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Ciência
O
stress que faz bem
Nosso
organismo foi projetado para
enfrentar a adversidade e precisa
dela para prosperar

Isabela
Boscov
Digitalvision
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UMA
CATÁSTROFE BIOQUÍMICA
Falta oxigênio aqui, sobram oxidantes ali: é
com desafios assim que o exercício estimula a saúde
a se recompor |
A receita
nasceu da observação do "paradoxo francês"
o fato de que um povo que adora manteiga e creme de leite tem um
baixo índice de doenças cardíacas e
já se tornou popular: uma taça de vinho tinto, algumas
vezes por semana, faz bem à saúde. Isso graças
às substâncias chamadas flavonóides, nas quais
o vinho tinto é rico. No ano passado, a publicação
de um estudo americano que acompanhou quase 40.000
homens entre 40 e 75 anos de idade, de 1986 a 1998, mostrou que
não é bem assim: o segredo do sucesso, na verdade,
é o etanol o ingrediente ativo do vinho, da cerveja
e dos destilados. Ou seja, não importa o drinque de preferência
do freguês: os efeitos positivos são os mesmos, desde
que se beba com comedimento e regularidade não mais
do que duas doses por dia (uma só, no caso das mulheres),
em alguns dias da semana. As vantagens são várias,
e bem maiores do que a prática da abstinência: uma
redução de até 40% no risco de ter doenças
cardíacas e vasculares, além de proteção
contra cálculos vesiculares e diabetes tipo 2. Isso para
quem consegue manter a temperança. Consumido em excesso,
o álcool é o mesmo veneno de sempre: provoca problemas
no coração e cirrose hepática, predispõe
a tumores de mama e ao câncer de boca, garganta, esôfago
e cólon, prejudica os fetos e responde ainda por trapalhadas
diplomáticas, casos de depressão, violência,
dissolução familiar e pela maioria das mortes no trânsito.
Está aí uma contradição que há
muito intriga os cientistas às vezes, um pouquinho
daquilo que faz mal pode nos fazer bem.
O
que a ciência tem demonstrado, em estudos ainda cercados de
polêmica, é que não só o álcool
tem esse caráter duplo, de ser tônico ou veneno conforme
a dose. Praticamente todo tipo de insulto ao organismo, da fome
ao exercício físico e à radiação,
teria um comportamento semelhante. Tome-se, por exemplo, o caso
dos sobreviventes das bombas atômicas lançadas sobre
Hiroshima e Nagasaki, no Japão, em 1945. Aqueles expostos
a altos níveis de radiação tiveram uma incidência
de câncer muito aumentada em relação ao restante
da população. Já as pessoas expostas a baixos
níveis de radiação tiveram vida mais longa,
e menos casos de câncer, do que as que não haviam tido
nenhum contato com ela. Levantamentos feitos junto a trabalhadores
de usinas atômicas no Canadá, na Inglaterra e nos Estados
Unidos mostram números semelhantes: índices de leucemia
o câncer típico da radiação
mais baixos que os da população em geral. O que se
supõe é que, embora muita radiação seja
letal, uma baixa exposição induziria o sistema imunológico
a contra-atacar os seus efeitos com muito vigor. Tanto vigor, aliás,
que a reparação dos prejuízos seria superior
aos mesmos, trazendo resultado mais benéfico do que se não
houvesse insulto nenhum a reparar.
Esse
conceito, de que algum desafio ao organismo é melhor do que
nenhum desafio, desde 1943 tem o nome de hormese (do grego hormao,
ou excitar), e há pelo menos uma década é objeto
de estudos sistemáticos de alguns pesquisadores. Um deles
é o americano Edward Calabrese, da Universidade de Massachusetts,
que revisou milhares de pesquisas toxicológicas em busca
de evidências de que a hormese é um processo natural
de toda a vida sobre a Terra. Calabrese encontrou várias
provas, algumas delas desconcertantes. Um exemplo: a dioxina, uma
substância tão tóxica que à razão
de 10 partes por bilhão (ou sete colheres de chá para
uma piscina olímpica) é capaz de causar tumores de
fígado em ratos, em doses ainda mais ínfimas pode
justamente inibir a formação desses tumores. Alguns
herbicidas, quando usados em baixas concentrações,
fazem com que as plantas que eles deveriam matar se desenvolvam
de forma luxuriante, e o mesmo acontece com certas bactérias
na presença de pequenas porções de antibióticos.
