Edição 1854 . 19 de maio de 2004

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Amazônia
Desmatamento ao vivo

Novo sistema pode mostrar a destruição
da floresta em tempo real. Apenas isso


Leonardo Coutinho

Em Profundidade: Amazônia

O governo anunciou no mês passado um sistema que registrará em tempo real a destruição da Amazônia. Em tese, essa tecnologia desenvolvida pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) pode levar os fiscais florestais a multar ou prender os depredadores em flagrante. Só em tese. Como ainda não há ligação entre a estação de recepção de imagens de satélite, localizada em Cuiabá, e a sala de interpretação das informações, na sede do Inpe, na cidade paulista de São José dos Campos, os dados são transmitidos de um ponto a outro em fitas enviadas por Sedex – o que atrasa em dois dias o processo que o governo diz que é feito "em tempo real". Mas, para pegar de surpresa os destruidores da mata, esse é o menor obstáculo. Se já conta com um programa de computador que pode mostrar o desmatamento ao vivo, o governo não tem, por outro lado, equipamentos, pessoal nem agilidade para atuar.

Até produzir uma clareira visível para a foto feita pelo satélite, com o tamanho de 6 hectares, um madeireiro de pequeno porte pode trabalhar por três dias. Depois, ele ainda tem tempo de devastar em dois dias o equivalente a mais quatro campos de futebol. Dependendo do ponto em que estiverem agindo, os fiscais podem levar até cinco dias para chegar ao local, tempo suficiente para que toda a madeira, os equipamentos e o pessoal tenham desaparecido. Em um teste de sensoriamento remoto, realizado no ano passado, o Ibama demorou quatro meses para planejar uma ação sobre uma área de desmatamento flagrada pelo Sistema de Proteção da Amazônia, ligado ao Gabinete da Casa Civil. Quando a fiscalização chegou ao local, achou apenas uma clareira de mais de 2 000 hectares.

 
Antonio Ribeiro
A motosserra em ação: mais rápida do que o satélite

Como sabem que são vigiados a partir do céu, os desmatadores tomam precauções contra o satélite espião. Primeiro, eles abrem todas as picadas na mata para retirar a madeira, põem todos os tratores no lugar de trabalho e estacionam os caminhões nas proximidades – atividades invisíveis para o satélite. Só depois derrubam as árvores. Os chamados toreiros, que cortam pequenas áreas e usam basicamente motosserras e um caminhão, trabalham cinco dias para desmatar uma área de até 10 hectares. Em seguida, vão agir em outra freguesia. Outra estratégia dos cortadores de floresta é atuar seletivamente, derrubando algumas árvores e deixando outras em pé, já que o satélite só consegue denunciar áreas de desmatamento contínuo. É muito comum esse tipo de corte na criação de pastagens. Com a mata rarefeita, planta-se o capim e, quando o pasto já está formado, basta derrubar as árvores restantes para instalar a boiada. Calcula-se que, se fosse possível medir os pontos em que isso ocorre, a taxa de desmatamento de alguns Estados teria um aumento de até 50%.

"É verdade que ainda vamos continuar chegando quando muitos estragos já tiverem sido feitos", diz Guilherme Abdala, coordenador-geral de monitoramento ambiental do Ibama. "Mas esse instrumento será útil para evitar desmatamentos maiores." De acordo com Abdala, há pelo menos uma vantagem real no novo sistema. Como a destruição será fotografada, os fiscais não poderão mais aceitar suborno na hora de lavrar as multas e dizer, depois, que estava tudo em ordem. "Vão ser como oficiais de justiça", diz o coordenador do Ibama. "Só terão de entregar a multa." Se encontrarem alguém para recebê-la, evidentemente.

 
 
 
 
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