Edição 1854 . 19 de maio de 2004

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Aviação
O maior avião da história

Airbus lança aeronave com capacidade
para 800 passageiros e acirra a briga com
a Boeing, que aposta em modelos menores


Antonio Ribeiro, de Toulouse, França

 
Fotos divulgação

Na semana passada, o novo hangar da Airbus, em Toulouse, na França, converteu-se em teatro para a apresentação da maior aeronave da história da aviação comercial. O A380, que começará a operar em 2006, é um avião de dimensões colossais. Pesa 590 toneladas, mais que a Estação Espacial Internacional, e sua envergadura é de 80 metros. A cabine, dupla, tem capacidade para abrigar de 550 a 840 passageiros, bar, free shop e até chuveiros. O investimento, de 12 bilhões de dólares, é a mais ambiciosa aposta dos europeus desde o Concorde, o supersônico que quase levou à falência as companhias aéreas que apostaram nele. Trata-se de um lançamento estratégico, que sintetiza a visão européia do futuro do mercado. A aposta é que os trajetos entre os maiores aeroportos do mundo serão feitos por verdadeiros transatlânticos alados, capazes de transportar mais de 800 passageiros com tarifas reduzidas.

É exatamente o oposto da visão dos americanos. A Boeing acredita que as pessoas querem embarcar em aviões rápidos, que decolem do aeroporto mais próximo, e joga suas fichas no 7E7 Dreamliner, um jato de capacidade inferior aos de sua categoria em operação atualmente. Com estréia prevista para 2008, a aeronave poderá transportar de 250 a 300 passageiros. Concebida para voar mais longe, ser veloz e consumir pouco, será a primeira com fuselagem inteiramente construída de fibra de carbono e plástico. A Boeing promete que o Dreamliner terá autonomia para percorrer 15.400 quilômetros, sem escalas, a uma velocidade de 900 quilômetros por hora, gastando 20% menos combustível. Os computadores de bordo farão um check-up permanente do funcionamento do avião, reportarão as informações aos serviços de manutenção no solo e controlarão até a entrada de luz na cabine.

 
O gigante A380, que deve começar a voar comercialmente em 2006, tem cabine dupla, poltronas especiais com televisores individuais, free shop, dormitórios e bar: na briga com a Boeing, as armas da Airbus para vôos de longa distância são grandes aviões e preço baixo

Nessa disputa, talvez se esteja decidindo o futuro das duas companhias, uma vez que, evidentemente, as duas visões de mercado não podem estar corretas ao mesmo tempo. O vencedor ganhará a supremacia dos vôos de longa distância, o que pode jogar o concorrente na turbulência econômica. Ao decretar o tipo de aeronave que fará os vôos mais longos, o resultado da disputa determinará também a configuração dos aeroportos. Nenhum deles hoje está capacitado para receber de forma segura e confortável o mastodonte de asas da Airbus. "Os aeroportos terão de fazer alguns ajustes, mas até o fim de 2010 os trinta maiores estarão aptos", disse a VEJA Charles Champion, vice-presidente executivo da Airbus. Não é tão simples. O moderníssimo aeroporto parisiense Charles de Gaulle está gastando 100 milhões de euros para alargar os acostamentos das pistas, modificar a infra-estrutura dos terminais e construir hangares. Outros terão de reforçar o pavimento das pistas, senão os quatro trens de pouso do avião poderão romper o piso. O A380 requer também passarelas de dois andares para acessar sua cabine dupla e um esquema especial de funcionamento de check-in, controles de imigração, alfândega e triagem de bagagens.

Se a decisão da disputa pudesse ser prevista pela reação inicial das companhias aéreas, a Boeing teria bons motivos para começar a se preocupar. Por enquanto, o Dreamliner só conseguiu um comprador. Os japoneses da All Nipon Airways encomendaram cinqüenta unidades. Já a Airbus, que para empatar o investimento do A380 precisa vender 250 unidades, recebeu 129 pedidos de onze empresas. A companhia Emirates foi responsável por um terço deles. O consórcio europeu conseguiu até um cliente americano. A Federal Express encomendou dez aviões – a mesma quantidade pedida pela Air France. Se nada mudar, a Boeing vai demorar para superar suas dificuldades atuais. Após um período no qual perdeu os dois principais executivos e abandonou o projeto do Sonic Cruiser, um quase supersônico, a Boeing luta para reverter uma teimosa tendência. As encomendas à rival cresceram em 2003 pelo quarto ano consecutivo e, pela primeira vez em 35 anos de reinado americano, a Airbus entregou mais aviões do que a Boeing. Os europeus venceram por 305 a 281. "Quando anunciamos o projeto do A380, os americanos desconfiaram que era blefe", diz Gérard Blanc, executivo da Airbus. "Agora, eles estão petrificados."

 
 
 
 
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