Edição 1854 . 19 de maio de 2004

Índice
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Lya Luft
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Estados Unidos
Balada em Abu Ghraib

Lynndie England, a soldada americana
que virou símbolo da tortura,
pode
influenciar o futuro do Iraque

 
Fotos Reuters
AP


TEM COISA PIOR AINDA

As cenas conhecidas protagonizadas por Lynndie, sozinha ou com o namorado, antecipam o que ainda não veio a público: arautos da democracia transformados em tarados dos porões

Cobertura especial: Guerra no Iraque

O governo do presidente George W. Bush já estava com um problema tremendo nas mãos: o que fazer com os 25 milhões de iraquianos e sua montanha de disputas sectárias, inimizades étnicas e irredentismo inato, tudo regado por um ódio cada vez maior ao ocupante americano. Agora, tem um novo dilema: que encaminhamento dar a uma única pessoa, a soldada Lynndie England, a baixinha invocada que aparece nas fotos mais sórdidas dos suplícios infligidos a detentos iraquianos na prisão de Abu Ghraib. De certa forma, os destinos de todos estão entrelaçados.

Para o governo, o mais conveniente é que ela seja enquadrada como uma anomalia, uma desatinada que, com mais meia dúzia de colegas, escapou ao controle e praticou barbaridades de moto próprio. Será julgada, punida e pronto, caso encerrado. Aos 21 anos, grávida de cinco meses de um companheiro carcereiro, Lynndie obviamente não tem o menor interesse no papel de bode expiatório. E tem um advogado ávido por briga. A tática é usar o argumento de praxe de todos os militares pegos em situação similar em qualquer tempo e lugar: estava cumprindo ordens. "Recebi instruções de pessoas dos escalões superiores para ficar lá e segurar a guia", afirmou na semana passada sobre a foto em que aparece puxando um iraquiano prostrado como se fosse um cão, situação na qual disse ter se sentido "meio esquisita". Quanto mais se comprovar que existe uma política deliberada de supliciar prisioneiros, o que vem sendo investigado pelo Congresso e por uma imprensa subitamente reenergizada, mais enfraquecido sai o governo Bush. E, conseqüentemente, mais mudam as perspectivas sobre o desenlace do dilema iraquiano. Lynndie, que involuntariamente já mudou – para pior ainda – a maneira como a intervenção americana é vista, pode alterar também o futuro do Iraque.

Reuters


A questão é que provavelmente existem doses de verdade em ambas as interpretações. Lynndie e colegas, todos reservistas destacados para funções na Polícia do Exército, não inventaram as tétricas baladas de Abu Ghraib da própria cabeça. O relatório do general Antonio Taguba sobre as irregularidades nas prisões iraquianas deixa claro que o sistema todo era controlado pelos serviços de inteligência militar, por agentes da CIA e por "interrogadores" de empresas de segurança terceirizadas. Foram deles as instruções aos carcereiros para que "amaciassem" os prisioneiros. O jornalista Seymour Hersh, o primeiro a conseguir a documentação dos abusos, relata como um capitão repeliu a ordem dada por um oficial de inteligência para que seus comandados impedissem prisioneiros de dormir, argumentando: "Meus soldados não foram treinados para isso. E quando você manda um menino de 18 anos manter alguém acordado, sem que ele saiba como fazer isso, ele vai começar a ter idéias criativas".

Entra aí o elemento pessoal. Lynndie e companhia evidentemente tiveram as próprias idéias criativas – e elas giravam todas em torno de abusos de natureza sexual. Práticas desse tipo fazem parte do arsenal de torturadores de qualquer origem, mas a obsessão monotemática dos militares americanos acrescenta uma forte dose de constrangimento, em especial num governo de viés puritano, que financia programas de incentivo à abstinência sexual entre os jovens americanos. É como se os soldados enviados por Bush como arautos da democracia se tivessem transformado em tarados dos porões. À nudez compulsória, à simulação obrigatória de atos homossexuais, à encenação sadomasoquista do homem na coleira, mostradas nas fotos que vieram a público, somam-se aquelas vistas apenas em sessão fechada do Congresso. São presos sodomizados, detentas obrigadas a desnudar os seios, vilipêndio de cadáver, segundo um resumo de senadores horrorizados. "Pegue o pior que já saiu e multiplique várias vezes", disse o democrata Ron Wyden. O ambiente de lassidão profissional previsivelmente degringolou em esbórnia individual. "Quase todo mundo estava pelado o tempo todo", disse outro congressista. Os presos? Não, os carcereiros. Lynndie, sempre ela, aparece fazendo sexo com o homem de quem está grávida, o cabo Charles Graner Jr., que será levado à corte marcial, na frente de prisioneiros. Aparece também com outros "numerosos parceiros".

Os desdobramentos da caixa de horrores aberta em Abu Ghraib ainda não podem ser avaliados em toda a sua extensão. Na esteira dela, veio à tona o sistema secreto de prisões-fantasma para militantes da Al Qaeda em poder dos americanos – e as técnicas de "interrogatório" piores ainda do que as vistas em Bagdá ou Guantánamo. No plano mais amplo, a autoridade moral que os Estados Unidos podiam ter para exigir respeito aos direitos humanos em outros países desabou fragorosamente. Até Fidel Castro, regularmente condenado, tirou uma casquinha da hipocrisia americana – e, pior de tudo, com razão. No teatro de guerra, o ambiente de violência extrema ganhou um impulso assustador. O civil americano Nick Berg, refém de um grupo de fanáticos no Iraque, foi degolado diante de câmeras na semana passada. Os assassinos disseram que era uma represália pelos tormentos praticados em Abu Ghraib. Mentira – eles não precisam de pretextos para cometer um ato hediondo desse tipo. Mas o perigo está na praga do ciclo vicioso de represálias e contra-represálias, uma das maldições que pairam sobre israelenses e palestinos (a última do Hamas foi coletar e exibir pedaços de corpos de soldados inimigos mortos numa explosão). E se uma militar americana for capturada por algum grupo armado iraquiano? Não será a imagem de Lynndie England atormentando seus compatriotas que terão na cabeça para decidir o que farão com ela?

 
 
 
 
topo voltar