|
|
Amazônia
Desmatamento
ao vivo
Novo
sistema pode mostrar a destruição
da floresta em tempo real. Apenas isso

Leonardo
Coutinho
O
governo anunciou no mês passado um sistema que registrará
em tempo real a destruição da Amazônia. Em tese,
essa tecnologia desenvolvida pelo Instituto Nacional de Pesquisas
Espaciais (Inpe) pode levar os fiscais florestais a multar ou prender
os depredadores em flagrante. Só em tese. Como ainda não
há ligação entre a estação de
recepção de imagens de satélite, localizada
em Cuiabá, e a sala de interpretação das informações,
na sede do Inpe, na cidade paulista de São José dos
Campos, os dados são transmitidos de um ponto a outro em
fitas enviadas por Sedex o que atrasa em dois dias o processo
que o governo diz que é feito "em tempo real". Mas, para
pegar de surpresa os destruidores da mata, esse é o menor
obstáculo. Se já conta com um programa de computador
que pode mostrar o desmatamento ao vivo, o governo não tem,
por outro lado, equipamentos, pessoal nem agilidade para atuar.
Até
produzir uma clareira visível para a foto feita pelo satélite,
com o tamanho de 6 hectares, um madeireiro de pequeno porte pode
trabalhar por três dias. Depois, ele ainda tem tempo de devastar
em dois dias o equivalente a mais quatro campos de futebol. Dependendo
do ponto em que estiverem agindo, os fiscais podem levar até
cinco dias para chegar ao local, tempo suficiente para que toda
a madeira, os equipamentos e o pessoal tenham desaparecido. Em um
teste de sensoriamento remoto, realizado no ano passado, o Ibama
demorou quatro meses para planejar uma ação sobre
uma área de desmatamento flagrada pelo Sistema de Proteção
da Amazônia, ligado ao Gabinete da Casa Civil. Quando a fiscalização
chegou ao local, achou apenas uma clareira de mais de 2 000 hectares.
Antonio Ribeiro
 |
| A
motosserra em ação: mais rápida do que o satélite |
Como
sabem que são vigiados a partir do céu, os desmatadores
tomam precauções contra o satélite espião.
Primeiro, eles abrem todas as picadas na mata para retirar a madeira,
põem todos os tratores no lugar de trabalho e estacionam
os caminhões nas proximidades atividades invisíveis
para o satélite. Só depois derrubam as árvores.
Os chamados toreiros, que cortam pequenas áreas e usam basicamente
motosserras e um caminhão, trabalham cinco dias para desmatar
uma área de até 10 hectares. Em seguida, vão
agir em outra freguesia. Outra estratégia dos cortadores
de floresta é atuar seletivamente, derrubando algumas árvores
e deixando outras em pé, já que o satélite
só consegue denunciar áreas de desmatamento contínuo.
É muito comum esse tipo de corte na criação
de pastagens. Com a mata rarefeita, planta-se o capim e, quando
o pasto já está formado, basta derrubar as árvores
restantes para instalar a boiada. Calcula-se que, se fosse possível
medir os pontos em que isso ocorre, a taxa de desmatamento de alguns
Estados teria um aumento de até 50%.
"É
verdade que ainda vamos continuar chegando quando muitos estragos
já tiverem sido feitos", diz Guilherme Abdala, coordenador-geral
de monitoramento ambiental do Ibama. "Mas esse instrumento será
útil para evitar desmatamentos maiores." De acordo com Abdala,
há pelo menos uma vantagem real no novo sistema. Como a destruição
será fotografada, os fiscais não poderão mais
aceitar suborno na hora de lavrar as multas e dizer, depois, que
estava tudo em ordem. "Vão ser como oficiais de justiça",
diz o coordenador do Ibama. "Só terão de entregar
a multa." Se encontrarem alguém para recebê-la, evidentemente.
|