Edição 1854 . 19 de maio de 2004

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Comportamento
Bebê com hora marcada

Por comodidade, as mulheres optam cada
vez mais pela cesariana programada


Rosana Zakabi

Caras
Caroline Ribeiro, com João Felipe: "Preferi não arriscar"


Houve um tempo em que as operações cesarianas eram realizadas apenas quando o parto normal representava risco para o bebê ou para a mãe. Mau posicionamento da criança no útero, cordão umbilical enrolado em seu pescoço, gestante hipertensa – esses são exemplos clássicos de problemas que fazem com que o médico recomende a ação do bisturi. Nos últimos tempos, a essas justificativas para a cirurgia se juntaram outras bem menos convencionais. Cada vez mais mulheres, por comodidade, para evitar o sofrimento físico ou mesmo para satisfazer caprichos, têm optado pela cesariana programada. Com a anuência do médico, mas sem necessidade real do ponto de vista fisiológico, elas marcam dia e hora para o rebento vir ao mundo.

Ao optarem pelo parto agendado, os pais podem escolher o dia mais adequado para a visita de amigos e familiares e evitam adiar compromissos de trabalho. Há quem prefira o agendamento simplesmente porque simpatiza com a data escolhida. "Queríamos que o João Victor nascesse no dia 9 de setembro de 1999 (9/9/99)", diz a publicitária paulistana Roberta Lima, mulher do jogador de vôlei Maurício Lima, da seleção brasileira. "Mas, como o nenê ainda não estava pronto para nascer, remarcamos para o dia 19 (19/9/99)", ela conta. O nascimento da segunda filha do casal, Maria Eduarda, foi programado para o dia 30 de junho de 2002, um domingo – coincidindo com a final da Copa do Mundo. "Assistimos ao jogo na própria maternidade e, depois que o Cafu levantou a taça, fui para a sala de cirurgia", diz Roberta. "Foi uma data especial, em que todo o país estava com boas energias", acredita.

Eduardo Pozella


A modelo baiana Carolina Magalhães, neta do senador Antonio Carlos Magalhães, antecipou o parto em uma semana porque se previa que seu filho, Luiz Eduardo, hoje com 3 anos, nasceria justamente na semana em que sua irmã iria se casar. "Se eu esperasse para fazer parto normal, meus parentes não viriam me visitar, nem minha mãe poderia ficar no hospital comigo", diz ela. Já a modelo paraense Caroline Ribeiro optou por programar a cesariana após dois abortos seguidos. "O médico disse que eu poderia esperar mais e tentar o parto normal, mas não quis arriscar", diz ela, que teve seu primeiro filho, João Felipe, no fim de fevereiro.

O aumento no número de cesarianas é um fenômeno internacional que preocupa até mesmo a Organização Mundial de Saúde. O órgão estima em apenas 15% os partos que precisam de cesariana por razões médicas, mas as cifras são bem maiores que isso. Chegam a 26% dos nascimentos nos Estados Unidos e 22% na Inglaterra. No Brasil, 32% das crianças vêm ao mundo por cesariana. Nas cidades do Sul e do Sudeste com mais de 300.000 habitantes, esse índice sobe para 60% e, nos hospitais particulares, chega a 90%. Ao contrário do que ocorria antigamente, em metade dos casos quem opta pelo procedimento é a própria mãe, e não mais o médico.

 
Renata Ursaia
Caras
Roberta, Maurício e a prole (à esq.) e Carolina: conveniência na escolha da data

Hoje, a cesariana é um procedimento bem menos traumático do que já foi. O corte na barriga não passa de 10 centímetros e os pontos são absorvidos pelo organismo. O anestésico usado, além de ter menos efeitos colaterais, é injetado com uma dose de morfina, o que permite à mulher não sentir dor nas primeiras horas do pós-operatório. Quando seu efeito passa, ela já se movimenta normalmente e a dor residual é bem menor. Ainda assim, há riscos. Em 2% dos casos, as cesarianas levam a infecções e danificam outros órgãos da mãe durante a cirurgia. Se a criança for retirada do útero antes do tempo, pode sofrer infecções pulmonares. O procedimento não é recomendado para mulheres que planejam ter mais de dois filhos.

Pedro Rubens


Evidentemente, o parto normal também oferece riscos. Quando a mãe se esforça por mais de três horas, o bebê pode sufocar ou sofrer danos cerebrais. Além disso, uma porcentagem não desprezível de partos normais afeta o períneo da mãe e causa posterior incontinência urinária. Mas a maioria dos médicos continua a recomendar a cesariana apenas quando há perigo à vista, o que não impede que ela venha se tornando a opção preferida entre as mulheres. Celebridades como a cantora americana Madonna, a atriz inglesa Elizabeth Hurley e a ex-spice girl Victoria Beckham programaram seus partos. A atriz fluminense Lizandra Souto, mulher do jogador de vôlei Tande, fez duas cesarianas. A primeira foi há quatro anos, por indicação médica – o cordão umbilical estava enrolado no pescoço do bebê –, e a segunda, há oito meses, por opção própria. "A médica insistiu para que eu fizesse o parto normal porque eu e o bebê estávamos em boas condições, mas eu preferi não enfrentá-lo", ela diz.

 
 
 
 
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