Edição 1952 . 19 de abril de 2006

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Livros
Pílulas biográficas

As personalidades que fizeram o Brasil
em perfis breves, mas inteligentes


Jerônimo Teixeira



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Trechos dos livros
Nassau
D. Pedro I
Castro Alves
Getúlio

O tamanho médio das biografias históricas lançadas atualmente nos países de língua inglesa é de 500 ou 600 páginas. Amparados em arquivos muito bem organizados e em estantes intermináveis de livros que falam sobre a pessoa e sobre sua época, os estudiosos são capazes de criar narrativas de uma minúcia impressionante. Essas obras exaustivas, no entanto, não são para qualquer um. E é por isso que outro mercado floresceu nos últimos anos – o das biografias breves. A série mais bem-sucedida de livros desse tipo chama-se Penguin Lives (alguns de seus volumes foram lançados no Brasil pela editora Objetiva). Sua idéia é simples: convida-se um especialista e pede-se que ele expresse o seu conhecimento em cerca de 150 páginas. O propósito não é simplificar, mas condensar. E é essencial que uma perspectiva crítica esteja expressa no texto. Com isso, atrai-se o leitor "comum" ao mesmo tempo em que se agrada aos entendidos. Uma coleção desse tipo já existe desde 1996 no Brasil: a editora Relume Dumará publica a Perfis do Rio, dedicada a figuras do passado e do presente do Rio de Janeiro. Nesta semana, uma nova série nesse formato chega às livrarias. Perfis Brasileiros, da Companhia das Letras, é inspirada nas Penguin Lives – particularmente no volume Napoleão, do historiador inglês Paul Johnson – e estréia com quatro títulos: Nassau (296 páginas; 37 reais), de Evaldo Cabral de Mello, D. Pedro I (340 páginas; 38 reais), de Isabel Lustosa, Castro Alves (200 páginas; 33 reais), de Alberto da Costa e Silva, e Getúlio (216 páginas; 34 reais), de Boris Fausto.

Ao contrário do que acontece na Inglaterra ou nos Estados Unidos, a tradição das biografias não é forte no Brasil. Muitos personagens de primeira grandeza ainda não receberam seu estudo biográfico definitivo – como é o caso de Getúlio Vargas ou Maurício de Nassau. Além disso, textos escritos nos anos 40 ou 50 continuam sendo "canônicos" e não passaram pelas revisões que pesquisas posteriores tornaram aconselháveis, ou até necessárias. Não se pode dizer, portanto, que uma coleção como a Perfis Brasileiros seja simplesmente uma forma "mais breve" de narrar vidas importantes. Dada a falta de livros acessíveis sobre tantos personagens, ela acaba cobrindo lacunas.

A primeira leva de Perfis Brasileiros impressiona pela qualidade dos autores. Boris Fausto, por exemplo, é uma das maiores autoridades na história da Revolução de 30, que levou Getúlio Vargas ao poder, e Evaldo Cabral de Mello é o maior conhecedor da breve experiência de colonização holandesa capitaneada por Maurício de Nassau no Brasil do século XVII. A seriedade desses pesquisadores garante duas qualidades: os perfis apresentam os fatos com correção, e ainda têm idéias a oferecer. Os livros incluem cronologia, indicações bibliográficas e caderno de fotos.

No equilíbrio entre o quadro histórico mais largo e a intimidade das personalidades apresentadas, as quatro obras adotam estratégias diversas. Fausto e Cabral de Mello às vezes se distanciam de seus personagens para enveredar por análises econômicas. Isabel Lustosa e Costa e Silva demonstram um fascínio maior pela personalidade de seus perfilados. No limite, porém, essa separação entre a intimidade e a vida pública revela-se artificial. A impetuosidade juvenil de dom Pedro I foi fundamental no famoso grito do Ipiranga, e as ambivalências e contradições da era Vargas ecoam, em certa medida, o temperamento escorregadio do homem Vargas. Essa é outra curiosidade fundamental que os perfis satisfazem: permitem aferir o peso que as grandes personalidades têm sobre a história.

 
O Cruzeiro/Estado de Minas

BIÓGRAFO: Boris Fausto, historiador, autor de A Revolução de 30

O QUE MOSTRA A BIOGRAFIA: Vargas, figura central da história republicana, foi um governante mais pragmático do que doutrinário. As idéias centrais que legou, como a do nacional-desenvolvimentismo, hoje estão superadas

O HOMEM PÚBLICO: era um homem esquivo e ambivalente. "Gosto mais de ser interpretado do que de me explicar", dizia. Ao mesmo tempo, soube projetar-se como um mito popular

O PERSONAGEM PRIVADO: tinha personalidade reservada e cultivou casos extraconjugais discretos. Entre os gostos inesperados estava o golfe (que ele jogava mal)

 
Fotos reprodução

BIÓGRAFO: Alberto da Costa e Silva, embaixador, poeta, africanista e membro da Academia Brasileira de Letras

O QUE MOSTRA A BIOGRAFIA: numa sociedade em que as idéias circulavam com dificuldade, ele fez a causa abolicionista entrar na mente e no coração das pessoas

O HOMEM PÚBLICO: Castro Alves era extremamente habilidoso em suas aparições em teatros e saraus: uma espécie de pop star da época

O PERSONAGEM PRIVADO: a tuberculose, que o acompanhou desde a adolescência, não o impediu de ter uma vida boêmia e repleta de mulheres

 

BIÓGRAFA: Isabel Lustosa, historiadora, autora de Insultos Impressos

O QUE MOSTRA A BIOGRAFIA: a história não se faz só de processos abstratos. A personalidade dos protagonistas também influi nos acontecimentos. O temperamento impetuoso de dom Pedro I foi determinante na proclamação da Independência e em outros feitos seus

O HOMEM PÚBLICO: "Era um personagem que dava imenso valor à glória, mas via os homens e a si mesmo de forma muito crua, lidando com a coisa pública de maneira meio cínica"

O PERSONAGEM PRIVADO: era um sujeito rude e "machão", mas não o boçal que alguns descreveram. Mesquinho com dinheiro, ingrato com os amigos e extremamente carnal

 

BIÓGRAFO: Evaldo Cabral de Mello, historiador, autor de Olinda Restaurada e A Outra Independência

O QUE MOSTRA A BIOGRAFIA: a empreitada holandesa no Brasil estava fadada ao fracasso. Pesavam nisso razões econômicas e militares, mas também culturais: as instituições mais liberais dos Países Baixos entravam em conflito com a herança portuguesa no Brasil

O HOMEM PÚBLICO: um militar habilidoso e um político realista, mas dotado de ideais: acreditou que era possível criar uma cidade moderna e cosmopolita no Brasil do século XVII

O PERSONAGEM PRIVADO: era um calvinista devoto. Sabe-se pouco de sua vida amorosa: consta que teve amantes casadas no Brasil

 

 
 
 
 
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