Edição 1952 . 19 de abril de 2006

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Música
Dinossauros psicodélicos

Os Mutantes chamam Zélia Duncan
e voltam aos palcos depois de trinta
anos. Será que funciona?


Sérgio Martins

 

Divulgação
Dinho, Arnaldo e Sérgio: shows em Londres e nos Estados Unidos

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Discografia do grupo

Mágoa de roqueiro é difícil de sarar. Que o diga Bryn Ormrod, diretor do teatro Barbican, um dos mais tradicionais de Londres. Organizador de um festival sobre a cultura brasileira dos anos 60, que a casa de espetáculos exibe atualmente, ele se viu numa encrenca ao decidir reunir os roqueiros do grupo Mutantes para uma apresentação. Criada em 1966 pelos irmãos Sérgio Dias e Arnaldo Baptista e pela cantora Rita Lee, a banda começou a se desmilingüir em 1972, quando Rita foi expulsa sob a alegação (certeira) de "não saber tocar nada". Pouco depois saiu Arnaldo, arrastando outros músicos com ele – e assim se instaurou a cizânia também na família Baptista. Ormrod, portanto, se intrometeu numa rusga de três décadas ao querer levar para o palco os velhos Mutantes. E a surpresa é que ele teve sucesso, ainda que parcial. "Agora vou tentar resolver os conflitos do Oriente Médio", brinca o inglês. No dia 22 de maio, na Inglaterra, Sérgio e Arnaldo voltarão a tocar juntos. Depois seguirão para os Estados Unidos, onde têm sete apresentações agendadas – a maior delas será de abertura para o grupo Flaming Lips, no Hollywood Bowl de Los Angeles, que abriga 17.000 pessoas. Só Rita Lee não topou voltar. Mas ela deu sua bênção a uma pupila. O anúncio oficial deverá ser feito nesta semana: é a voz cheia de testosterona da cantora Zélia Duncan que entoará as canções dos Mutantes em suas novas apresentações.

Sempre houve órfãos dos Mutantes no Brasil. Nos últimos dez ou quinze anos, uns tantos fãs estrangeiros se uniram à trupe. Um dos que ajudaram a propagar seu nome foi o líder do Nirvana, Kurt Cobain, morto em 1994. Ele chegou a enviar uma carta a Arnaldo Baptista, declarando seu amor à banda. David Byrne, ex-Talking Heads, também é advogado de defesa: seu selo lançou uma coletânea dos Mutantes nos Estados Unidos. Beck, Stereolab e Belle & Sebastian são outros fãs declarados. Não é difícil entender o charme dos Mutantes para os estrangeiros. Uma banda com sotaque roqueiro, surgida no Brasil de 1966, é mesmo uma coisa esquisita. Descobri-la e citá-la é como trazer um troféu de um safári – uma demonstração de espírito explorador.

Fabio Seixa/Ag. Globo
Zélia: a voz feminina nas novas apresentações


Para além disso, contudo, somam-se as patacoadas. A imprensa inglesa tem procurado reforçar a aura contestadora dos Mutantes dizendo que eles "usaram suas guitarras para combater a ditadura militar no Brasil" – o que simplesmente não é verdade. Qualquer tentativa de exagerar a originalidade do grupo também é ingênua. O próprio Sérgio Dias deixou isso claro anos atrás, num encontro com outro fã, Sean Lennon, filho do beatle John Lennon. O músico americano perguntou como ele tinha conseguido fazer aquele som. "Foi fácil. Bastou ouvir os discos do seu pai", respondeu Baptista. A relevância dos Mutantes esteve no fato de ser um grupo jovem mais anárquico, num momento em que a alternativa era a jovem guarda. Dito isso, são uma nota de pé de página na psicodelia dos anos 60.

A volta dos Mutantes envolve uma questão técnica: saber se eles oferecerão interpretações convincentes de seus sucessos, como Ando Meio Desligado e Balada do Louco. À exceção de Rita Lee, a banda contava com ótimos instrumentistas. Mas já fazia trinta anos que o baterista Dinho Paes Leme estava sem tocar. E Arnaldo Baptista, que sempre andou meio desligado, exibe as seqüelas de uma malograda tentativa de suicídio, nos anos 80. Depois de se atirar do 3º andar de um hospital, ele teve edema cerebral e hoje fala e toca com dificuldade. Os ensaios da banda estão em marcha lenta. "Eles começaram a tocar num clima brincalhão, para ver se rola a química", diz Aluizer Malab, empresário do grupo. Química no bom sentido – e não naquele dos anos 60.

 
 
 
 
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