Edição 1952 . 19 de abril de 2006

Índice
Millôr
Lya Luft
Diogo Mainardi
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Datas
Veja essa
Gente
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Justiça
Pré-condenada

De volta à prisão, Suzane von Richthofen passa
a noite acorrentada à parede da delegacia


Juliana Linhares


Paulo Pinto/AE
Suzane, à saída da delegacia: "Assassina!", grita a multidão

Sob gritos de "assassina", Suzane von Richthofen embarcou em um carro policial na última terça-feira em direção à Penitenciária Feminina Sant'Ana, na Zona Norte de São Paulo. A ex-estudante de direito, que confessou ter participado do assassinato dos pais em 2002, teve a prisão pedida pelo Ministério Público na segunda-feira passada. O pedido foi encaminhado à Justiça um dia depois de o programa Fantástico, da Rede Globo, ter levado ao ar uma entrevista em que os advogados da jovem apareciam instruindo-a para que chorasse diante das câmeras. Suzane, que já permaneceu presa por mais de dois anos e meio, estava havia nove meses aguardando em liberdade o julgamento.

Os diálogos entre a jovem e seus advogados, captados pelos microfones da TV, provocaram reações indignadas do público e histeria entre alguns colunistas de jornais. Um deles chegou a pedir sessenta anos de cadeia para a moça. Isso porque as conversas revelariam que estava em curso um teatro para beneficiá-la, e o fato de Suzane não conseguir derramar as lágrimas encomendadas por seus defensores seria a prova de sua frieza. Aproveitando-se desse clima de linchamento, o Ministério Público pediu e obteve a prisão da ex-estudante mediante argumento inverossímil, e os policiais encarregados de vigiá-la se sentiram à vontade para fazer com que ela passasse a madrugada acorrentada à parede como um cão. O argumento usado pelo promotor Roberto Tardelli, ao requerer sua prisão, foi que Suzane representava um risco de morte para seu irmão, Andreas, com quem trava uma disputa judicial em torno dos bens da família. O promotor, evidentemente, não acredita nessa possibilidade – ou teria pedido a prisão de Suzane há muito tempo.

Enquanto aguardava sua transferência para a penitenciária, Suzane passou a noite em uma sala do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), no centro de São Paulo. Por um número ainda indefinido de horas, permaneceu algemada, sentada em uma cadeira. Das algemas, saía uma corrente que terminava em uma argola de ferro, presa à parede. Em conversa informal com a reportagem de VEJA, na quarta-feira, o delegado Armando de Oliveira Costa Filho, diretor da Divisão de Homicídios do DHPP, disse que voltaria a prender Suzane da forma como prendeu. "Não gostaram? Então, que a levassem para casa", disse. O policial afirmou que não estava disposto a correr o risco "de ver a menina voando pela janela". Que colocasse, então, seus homens para vigiá-la. Ninguém discorda que Suzane cometeu um crime abjeto, com detalhes de impressionantes cálculo e crueldade. O que se viu na TV, no entanto, não a condena de antemão nem autoriza a polícia a se igualar a criminosos na barbárie.

Suzane foi capa de VEJA na edição passada. Não passou despercebido à reportagem da revista que ela estava instruída pelos advogados para parecer infantilizada. Tanto que a revista registrou que a vida de Suzane oscilava entre a farsa e o drama. Instruir clientes, no entanto, é direito e dever dos profissionais pagos para defendê-los perante a Justiça – inclusive no que diz respeito ao comportamento mais conveniente para essa defesa. Diante dos repórteres do Fantástico, os advogados foram desastrados ao pedir a Suzane que tentasse chorar e manifestar tristeza, sem perceber que os microfones da emissora captavam as recomendações. O Fantástico não poderia agir de outra maneira, senão divulgar os diálogos involuntariamente colhidos. Tratava-se, afinal, de informação pertinente à reportagem, já que revelava parte da estratégia que deverá ser usada na defesa da jovem. Mas a inépcia dos advogados não deve servir de agravante para o crime de Suzane. O fato de ela não conseguir chorar em nada acresce a sua culpa. Como registrou com lucidez o colunista Luís Nassif, da Folha de S.Paulo, lágrimas nunca foram prova de bom-caratismo ou arrependimento. Basta lembrar as muitas que verteram certos petistas nos últimos meses. O julgamento de Suzane, inicialmente marcado para o dia 5 de junho, deverá ser adiado para que não coincida com o de Daniel Cravinhos, seu ex-namorado, e o irmão dele, Cristian Cravinhos – ambos cúmplices da ex-estudante no assassinato. Suzane e seus comparsas receberão a sentença pelo crime que cometeram de um corpo de jurados, como em qualquer país civilizado. Até lá, toda condenação que lhes for imposta só pode ser chamada de injustiça.

 
 
 
 
topovoltar