Edição 1952 . 19 de abril de 2006

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Copa
A polícia está
pronta para o jogo

Contra o risco do terrorismo e
torcedores violentos, a Alemanha
cria um gigantesco esquema
de segurança para o
Mundial de futebol


Letícia Sorg


Marcus Posthumus/AFP
Policial da tropa de choque alemã


Se há um país com razões para se preocupar com a segurança de uma competição esportiva, é a Alemanha. Trata-se, afinal, do país onde ocorreu a maior infâmia já registrada nesse tipo de evento – o seqüestro da delegação israelense por terroristas palestinos da facção Setembro Negro, nos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972. A polícia alemã não estava preparada para lidar com a situação e o desfecho foi trágico, com a morte de onze atletas, além da de cinco dos seqüestradores. Não correr nenhum risco desta vez, na organização da Copa do Mundo, é uma espécie de obrigação para os alemães. "Munique permanece em nossa memória, mas a corrida para se recuperar do prejuízo começou ainda na década de 70, com a criação do grupo antiterrorista GSG 9", afirma Christian Zachs, porta-voz do Ministério do Interior alemão, responsável pelo sistema de segurança. "Demonstramos a eficiência dessa atitude em 1977, quando um avião da Lufthansa foi seqüestrado por radicais palestinos e todos os reféns foram libertados ilesos."

Para garantir a segurança aos atletas e a mais de 1 milhão de visitantes esperados para assistir à competição, o país investiu quase 1 bilhão de euros, cifra equivalente à gasta para proteger os Jogos Olímpicos de Atenas – que reuniram, em 2004, 11.000 atletas e mais de 1 milhão de turistas. A estrutura prevê a contratação de 20.000 pessoas apenas para controlar a torcida nos 64 jogos da competição, que começa em 9 de junho. Para emergências, estão mobilizados 7.000 soldados, 5.000 a mais do que o inicialmente previsto. Os policiais que iam sair de férias foram requisitados para o Mundial.

Todos os credenciados para trabalhar na competição – sejam jogadores, técnicos de televisão ou cozinheiros – terão os antecedentes investigados. Qualquer suspeita de ligação com um grupo terrorista pode ser motivo para uma negativa de visto. Não é possível apelar da decisão nem pedir explicações. Outra providência, de natureza tecnológica, foi a encomenda de robôs capazes de localizar materiais explosivos e que serão utilizados pela polícia de Berlim. Assim como em Atenas, o espaço aéreo será monitorado por um avião equipado para detectar objetos em baixa altitude que estejam a uma distância de até 400 quilômetros. A aeronave foi emprestada pela Otan, a aliança militar ocidental. Outros importantes detalhes dessa estrutura são, naturalmente, mantidos em segredo.

AFP
Hooligan inglês: fora de combate


Três seleções merecerão um esquema especial, em razão da conjuntura internacional: Estados Unidos, Irã e Arábia Saudita. Somente na cidade de Hamburgo, onde ficará hospedada a seleção dos Estados Unidos, um dos principais alvos na hipótese de um atentado, foram investidos 9 milhões de euros no sistema de segurança. A notícia de que o controvertido presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, cogita ir aos estádios para assistir aos jogos de sua seleção nacional aumentou ainda mais a preocupação – não só porque seu país é acusado de perseguir a tecnologia para fazer a bomba atômica, mas porque declarações como as que tem feito, negando o holocausto dos judeus na II Guerra Mundial, são motivo de prisão na Alemanha.

Outro desafio para o país organizador da competição é conter os torcedores violentos. Para evitar a presença dos chamados hooligans, o governo alemão fechou acordos bilaterais com países europeus para controlar o trânsito dos brigões durante a competição. Na Inglaterra, por exemplo, eles serão obrigados a se apresentar nas delegacias nos dias de jogos, como já acontece normalmente em outras disputas. Já foram proibidas de entrar na Alemanha durante a Copa 2.400 pessoas, mas outras 7.000 estão sendo investigadas sobre sua possível participação em atos de violência. A Inglaterra mantém um cadastro atualizado de hooligans e cederá cerca de 100 policiais à Alemanha para ajudar no monitoramento de linhas de trem e aeroportos. Os ingleses que não se comportarem bem em estádios germânicos poderão ser proibidos de assistir a jogos em seu país quando voltarem do torneio mundial. Como eles são velhos conhecidos da polícia, praticamente todos fichados, a maior preocupação envolve torcedores poloneses, ucranianos e croatas. Tem havido muita truculência em campeonatos desses países, e na Polônia, no mês passado, um homem foi amarrado a um carro e arrastado até morrer, num confronto de hooligans locais. A resposta da Alemanha à ameaça representada por esses torcedores é a possibilidade de quebrar o acordo de livre trânsito vigente entre os países da União Européia.

Para aqueles hooligans que passarem pelas barreiras, o governo alemão montou um sistema de revista e vigilância com câmeras para os estádios e as áreas em que serão instalados os telões. Os jogos vão ser transmitidos ao vivo para quem não pôde adquirir ingresso. Será também um desafio a mais para os responsáveis pela segurança: o consumo de bebidas alcoólicas nesses locais não tem nenhum controle, como acontece nos estádios, onde a única bebida vendida é a cerveja. Como os ingressos para os jogos são personalizados e intransferíveis, é pouco provável que os brigões consigam entrar nos estádios. Antes de entregar um ingresso ao comprador, a organização confere se ele tem ficha na polícia de seu país. O risco maior, portanto, estará nas imediações dos telões.

Tradicionalmente a Copa do Mundo é um evento relativamente livre de incidentes graves. Os acontecimentos de Munique, em 1972, geraram uma verdadeira paranóia durante o Mundial de futebol realizado na própria Alemanha dois anos depois. Nada ocorreu. Passados quatro anos, no Mundial da Argentina, uma bomba explodiu no centro de imprensa dias antes do início da competição, matando um policial. Durante os jogos, disputados sob vigilância máxima da ditadura militar argentina, nada aconteceu. Em 1998, hooligans provocaram baderna na França e um policial ficou gravemente ferido. Desta vez, as ruas das cidades-sede já estão sendo tomadas por policiais. "É necessário investir em segurança, mas o aparato serve mais para acalmar a população", afirma o sociólogo Willi Streitz, professor da Universidade de Kiel e especialista em comportamento de multidões. "Qualquer previsão sobre os riscos é mera profecia."

 
 
 
 
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