Edição 1952 . 19 de abril de 2006

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Cinema
Atração fatal  

Linda, mas esfomeada por atenção,
Sharon Stone protagoniza um
desastre com Instinto Selvagem 2


Isabela Boscov

 
Fotos divulgação
Sharon, destruindo o papel que a construiu, e Willis em 16 Quadras: o crepúsculo dos deuses

EXCLUSIVO ON-LINE
Imagens do filme

DA INTERNET
Trailer

Embriagada por sua primeira chance de visibilidade em uma década, Sharon Stone tem dito em entrevistas que pressionou para que houvesse mais sexo e nudez em Instinto Selvagem 2 (Basic Instinct 2, Inglaterra/Estados Unidos, 2006) e que adora, aos 48 anos, ser capaz de excitar os homens. De fato, Sharon está em excelente forma física. Mas, como alguém que não quer sair de uma festa que já acabou faz tempo, ela inverteu a regra básica das divas: implora por atenção e, em vez de atrair, repele. Sharon foi a mais salutar das grandes estrelas. Admitia sem hipocrisia que havia enfrentado todo tipo de humilhação até encontrar o pote de ouro no fim do seu arco-íris – justamente o primeiro Instinto Selvagem, de 1992 – e aceitava como questão de direito as benesses da fama. Mas, sem nenhum grande papel desde Cassino, de 1995, e esfomeada pelo olhar do público, ela se meteu num desastre. Instinto Selvagem 2 mostra Sharon no seu pior como atriz, não tem pé nem cabeça e é tão relutante em relação à sua vulgaridade que dificilmente vai excitar alguém além dos mais necessitados. Explica-se: o que tornou Instinto Selvagem um dos filmes icônicos dos anos 90 foi a rédea solta que o roteirista Joe Eszterhas e o diretor Paul Verhoeven, dois mestres do vulgar, deram a esse seu talento especial. O escocês Michael Caton-Jones, que dirige a continuação que estréia nesta sexta-feira no país, não tem nada parecido com essa convicção da dupla anterior – e, ao tentar atenuar o "mau" gosto da história, só faz realçá-lo.

O impasse que faz Sharon escolher um trabalho como Instinto Selvagem 2 é comum às atrizes acima dos 40 anos, e epidêmico entre as que ficaram conhecidas pela beleza. Mas há saídas graciosas para ele. No ano passado, a própria Sharon ganhou elogios merecidos por uma pequena participação em Flores Partidas, de Jim Jarmusch. Tivesse ela investido com alguma paciência em criar um novo nicho para si, não estaria nessa situação de desgraça pública. O curioso, entretanto, é que essa deixou de ser uma "doença" tipicamente feminina: os astros da primeira geração do cinema de ação, os que primeiro ficaram conhecidos pelos músculos, volta e meia apresentam sintomas semelhantes. Em 16 Quadras (16 Blocks, Estados Unidos, 2006), que também estréia nesta sexta-feira, Bruce Willis se esforça – em vão – para temperar com sabor dramático o seu tipo exaurido do sujeito duro de matar. Harrison Ford, em cartaz com Firewall, repete pela enésima vez o salvador da família. No caso mais patético de todos, Sylvester Stallone anunciou que vai fazer Rocky VI e Rambo IV. Ninguém sugeriria que um ator de meia-idade está velho demais para seu trabalho. Mas, em alguns casos, a aposentadoria pode ser, sim, a solução mais digna.

 
 
 
 
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