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Livros Pílulas
biográficas As personalidades que fizeram
o Brasil em perfis breves, mas inteligentes 
Jerônimo Teixeira
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O
tamanho médio das biografias históricas lançadas atualmente
nos países de língua inglesa é de 500 ou 600 páginas.
Amparados em arquivos muito bem organizados e em estantes intermináveis
de livros que falam sobre a pessoa e sobre sua época, os estudiosos são
capazes de criar narrativas de uma minúcia impressionante. Essas obras
exaustivas, no entanto, não são para qualquer um. E é por
isso que outro mercado floresceu nos últimos anos o das biografias
breves. A série mais bem-sucedida de livros desse tipo chama-se Penguin
Lives (alguns de seus volumes foram lançados no Brasil pela editora Objetiva).
Sua idéia é simples: convida-se um especialista e pede-se que ele
expresse o seu conhecimento em cerca de 150 páginas. O propósito
não é simplificar, mas condensar. E é essencial que uma perspectiva
crítica esteja expressa no texto. Com isso, atrai-se o leitor "comum" ao
mesmo tempo em que se agrada aos entendidos. Uma coleção desse tipo
já existe desde 1996 no Brasil: a editora Relume Dumará publica
a Perfis do Rio, dedicada a figuras do passado e do presente do Rio de Janeiro.
Nesta semana, uma nova série nesse formato chega às livrarias. Perfis
Brasileiros, da Companhia das Letras, é inspirada nas Penguin Lives
particularmente no volume Napoleão, do historiador inglês
Paul Johnson e estréia com quatro títulos: Nassau (296
páginas; 37 reais), de Evaldo Cabral de Mello, D. Pedro I (340 páginas;
38 reais), de Isabel Lustosa, Castro Alves (200 páginas; 33 reais),
de Alberto da Costa e Silva, e Getúlio (216 páginas; 34 reais),
de Boris Fausto. Ao contrário
do que acontece na Inglaterra ou nos Estados Unidos, a tradição
das biografias não é forte no Brasil. Muitos personagens de primeira
grandeza ainda não receberam seu estudo biográfico definitivo
como é o caso de Getúlio Vargas ou Maurício de Nassau. Além
disso, textos escritos nos anos 40 ou 50 continuam sendo "canônicos" e não
passaram pelas revisões que pesquisas posteriores tornaram aconselháveis,
ou até necessárias. Não se pode dizer, portanto, que uma
coleção como a Perfis Brasileiros seja simplesmente uma forma "mais
breve" de narrar vidas importantes. Dada a falta de livros acessíveis sobre
tantos personagens, ela acaba cobrindo lacunas.
A primeira leva de Perfis Brasileiros impressiona pela qualidade dos autores.
Boris Fausto, por exemplo, é uma das maiores autoridades na história
da Revolução de 30, que levou Getúlio Vargas ao poder, e
Evaldo Cabral de Mello é o maior conhecedor da breve experiência
de colonização holandesa capitaneada por Maurício de Nassau
no Brasil do século XVII. A seriedade desses pesquisadores garante duas
qualidades: os perfis apresentam os fatos com correção, e ainda
têm idéias a oferecer. Os livros incluem cronologia, indicações
bibliográficas e caderno de fotos.
No equilíbrio entre o quadro histórico mais largo e a intimidade
das personalidades apresentadas, as quatro obras adotam estratégias diversas.
Fausto e Cabral de Mello às vezes se distanciam de seus personagens para
enveredar por análises econômicas. Isabel Lustosa e Costa e Silva
demonstram um fascínio maior pela personalidade de seus perfilados. No
limite, porém, essa separação entre a intimidade e a vida
pública revela-se artificial. A impetuosidade juvenil de dom Pedro I foi
fundamental no famoso grito do Ipiranga, e as ambivalências e contradições
da era Vargas ecoam, em certa medida, o temperamento escorregadio do homem Vargas.
Essa é outra curiosidade fundamental que os perfis satisfazem: permitem
aferir o peso que as grandes personalidades têm sobre a história.
O Cruzeiro/Estado de Minas  |
BIÓGRAFO: Boris Fausto, historiador,
autor de A Revolução de 30
O QUE MOSTRA A BIOGRAFIA: Vargas, figura central da história republicana,
foi um governante mais pragmático do que doutrinário. As idéias
centrais que legou, como a do nacional-desenvolvimentismo, hoje estão superadas
O HOMEM PÚBLICO: era
um homem esquivo e ambivalente. "Gosto mais de ser interpretado do que de me explicar",
dizia. Ao mesmo tempo, soube projetar-se como um mito popular
O PERSONAGEM PRIVADO: tinha personalidade reservada e cultivou casos extraconjugais
discretos. Entre os gostos inesperados estava o golfe (que ele jogava mal)
Fotos reprodução  |
BIÓGRAFO: Alberto da
Costa e Silva, embaixador, poeta, africanista e membro da Academia Brasileira
de Letras O QUE MOSTRA A BIOGRAFIA:
numa sociedade em que as idéias circulavam com dificuldade, ele fez a causa
abolicionista entrar na mente e no coração das pessoas
O HOMEM PÚBLICO: Castro Alves era extremamente habilidoso em suas
aparições em teatros e saraus: uma espécie de pop star da
época O PERSONAGEM PRIVADO:
a tuberculose, que o acompanhou desde a adolescência, não o impediu
de ter uma vida boêmia e repleta de mulheres BIÓGRAFA: Isabel Lustosa,
historiadora, autora de Insultos Impressos
O QUE MOSTRA A BIOGRAFIA: a história não se faz só
de processos abstratos. A personalidade dos protagonistas também influi
nos acontecimentos. O temperamento impetuoso de dom Pedro I foi determinante na
proclamação da Independência e em outros feitos seus
O HOMEM PÚBLICO: "Era um personagem
que dava imenso valor à glória, mas via os homens e a si mesmo de
forma muito crua, lidando com a coisa pública de maneira meio cínica"
O PERSONAGEM PRIVADO: era
um sujeito rude e "machão", mas não o boçal que alguns descreveram.
Mesquinho com dinheiro, ingrato com os amigos e extremamente carnal
BIÓGRAFO: Evaldo Cabral
de Mello, historiador, autor de Olinda Restaurada e A Outra Independência
O QUE MOSTRA A BIOGRAFIA: a
empreitada holandesa no Brasil estava fadada ao fracasso. Pesavam nisso razões
econômicas e militares, mas também culturais: as instituições
mais liberais dos Países Baixos entravam em conflito com a herança
portuguesa no Brasil O HOMEM PÚBLICO:
um militar habilidoso e um político realista, mas dotado de ideais:
acreditou que era possível criar uma cidade moderna e cosmopolita no Brasil
do século XVII O PERSONAGEM
PRIVADO: era um calvinista devoto. Sabe-se pouco de sua vida amorosa: consta
que teve amantes casadas no Brasil | | |