Os exemplos são incontáveis e, segundo os estudiosos
da área, obedecem a um sem-número de mecanismos diferentes.
Todos, porém, apontam para uma mesma direção:
ao deparar com um nível, digamos, gerenciável de stress,
o organismo batalha para compensá-lo. E, por precaução,
termina por supercompensá-lo.
É
o que se chama de resposta adaptativa ao stress, um "instinto" geneticamente
embutido em todas as formas de vida do planeta. Mais: como a vida
evolui no sentido de responder à adversidade, ela precisaria
desta para prosperar. Um belo exemplo desse mecanismo está
em duas espécies de coníferas encontradas nas montanhas
que vão da Califórnia a Utah, nos Estados Unidos.
Os Pinus longaeva e aristata sobrevivem em condições
terríveis: solo árido, paupérrimo em nutrientes
e em umidade, ventos fortes, frio extremo. No entanto, estão
entre os seres vivos mais velhos do planeta: muitos dos espécimes
encontrados têm quase 5.000 anos
de idade. Eram pequenas mudas quando as pirâmides do Egito
foram construídas e continuam férteis nos dias de
hoje, embora habitem regiões em que nenhuma outra forma de
vegetação conseguiu se radicar. Elas são uma
ilustração viva da máxima pregada pelo filósofo
alemão Friedrich Nietzsche, segundo a qual aquilo que não
nos mata nos torna mais fortes e que serve também
como uma boa síntese para a hormese.
Como
muito do estudo da hormese lida com matéria-prima de alto
risco, ele vem cercado de suspeitas, e é quase impossível
testar essas hipóteses em experimentos com seres humanos
até porque eles violariam a legislação
mundial de segurança. É o caso de um projeto japonês
que envolve vários centros de pesquisa, mas segue aos trancos
e barrancos, de tratar pacientes de câncer com exposição
total à radiação. Há áreas, porém,
em que as questões éticas praticamente inexistem e
os resultados são muito animadores. Uma delas é a
do sempre recomendável exercício físico. Do
ponto de vista bioquímico, a malhação poderia
ser interpretada como uma catástrofe, já que priva
algumas células de oxigênio e glicose e inunda outras
de oxidantes. Mas esse stress temporário estimula o organismo
a se recompor do "ataque". Em vez do que seria lógico esperar,
então imunidade deprimida, excesso de radicais livres
circulando e acelerando o envelhecimento , o exercício
moderado traz os resultados opostos, como maior resistência
a doenças e um adiamento dos processos degenerativos.
Ao
que se sabe, só há uma outra estratégia mais
eficaz do que o exercício: a restrição calórica.
Os efeitos adversos da fome são conhecidos nas populações
que a sofrem de forma crônica desenvolvimento físico
e mental retardado e, não raro, morte. Um pouco de fome,
porém (e desde que não haja escassez de nutrientes),
faz milagres pela vida. Na verdade, faz o maior de todos os milagres:
torna-a longa e saudável. Uma redução de 40%
no número de calorias ingeridas a cada dia aumentou na mesma
proporção o tempo de vida de ratos de laboratório
e dobrou a quantidade de proteína que protege contra
a morte celular, uma das causas do mal de Alzheimer. Os efeitos
sobre os seres humanos são muito parecidos, e podem estar
na raiz da longevidade que se verifica em algumas populações
isoladas, como as que vivem na região da Abkhazia, na Geórgia,
e em Vilcabamba, no Equador, os maiores celeiros de centenários
do planeta. Os moradores desses locais têm uma alimentação
salutar e balanceada, mas ingerem menos de 2.000
calorias diárias, pouco para quem executa o trabalho rigoroso
do campo. Mesmo quando já estão bem passados dos 100
anos, também, os georgianos permanecem ativos nas colheitas
e em casa, reafirmando o preceito de que a inatividade, na velhice,
não nos poupa ela nos priva de um desafio benéfico.
Essa,
claro, é a promessa com que a hormese acena: a da longevidade.
