda em Bali, que matou 200 pessoas em 2002. A conversão desses jovens ingleses à guerra santa islâmica e a forma metódica como eles se preparavam para chacinar seus concidadãos são sintomas de um grave perigo: a expansão do fanatismo nas comunidades muçulmanas da Europa. Os atentados contra os trens em Madri, com duas centenas de mortos em março, foram realizados por uma célula de terroristas locais. As pesquisas mostram que apenas uma minoria dos mais de 11 milhões de muçulmanos da Europa Ocidental simpatiza com o terrorismo. Mas o que se vê agora é um fenômeno inverso ao da aculturação que existia no passado. Há uma busca crescente, sobretudo entre os jovens, por raízes islâmicas.

É nesse universo fértil, em que se junta a frustração pelas dificuldades de adaptação típicas da imigração com uma visão mitificada do Islã, que prolifera a exortação à guerra santa feita por clérigos radicais. Neste momento, o governo inglês luta na Justiça para deportar Abu Hamza, um mulá nascido no Egito e radicado em Londres desde 1980. Num acidente com uma bomba num campo de treinamento da Al Qaeda no Afeganistão, ele perdeu as duas mãos e ficou cego de um olho. Ao voltar para a Inglaterra, tornou-se conhecido por pregar abertamente a guerra santa numa mesquita de Londres. Ele também arenga seu veneno em comícios organizados em ruas e parques londrinos. Entre seus seguidores está Richard Reid, preso num avião que ia para Miami, em 2001, com uma bomba escondida no sapato. Há um ano, o governo usou uma nova lei antiterror para pedir a deportação do clérigo. Por meio de recursos, ele conseguiu protelar a decisão da Justiça para 2005. No ano passado, um grupo fundamentalista liderado pelo xeque Omar Bakri Mohamed e formado basicamente por filhos de imigrantes paquistaneses nascidos na Inglaterra promoveu um ato de homenagem aos terroristas do 11 de Setembro – os "Magníficos 19", como eles os chamam. A cerimônia foi na rua, sob o olhar impotente da polícia.

Como combater o terrorismo sem violar os direitos civis de muçulmanos é o dilema das democracias ocidentais. Para conter o avanço fundamentalista, alguns países estão fechando o cerco aos clérigos acusados de incitar o ódio ou de fomentar o terrorismo. O governo da Espanha e o da Alemanha estudam meios de monitorar os sermões nas mesquitas. A Itália deportou um clérigo senegalês. Só neste ano, a França expulsou dois imãs estrangeiros e ameaçou outros três de deportação. As dificuldades legais para as expulsões são enormes. Numa entrevista, o clérigo argelino Abdelkader Bouziane, de 52 anos e há 25 vivendo na França, defendeu a poligamia e o direito de o marido espancar a mulher. As autoridades francesas imediatamente colocaram Bouziane num avião rumo a Argel. Dias depois, a Justiça francesa declarou nula a deportação sem direito a recurso – e Bouziane pôde voltar para a França.

Vários países europeus também reforçaram a vigilância sobre grupos terroristas que agem ao estilo da Máfia dentro da comunidade islâmica. Eles controlam atividades ilegais, como venda de vistos falsificados, e usam células espalhadas pelo continente para arrecadar dinheiro para suas atividades. Recentemente, as autoridades francesas revelaram que vários frascos contendo ricina em pó, uma toxina venenosa extraída da mamona, foram distribuídos para células da Al Qaeda na Espanha, na Inglaterra, na Rússia e no norte do Iraque. Solúvel e inodora, a ricina pode contaminar em pequena escala suprimentos de água ou de alimentos. Ela ataca as células, causando hemorragia interna e falência dos órgãos. Uma dose injetada no sangue, do tamanho de uma ponta de alfinete, é suficiente para matar em 36 horas. Os frascos foram produzidos por um francês filho de imigrantes argelinos num laboratório improvisado dentro de casa, em Lyon. O terrorista, de 29 anos, está preso desde 2002, acusado de planejar um atentado – mas só agora sua produção de ricina foi revelada. Os frascos distribuídos ainda não foram localizados.

 
 
 
 
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