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Copa
A polícia está
pronta para o jogo
Contra o risco do terrorismo e
torcedores violentos, a Alemanha
cria um gigantesco esquema
de segurança para o
Mundial de futebol

Letícia Sorg
Marcus Posthumus/AFP
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| Policial da tropa de choque alemã |
Se há um país com razões para se preocupar
com a segurança de uma competição esportiva,
é a Alemanha. Trata-se, afinal, do país onde ocorreu
a maior infâmia já registrada nesse tipo de evento
o seqüestro da delegação israelense por
terroristas palestinos da facção Setembro Negro, nos
Jogos Olímpicos de Munique, em 1972. A polícia alemã
não estava preparada para lidar com a situação
e o desfecho foi trágico, com a morte de onze atletas, além
da de cinco dos seqüestradores. Não correr nenhum risco
desta vez, na organização da Copa do Mundo, é
uma espécie de obrigação para os alemães.
"Munique permanece em nossa memória, mas a corrida para se
recuperar do prejuízo começou ainda na década
de 70, com a criação do grupo antiterrorista GSG 9",
afirma Christian Zachs, porta-voz do Ministério do Interior
alemão, responsável pelo sistema de segurança.
"Demonstramos a eficiência dessa atitude em 1977, quando um
avião da Lufthansa foi seqüestrado por radicais palestinos
e todos os reféns foram libertados ilesos."
Para garantir a segurança
aos atletas e a mais de 1 milhão de visitantes esperados
para assistir à competição, o país investiu
quase 1 bilhão de euros, cifra equivalente à gasta
para proteger os Jogos Olímpicos de Atenas que reuniram,
em 2004, 11.000 atletas e mais de 1 milhão de turistas. A
estrutura prevê a contratação de 20.000 pessoas
apenas para controlar a torcida nos 64 jogos da competição,
que começa em 9 de junho. Para emergências, estão
mobilizados 7.000 soldados, 5.000 a mais do que o inicialmente previsto.
Os policiais que iam sair de férias foram requisitados para
o Mundial.
Todos os credenciados para trabalhar
na competição sejam jogadores, técnicos
de televisão ou cozinheiros terão os antecedentes
investigados. Qualquer suspeita de ligação com um
grupo terrorista pode ser motivo para uma negativa de visto. Não
é possível apelar da decisão nem pedir explicações.
Outra providência, de natureza tecnológica, foi a encomenda
de robôs capazes de localizar materiais explosivos e que serão
utilizados pela polícia de Berlim. Assim como em Atenas,
o espaço aéreo será monitorado por um avião
equipado para detectar objetos em baixa altitude que estejam a uma
distância de até 400 quilômetros. A aeronave
foi emprestada pela Otan, a aliança militar ocidental. Outros
importantes detalhes dessa estrutura são, naturalmente, mantidos
em segredo.
AFP
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| Hooligan inglês: fora de combate |
Três seleções merecerão um esquema especial,
em razão da conjuntura internacional: Estados Unidos, Irã
e Arábia Saudita. Somente na cidade de Hamburgo, onde ficará
hospedada a seleção dos Estados Unidos, um dos principais
alvos na hipótese de um atentado, foram investidos 9 milhões
de euros no sistema de segurança. A notícia de que
o controvertido presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, cogita
ir aos estádios para assistir aos jogos de sua seleção
nacional aumentou ainda mais a preocupação
não só porque seu país é acusado de
perseguir a tecnologia para fazer a bomba atômica, mas porque
declarações como as que tem feito, negando o holocausto
dos judeus na II Guerra Mundial, são motivo de prisão
na Alemanha.
Outro desafio para o país
organizador da competição é conter os torcedores
violentos. Para evitar a presença dos chamados hooligans,
o governo alemão fechou acordos bilaterais com países
europeus para controlar o trânsito dos brigões durante
a competição. Na Inglaterra, por exemplo, eles serão
obrigados a se apresentar nas delegacias nos dias de jogos, como
já acontece normalmente em outras disputas. Já foram
proibidas de entrar na Alemanha durante a Copa 2.400 pessoas, mas
outras 7.000 estão sendo investigadas sobre sua possível
participação em atos de violência. A Inglaterra
mantém um cadastro atualizado de hooligans e cederá
cerca de 100 policiais à Alemanha para ajudar no monitoramento
de linhas de trem e aeroportos. Os ingleses que não se comportarem
bem em estádios germânicos poderão ser proibidos
de assistir a jogos em seu país quando voltarem do torneio
mundial. Como eles são velhos conhecidos da polícia,
praticamente todos fichados, a maior preocupação envolve
torcedores poloneses, ucranianos e croatas. Tem havido muita truculência
em campeonatos desses países, e na Polônia, no mês
passado, um homem foi amarrado a um carro e arrastado até
morrer, num confronto de hooligans locais. A resposta da Alemanha
à ameaça representada por esses torcedores é
a possibilidade de quebrar o acordo de livre trânsito vigente
entre os países da União Européia.
Para aqueles hooligans que passarem
pelas barreiras, o governo alemão montou um sistema de revista
e vigilância com câmeras para os estádios e as
áreas em que serão instalados os telões. Os
jogos vão ser transmitidos ao vivo para quem não pôde
adquirir ingresso. Será também um desafio a mais para
os responsáveis pela segurança: o consumo de bebidas
alcoólicas nesses locais não tem nenhum controle,
como acontece nos estádios, onde a única bebida vendida
é a cerveja. Como os ingressos para os jogos são personalizados
e intransferíveis, é pouco provável que os
brigões consigam entrar nos estádios. Antes de entregar
um ingresso ao comprador, a organização confere se
ele tem ficha na polícia de seu país. O risco maior,
portanto, estará nas imediações dos telões.
Tradicionalmente a Copa do Mundo
é um evento relativamente livre de incidentes graves. Os
acontecimentos de Munique, em 1972, geraram uma verdadeira paranóia
durante o Mundial de futebol realizado na própria Alemanha
dois anos depois. Nada ocorreu. Passados quatro anos, no Mundial
da Argentina, uma bomba explodiu no centro de imprensa dias antes
do início da competição, matando um policial.
Durante os jogos, disputados sob vigilância máxima
da ditadura militar argentina, nada aconteceu. Em 1998, hooligans
provocaram baderna na França e um policial ficou gravemente
ferido. Desta vez, as ruas das cidades-sede já estão
sendo tomadas por policiais. "É necessário investir
em segurança, mas o aparato serve mais para acalmar a população",
afirma o sociólogo Willi Streitz, professor da Universidade
de Kiel e especialista em comportamento de multidões. "Qualquer
previsão sobre os riscos é mera profecia."
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