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Estados
Unidos
Balada
em Abu Ghraib
Lynndie
England, a soldada americana
que virou símbolo da tortura, pode
influenciar o futuro do Iraque
Fotos Reuters
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AP
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TEM COISA PIOR AINDA
As cenas conhecidas protagonizadas por Lynndie, sozinha ou com
o namorado, antecipam o que ainda não veio a público: arautos
da democracia transformados em tarados dos porões |
O
governo do presidente George W. Bush já estava com um problema
tremendo nas mãos: o que fazer com os 25 milhões de
iraquianos e sua montanha de disputas sectárias, inimizades
étnicas e irredentismo inato, tudo regado por um ódio
cada vez maior ao ocupante americano. Agora, tem um novo dilema:
que encaminhamento dar a uma única pessoa, a soldada Lynndie
England, a baixinha invocada que aparece nas fotos mais sórdidas
dos suplícios infligidos a detentos iraquianos na prisão
de Abu Ghraib. De certa forma, os destinos de todos estão
entrelaçados.
Para
o governo, o mais conveniente é que ela seja enquadrada como
uma anomalia, uma desatinada que, com mais meia dúzia de
colegas, escapou ao controle e praticou barbaridades de moto próprio.
Será julgada, punida e pronto, caso encerrado. Aos 21 anos,
grávida de cinco meses de um companheiro carcereiro, Lynndie
obviamente não tem o menor interesse no papel de bode expiatório.
E tem um advogado ávido por briga. A tática é
usar o argumento de praxe de todos os militares pegos em situação
similar em qualquer tempo e lugar: estava cumprindo ordens. "Recebi
instruções de pessoas dos escalões superiores
para ficar lá e segurar a guia", afirmou na semana passada
sobre a foto em que aparece puxando um iraquiano prostrado como
se fosse um cão, situação na qual disse ter
se sentido "meio esquisita". Quanto mais se comprovar que existe
uma política deliberada de supliciar prisioneiros, o que
vem sendo investigado pelo Congresso e por uma imprensa subitamente
reenergizada, mais enfraquecido sai o governo Bush. E, conseqüentemente,
mais mudam as perspectivas sobre o desenlace do dilema iraquiano.
Lynndie, que involuntariamente já mudou para pior
ainda a maneira como a intervenção americana
é vista, pode alterar também o futuro do Iraque.
Reuters
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A questão é que provavelmente existem doses de verdade
em ambas as interpretações. Lynndie e colegas, todos
reservistas destacados para funções na Polícia
do Exército, não inventaram as tétricas baladas
de Abu Ghraib da própria cabeça. O relatório
do general Antonio Taguba sobre as irregularidades nas prisões
iraquianas deixa claro que o sistema todo era controlado pelos serviços
de inteligência militar, por agentes da CIA e por "interrogadores"
de empresas de segurança terceirizadas. Foram deles as instruções
aos carcereiros para que "amaciassem" os prisioneiros. O jornalista
Seymour Hersh, o primeiro a conseguir a documentação
dos abusos, relata como um capitão repeliu a ordem dada por
um oficial de inteligência para que seus comandados impedissem
prisioneiros de dormir, argumentando: "Meus soldados não
foram treinados para isso. E quando você manda um menino de
18 anos manter alguém acordado, sem que ele saiba como fazer
isso, ele vai começar a ter idéias criativas".
Entra
aí o elemento pessoal. Lynndie e companhia evidentemente
tiveram as próprias idéias criativas e elas
giravam todas em torno de abusos de natureza sexual. Práticas
desse tipo fazem parte do arsenal de torturadores de qualquer origem,
mas a obsessão monotemática dos militares americanos
acrescenta uma forte dose de constrangimento, em especial num governo
de viés puritano, que financia programas de incentivo à
abstinência sexual entre os jovens americanos. É como
se os soldados enviados por Bush como arautos da democracia se tivessem
transformado em tarados dos porões. À nudez compulsória,
à simulação obrigatória de atos homossexuais,
à encenação sadomasoquista do homem na coleira,
mostradas nas fotos que vieram a público, somam-se aquelas
vistas apenas em sessão fechada do Congresso. São
presos sodomizados, detentas obrigadas a desnudar os seios, vilipêndio
de cadáver, segundo um resumo de senadores horrorizados.
"Pegue o pior que já saiu e multiplique várias vezes",
disse o democrata Ron Wyden. O ambiente de lassidão profissional
previsivelmente degringolou em esbórnia individual. "Quase
todo mundo estava pelado o tempo todo", disse outro congressista.
Os presos? Não, os carcereiros. Lynndie, sempre ela, aparece
fazendo sexo com o homem de quem está grávida, o cabo
Charles Graner Jr., que será levado à corte marcial,
na frente de prisioneiros. Aparece também com outros "numerosos
parceiros".
Os
desdobramentos da caixa de horrores aberta em Abu Ghraib ainda não
podem ser avaliados em toda a sua extensão. Na esteira dela,
veio à tona o sistema secreto de prisões-fantasma
para militantes da Al Qaeda em poder dos americanos e as
técnicas de "interrogatório" piores ainda do que as
vistas em Bagdá ou Guantánamo. No plano mais amplo,
a autoridade moral que os Estados Unidos podiam ter para exigir
respeito aos direitos humanos em outros países desabou fragorosamente.
Até Fidel Castro, regularmente condenado, tirou uma casquinha
da hipocrisia americana e, pior de tudo, com razão.
No teatro de guerra, o ambiente de violência extrema ganhou
um impulso assustador. O civil americano Nick Berg, refém
de um grupo de fanáticos no Iraque, foi degolado diante de
câmeras na semana passada. Os assassinos disseram que era
uma represália pelos tormentos praticados em Abu Ghraib.
Mentira eles não precisam de pretextos para cometer
um ato hediondo desse tipo. Mas o perigo está na praga do
ciclo vicioso de represálias e contra-represálias,
uma das maldições que pairam sobre israelenses e palestinos
(a última do Hamas foi coletar e exibir pedaços de
corpos de soldados inimigos mortos numa explosão). E se uma
militar americana for capturada por algum grupo armado iraquiano?
Não será a imagem de Lynndie England atormentando
seus compatriotas que terão na cabeça para decidir
o que farão com ela?
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