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Cinema Degelo
criativo Depois de um longo inverno, Wim Wenders
reencontra seu rumo com Estrela Solitária 
Isabela Boscov
O longo inverno criativo do alemão
Wim Wenders está prestes a completar duas décadas ele remonta
ao soberbo Asas do Desejo , mas há sinais de que um degelo
pode estar por vir. Em Estrela Solitária (Don't Come Knocking,
Estados Unidos/Alemanha/França, 2005), que estréia nesta sexta-feira
no país, o diretor novamente junta forças com o dramaturgo Sam Shepard,
seu colaborador em Paris, Texas, para revisitar o território geográfico
e emocional que ambos haviam coberto no filme vencedor do Festival de Cannes de
1984. Shepard, agora também o protagonista, é Howard Spence, um
astro de faroestes que certo dia abandona, sem mais nem menos, um set de filmagem
no legendário Monument Valley, em Utah. Conhecido por três décadas
de tribulações com álcool, mulheres, dívidas e brigas
de bar, Spence monta em seu cavalo e sai galopando sem parar até topar
com o primeiro sinal de presença humana. Lá, deixa as botas e o
figurino que estava vestindo, liga para a mãe e avisa que vai visitá-la
em sua casa em Nevada depois de trinta anos sem dar notícias. Interpretada
por Eva Marie Saint, estrela de Alfred Hitchcock e uma atriz luminosa, a mãe
de Howard resume em sua breve aparição a essência de Paris,
Texas e Estrela Solitária e também de todo o trabalho
de Shepard como escritor: por mais que os homens se distanciem e vaguem, é
preciso que eles voltem ao seu ponto de origem as mulheres para
conferir algum sentido à sua peregrinação pela vida.
Em Paris, Texas, o andarilho Travis
(Harry Dean Stanton) retornava ao convívio humano após anos de sumiço
com o propósito de reunir sua ex-mulher (Nastassja Kinski) a seu filho.
Travis fora um marido violento, e era preciso que ele salvasse de alguma forma
a família que havia destruído antes de retirar-se novamente. A trajetória
do caubói Howard é parecida: informado pela mãe de que uma
namorada teve um filho seu, ele segue para a velha Butte, no estado de Montana,
a fim de conhecê-lo. Howard encontra a rejeição do filho (Gabriel
Mann), a raiva da ex-namorada (Jessica Lange, casada com Shepard desde os anos
80) e a inexplicável compreensão de Sky (Sarah Polley), uma moça
que anda por ali carregando numa urna as cinzas da mãe recém-falecida.
Forjar algo semelhante a uma família a partir desses elementos parece ser
uma tarefa impossível mais ainda porque, embora anuncie ter chegado
ao limite de sua dissolução, Howard nunca deixa seus velhos hábitos,
que além da bebida e das mulheres incluem o mutismo, o egoísmo e
um individualismo extremo. O tempo também está contra ele: os produtores
do filme que ele abandonou colocaram em seu encalço um detetive (Tim Roth),
cuja função é devolver Howard ao seu mundo de mentira, se
preciso algemado. Magnificamente
fotografado por Franz Lustig, o Oeste de Estrela Solitária é,
claro, uma zona mítica até porque no presente real não
existem mais astros de faroeste. Ele é, como sempre na obra de Wenders
e de Shepard, ao mesmo tempo um espaço abstrato e interior, no qual vive
o espírito do macho americano, e o modelo de cuja imagem e semelhança
a América se copia. Mas dentro dessa ficção existem pessoas
reais, e identificá-las e tratá-las como tais é, digamos,
o carma que Howard tem de cumprir. Ao contrário de Paris, Texas,
porém, Estrela Solitária nunca consegue conquistar completamente
os sentimentos da platéia: Travis tinha de doar uma parte de si próprio
para remediar seus erros, mas Howard parece estar ali a passeio, sem perdas reais
com que arcar e se ele estabelece alguma conexão com o espectador
é apenas por causa da atuação de Shepard, um ator imbatível
quando de posse do papel certo. Apesar dessa deficiência, não há
dúvida de que Wenders reencontrou o rumo certo. Como Howard Spence, ele
não saiu inteiramente curado de sua jornada em Estrela Solitária.
Mas retraçar seu caminho para entender onde ocorreu o desvio é o
primeiro e indispensável passo. |