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Congresso
Ameaça
casuísta
A
idéia da reeleição para as presidências
do
Congresso não é absurda. Contanto que não
beneficie os atuais ocupantes dos cargos
Fotos Ana Araujo
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raujo
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| Sarney
(à esq.) e João Paulo: pressão para que o governo
encampe a causa da reeleição |
Uma
emenda constitucional que permita a reeleição dos
presidentes do Senado e da Câmara, como a que foi apresentada
ao Congresso em junho de 2003 pelo deputado Benedito de Lira (PP-AL),
não é, a princípio, nenhum absurdo. Existe
um argumento histórico para defender a idéia: os mandatos
consecutivos para esses cargos foram permitidos no país durante
várias décadas. Existe também um argumento
institucional: algumas regras gerais deveriam valer para todos os
cargos eletivos e a possibilidade de reeleição,
com seus prós e contras, existe para os chefes do Executivo.
Há um detalhe na proposta de emenda, contudo, que complica
tudo. Caso entre em vigor, ela permitirá a reeleição
dos atuais presidentes das Casas, o senador José Sarney (PMDB-AP)
e o deputado João Paulo Cunha (PT-SP). Essa hipótese
não agradaria apenas a esses dois políticos. Sarney
já provou que pode ser um amigão para Lula no Senado,
compensando a inexperiência e a ineficiência de líderes
do próprio PT, como Ideli Salvatti e Aloizio Mercadante.
Basta lembrar que é dele a assinatura no documento que impediu
a instalação de uma CPI sobre o caso Waldomiro. João
Paulo, por sua vez, pode dar de vez em quando alguma declaração
inspirada no preceito da separação dos poderes, mas
a verdade é que age em sintonia fina com o Planalto. Nessa
conjuntura, a idéia da reeleição exala o cheiro
desagradável dos casuísmos uma medida arquitetada
para preservar nas mãos do governo as rédeas de uma
articulação política que, cada vez mais, ameaçam
lhe escapar.
Claudio Versiani
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| Ulysses:
presidências consecutivas nos anos 80 |
Desde que a discussão sobre esse tema começou a esquentar
em público e sua temperatura está subindo rapidamente
, o governo procura se manter em cima do muro. "Já
chegam os problemas que tenho, não sou nem sim nem não.
É assunto das bancadas e do Congresso", disse o presidente
Lula na semana retrasada. O problema é que os outros envolvidos
não estão seguindo o mesmo script, e teimam em trazer
o governo para a briga. A frase irritada de Lula, por exemplo, nasceu
de uma declaração de João Paulo, segundo a
qual ele contava com o apoio do Alvorada no projeto da reeleição.
Na semana passada, Sarney e João Paulo fizeram pressão
velada, deixando vazar a informação de que poderiam
desistir de suas pretensões se o governo não mostrasse
com clareza que os apóia. Outro que não deixa barato
é o senador Renan Calheiros (PMDB-AL), que deseja ser o sucessor
de Sarney. Ele não cessa de repetir que fez um acordo com
o governo para assumir o cargo no começo da próxima
legislatura, em fevereiro de 2005, e deixou claro que vai se considerar
traído se o Planalto encampar a causa contrária.
Se
João Paulo Cunha tiver de deixar seu cargo no ano que vem,
a briga para sucedê-lo pode se tornar encarniçada,
mas por enquanto não há sinais alarmantes. Ele não
tem oponentes fortes. A refrega entre Renan e Sarney, contudo, já
é uma realidade. Ela está cindindo o PMDB, que se
tornou o fiel da balança na votação de qualquer
projeto importante que o governo levar ao Congresso. Nas últimas
semanas, os dois trataram de exibir seus músculos no interior
do partido e também para o presidente. No dia 27 de abril,
por exemplo, quando o Senado votou a medida provisória que
criava 2 797 cargos de confiança no governo, Sarney presidiu
a sessão e deixou que a oposição arrastasse
o processo. A MP foi aprovada com parcos três votos de vantagem.
Bons observadores leram nessa manobra um recado para o Planalto
uma espécie de pedido para que se tomasse uma posição
explícita quanto à reeleição. O governo
não respondeu e, em 5 de maio, Sarney comandou a sessão
que reprovou a medida provisória com a qual a Presidência
da República proibia os bingos. Dessa vez, ele foi mais explícito.
Sua filha, Roseana, se absteve, e quatro senadores do PMDB e um
do PFL ligados a ele votaram contra o governo. Renan Calheiros alfinetou
Lula na semana passada, dando quórum ao encontro comandado
pela oposição que criou uma comissão para rever
o salário mínimo fixado pelo presidente. O senador
alagoano não é um contendor para se desprezar. Ele
tem peso no PMDB, como demonstrou a reunião da executiva
do partido que rejeitou, por 12 votos a 2, o apoio à emenda
constitucional da reeleição.
Entre
senadores, Sarney é visto como alguém que pode ajudar
mais a instituição, garantindo força e prestígio
ao Senado. Calheiros é considerado um nome capaz de beneficiar
mais diretamente os senadores, mantendo o posto de intermediário
em questões de seu interesse como a nomeação
de correligionários. Parlamentares têm notado que Sarney,
talvez ciente dessas diferenças, está dando mais tempo
para os senadores se pronunciarem em plenário e sendo mais
gentil com a oposição na discussão das medidas
provisórias enviadas pelo governo ao Congresso. "Ele está
mais light", testemunha Efraim Morais (PFL-PB), que foi agraciado
com a relatoria da medida provisória que cria a carreira
de perito. Renan Calheiros também está se esforçando
para conquistar simpatias. Conversou com os líderes das bancadas
do PFL, José Agripino, e do PSDB, Arthur Virgílio,
e garantiu que se virar presidente vai dar um bom espaço
à oposição. Na terça-feira passada,
seus aliados queriam confraternizar em torno dele e organizar uma
partida de futebol à noite, na mansão dos pais do
senador Valmir Amaral (PMDB-DF). Calheiros jogaria no meio-de-campo,
uma posição que lhe agrada. Sarney ficou sabendo do
plano, interferiu nos bastidores, e no fim não houve quórum
para montar dois times.
Como
já se disse, a reeleição de presidentes no
Congresso não seria novidade no Brasil. Isso ocorreu entre
a Proclamação da República e a emenda constitucional
número 1, de 1969, que baniu o instituto. O regime militar
temia a repetição de casos como o do deputado Ranieri
Mazzilli, que assumiu a presidência da Câmara em 1958,
conseguiu seis reeleições para mandatos de um ano
e só foi apeado do cargo em 1965, perdendo por pouco para
o candidato dos militares. A história mais recente registra
um caso curioso. Na década de 80, o deputado Ulysses Guimarães
exerceu dois mandatos consecutivos como presidente da Câmara
mas em legislações diferentes. As reeleições
nos congressos são comuns em outros países
como México, Argentina e Estados Unidos. Se for aprovada
agora, contudo, a emenda da reeleição não poderá
ser vista como modo de retomar uma tradição ou alinhar
o Brasil com outras nações. Deverá entrar para
a história como exemplo de oportunismo.
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