Não no sentido de uma velhice longa como a de Matusalém,
o patriarca do Velho Testamento que teria vivido até
os 969 anos, mas no de uma juventude duradoura. Esse é um
interesse mais do que legítimo. A expectativa de vida de
um homem nascido na Idade Média, entre os séculos
IX e XII, era de cerca de 29 anos. No começo do século
XX, era de mais ou menos 50 anos. Hoje, graças aos gigantescos
avanços na medicina e na saúde pública, uma
pessoa nascida no conforto dos países desenvolvidos pode
dar quase como certo que chegará aos 75 anos. É um
salto de magnitude sem precedentes na história, e coloca
a humanidade diante de um anseio inédito: se vamos viver
tanto, é preciso viver bem e com saúde. Esse, entretanto,
é um desejo a que a ciência ainda não é
capaz de atender a contento.
A
idade avançada acarreta uma multidão de pequenos e
grandes problemas. Articulações rígidas, pele
frágil, deficiências de visão e audição,
declínio da função sexual com sorte,
a lista pára por aí. Infelizmente, porém, é
grande a probabilidade de que ela venha a prosseguir e incluir,
por exemplo, algum tipo de câncer, resultado da perda da habilidade
das células em manter íntegro o seu DNA. Entre as
doenças típicas da velhice, uma das mais temidas também
é o mal de Alzheimer uma forma de demência que
começa a se manifestar com pequenas falhas de memória
e mudanças de humor, e progride até aniquilar toda
a noção de identidade do paciente. Só nos Estados
Unidos, as vítimas de Alzheimer já são 4,5
milhões, e as despesas com elas estão na casa dos
100 bilhões de dólares sem que se possa proporcionar
cura ou mesmo alívio significativo para os doentes. Se a
seleção natural premia os indivíduos mais aptos,
que sentido fará para ela que todo esse esforço termine
quase sempre de forma tão perversa, em senescência
e degeneração? Por que, enfim, é preciso envelhecer?
Os
cientistas trabalham hoje com duas hipóteses mais prováveis
para as razões do envelhecimento. A primeira diz que a seleção
natural se preocupa em eliminar traços negativos que possam
ser transmitidos aos descendentes, mas as mazelas da velhice não
se encaixam nessa categoria. Como elas se manifestam depois que
o indivíduo já passou da idade reprodutiva, os genes
que as comandam não são submetidos ao crivo da seleção
natural e, assim, vão se propagando e se acumulando
de forma passiva de geração em geração.
A outra teoria diz que os genes que são os bandidos do envelhecimento
talvez ajam como mocinhos durante a juventude. Ainda que causem
estrago na idade avançada, são úteis enquanto
o indivíduo está na fase de procriar, e por isso a
seleção natural se encarrega, ativamente, de mantê-los
em circulação. Os pesquisadores Leonid A. Gavrilov
e Natalia S. Gavrilova, da Universidade de Chicago, citam como exemplo
possível de genes "vira-casacas" aqueles que favorecem a
produção farta de hormônios sexuais. Na juventude,
eles responderiam por maior desejo sexual e fecundidade. Se na velhice
vierem a causar câncer de próstata em homens e de ovário
em mulheres ora, a evolução não dá
a mínima bola para o que, de seu ponto de vista, é
um contratempo negligenciável.
Agora,
porém, uma terceira via para entender e "curar" o envelhecimento
parece estar despontando. Uma série de estudos recentes tem
mostrado que existem genes solitários que agem como "botões
de liga-desliga" para o processo de declínio. Quando esse
"interruptor" foi desligado em laboratório, por meio de mutação,
vermes, mosquinhas-das-frutas e ratos os personagens desses
estudos viveram até 35% mais do que o normal, mostraram
maior resistência ao stress imposto pela escassez de alimentos
ou exposição a substâncias tóxicas e
mantiveram-se férteis e saudáveis durante todo o seu
tempo extra de vida. Se fossem seres humanos, seriam o equivalente
a um homem de 90 anos com a aparência e a disposição
de alguém de 45. Se a restrição calórica
ou a radiação se revelarem maneiras possíveis
de neutralizar o comando que nos obriga à velhice e ao declínio,
como querem alguns dos estudiosos da hormese, então estaremos
perto da mais cobiçada das revoluções
a longa juventude. O que fazer com a conta da Previdência
Social nesse caso? Essa já é outra história.
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