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Governo
Os
limites de cada um
O
álcool provoca efeitos diferentes em cada
pessoa e sua aceitação ou condenação
varia
de acordo com fatores culturais
Muitos
relatos dão conta de que o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva tem alta resistência aos efeitos do álcool.
Ele raramente se embriaga e, quando bebe em companhia de outras
pessoas, é o último a ficar mais alegre. A bebida
não embarga sua fala nem parece diminuir sua capacidade de
raciocínio. À luz da ciência, não é
difícil entender por que o organismo de algumas pessoas tolera
melhor o álcool, especialmente em sua propriedade de entorpecer
os sentidos e a capacidade intelectual. O álcool provoca
efeitos de intensidade diferente nas pessoas, dependendo de uma
série de fatores. Quanto mais robusta a compleição
física do bebedor, principalmente seu peso e a quantidade
de gordura acumulada, mais álcool ele pode consumir sem comprometer
suas funções e reflexos.
Os
médicos estimam que um homem adulto possa consumir até
três doses diárias sem maiores preocupações.
O conceito de dose é estabelecido pela quantidade de álcool
contida numa latinha de cerveja ou numa medida de uísque
ou numa taça de vinho que é a mesma, apesar
da diferença de volume de cada bebida. Homens e mulheres
reagem de forma diferente à bebida. Elas ficam alteradas
com quantidades menores do que eles. Isso ocorre, em parte, porque
as mulheres têm em menor quantidade a enzima responsável
pelo metabolismo do álcool no fígado e no estômago.
O corpo feminino também contém menos água do
que o masculino. Como a água é o principal diluente
do álcool no organismo, as mulheres apresentam níveis
alcoólicos mais altos no sangue do que os homens após
ingerir a mesma quantidade de bebida.
A
história registra inúmeros casos de estadistas cuja
atração por um bom copo não afetou negativamente
suas obrigações no cargo. O inglês Winston Churchill,
que cumpriu dois mandatos como primeiro-ministro entre as décadas
de 40 e 50, costumava tomar champanhe (da marca francesa Pol Roger)
no café-da-manhã, vinho e conhaque nas refeições
e, a qualquer hora, uísque com soda. Com essa dieta alcoólica,
ele conduziu a Inglaterra da derrota iminente para a vitória
na II Guerra e foi uma das mentes mais brilhantes de seu tempo.
Certa vez, num jantar, uma senhora o repreendeu por estar de pileque.
Ele retrucou: "Sim, madame, estou bêbado, mas amanhã
acordarei sóbrio e a senhora continuará feia". Em
1954, o ministro de Relações Exteriores Anthony Eden
o encontrou fazendo a barba às 9 e meia da manhã...
com um copo de uísque na mão. Churchill tinha 80 anos.
Presidente
checo entre 1989 e 2003, Vaclav Havel, ao receber visitantes estrangeiros
ilustres (entre eles o presidente americano Bill Clinton), tinha
por hábito guiá-los em longas excursões pelos
bares de Praga, ao fim das quais se mostrava excepcionalmente falante
e animado. Certa vez, numa visita oficial aos Estados Unidos, ele
adiou um compromisso com autoridades locais, foi tomar cerveja num
restaurante e terminou na platéia de um show do roqueiro
John Cale. Como Havel é também dramaturgo e artista,
não houve escândalo. Nem todos os presidentes convivem
harmoniosamente com a bebida. Boris Ieltsin, que governou a Rússia
por oito anos, volta e meia aparecia em público cambaleando
ou enrolando a língua. Certa vez, não conseguiu sair
do avião ao chegar à Irlanda e deixou o comitê
oficial de recepção esperando na pista. De outra feita,
em seu próprio país e diante das câmeras de
TV, aplicou uma sonora palmada no derrière de uma
funcionária do governo ela não achou a menor
graça, é claro. A verdade é que a bebida não
impediu que Ieltsin implantasse a democracia nos escombros da União
Soviética e colocasse um ponto final na Guerra Fria.
As
bebidas alcoólicas acompanham a humanidade desde seus primórdios.
Estudos arqueológicos mostram que o homem do período
Neolítico, antes mesmo de dominar as técnicas da agricultura,
já as fabricava e consumia. Acredita-se que a invenção
do vinho decorra da observação feita na pré-história
do alvoroço dos passarinhos depois de bicar uvas nas parreiras.
Referências estão presentes no Antigo Testamento, na
célebre descrição de Noé celebrando
o fim do dilúvio, "plantando videiras e conhecendo a embriaguez",
e nas tumbas dos faraós egípcios. Na Grécia
e na Roma antigas o vinho, a cerveja e a sidra eram usados tanto
nos rituais religiosos como nas festas pagãs, que muitas
vezes terminavam em orgias de álcool e sexo. Faz parte da
condição humana buscar meios de transcender a realidade,
e o álcool serve bem a esse propósito. Os índios
brasileiros usam uma beberagem fermentada em seus rituais. Os exércitos
napoleônicos consumiam milhões de litros de vinho e,
na II Guerra Mundial, a ração militar dos franceses
incluía 1 litro diário para cada soldado. Evidentemente,
a soldadesca soviética recebia vodca.
Raízes
plantadas na história do Velho Mundo e, posteriormente, nas
Américas foram moldando os hábitos atuais de cada
país no que se refere às bebidas alcoólicas
e também a maior ou menor tolerância de cada sociedade
com relação a elas. No Brasil, onde o imaginário
popular associa o álcool e principalmente a cerveja
a comemorações, encontros entre amigos e ocasiões
festivas, o ato de beber é encarado como uma espécie
de travessura simpática e sem maiores conseqüências.
Empurrado pelo baixo preço das bebidas, principalmente da
cachaça, o país consome anualmente 4,8 litros de bebidas
alcoólicas per capita, contra 1,9 litro no início
dos anos 60. Ainda assim, nada que se compare ao que ocorre nos
países do Leste Europeu, que em média consomem 14
litros per capita, e nos países nórdicos, cuja cifra
é de 8,2 litros. Na França, o vinho está tão
arraigado na cultura nacional que freqüentemente se oferecem
pequenos goles às crianças para que elas aprendam
cedo a apreciá-lo. Nos Estados Unidos, isso daria cadeia.
Embebidos
do puritanismo trazido pelos pioneiros protestantes, os americanos
desenvolveram um preconceito contra as bebidas alcoólicas
que se sustenta mais no discurso do que na prática. Nunca
se consumiu tanto álcool nos EUA quanto na vigência
da Lei Seca, entre 1920 e 1933. Hoje, o consumo de bebidas alcoólicas
pelos americanos é quase duas vezes maior que o verificado
entre os brasileiros 9,1 litros anuais per capita. De qualquer
modo, é significativo que os EUA não tenham uma "bebida
nacional" exibida ao mundo com orgulho, como ocorre na maioria dos
países europeus e latino-americanos. Ainda em 1947, essa
postura algo hipócrita com relação às
bebidas alcoólicas chamou a atenção de um dos
mais ferinos críticos literários e culturais daquele
país, H.L. Mencken, que escreveu: "Todas as grandes vilanias
da história, desde o assassinato de Abel, foram perpetradas
por homens sóbrios e, principalmente, por abstêmios.
Mas todas as coisas bonitas e encantadoras, desde o Velho Testamento
até a sopa bouillabaisse, das nove sinfonias de Beethoven
ao coquetel martíni, foram ofertadas ao mundo por homens
que, no momento certo, trocavam a água da torneira por líquidos
mais coloridos e com algo mais do que oxigênio e hidrogênio
na composição".
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