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Justiça
Pré-condenada
De volta à prisão,
Suzane von Richthofen passa
a noite acorrentada à parede da delegacia

Juliana Linhares
Paulo Pinto/AE
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| Suzane, à saída da delegacia:
"Assassina!", grita a multidão |
Sob gritos de "assassina", Suzane von
Richthofen embarcou em um carro policial na última terça-feira
em direção à Penitenciária Feminina
Sant'Ana, na Zona Norte de São Paulo. A ex-estudante de direito,
que confessou ter participado do assassinato dos pais em 2002, teve
a prisão pedida pelo Ministério Público na
segunda-feira passada. O pedido foi encaminhado à Justiça
um dia depois de o programa Fantástico, da Rede Globo,
ter levado ao ar uma entrevista em que os advogados da jovem apareciam
instruindo-a para que chorasse diante das câmeras. Suzane,
que já permaneceu presa por mais de dois anos e meio, estava
havia nove meses aguardando em liberdade o julgamento.
Os diálogos entre a jovem e
seus advogados, captados pelos microfones da TV, provocaram reações
indignadas do público e histeria entre alguns colunistas
de jornais. Um deles chegou a pedir sessenta anos de cadeia para
a moça. Isso porque as conversas revelariam que estava em
curso um teatro para beneficiá-la, e o fato de Suzane não
conseguir derramar as lágrimas encomendadas por seus defensores
seria a prova de sua frieza. Aproveitando-se desse clima de linchamento,
o Ministério Público pediu e obteve a prisão
da ex-estudante mediante argumento inverossímil, e os policiais
encarregados de vigiá-la se sentiram à vontade para
fazer com que ela passasse a madrugada acorrentada à parede
como um cão. O argumento usado pelo promotor Roberto Tardelli,
ao requerer sua prisão, foi que Suzane representava um risco
de morte para seu irmão, Andreas, com quem trava uma disputa
judicial em torno dos bens da família. O promotor, evidentemente,
não acredita nessa possibilidade ou teria pedido a
prisão de Suzane há muito tempo.
Enquanto aguardava sua transferência
para a penitenciária, Suzane passou a noite em uma sala do
Departamento de Homicídios e Proteção à
Pessoa (DHPP), no centro de São Paulo. Por um número
ainda indefinido de horas, permaneceu algemada, sentada em uma cadeira.
Das algemas, saía uma corrente que terminava em uma argola
de ferro, presa à parede. Em conversa informal com a reportagem
de VEJA, na quarta-feira, o delegado Armando de Oliveira Costa Filho,
diretor da Divisão de Homicídios do DHPP, disse que
voltaria a prender Suzane da forma como prendeu. "Não gostaram?
Então, que a levassem para casa", disse. O policial afirmou
que não estava disposto a correr o risco "de ver a menina
voando pela janela". Que colocasse, então, seus homens para
vigiá-la. Ninguém discorda que Suzane cometeu um crime
abjeto, com detalhes de impressionantes cálculo e crueldade.
O que se viu na TV, no entanto, não a condena de antemão
nem autoriza a polícia a se igualar a criminosos na barbárie.
Suzane foi capa de VEJA na edição
passada. Não passou despercebido à reportagem da revista
que ela estava instruída pelos advogados para parecer infantilizada.
Tanto que a revista registrou que a vida de Suzane oscilava entre
a farsa e o drama. Instruir clientes, no entanto, é direito
e dever dos profissionais pagos para defendê-los perante a
Justiça inclusive no que diz respeito ao comportamento
mais conveniente para essa defesa. Diante dos repórteres
do Fantástico, os advogados foram desastrados ao pedir
a Suzane que tentasse chorar e manifestar tristeza, sem perceber
que os microfones da emissora captavam as recomendações.
O Fantástico não poderia agir de outra maneira,
senão divulgar os diálogos involuntariamente colhidos.
Tratava-se, afinal, de informação pertinente à
reportagem, já que revelava parte da estratégia que
deverá ser usada na defesa da jovem. Mas a inépcia
dos advogados não deve servir de agravante para o crime de
Suzane. O fato de ela não conseguir chorar em nada acresce
a sua culpa. Como registrou com lucidez o colunista Luís
Nassif, da Folha de S.Paulo, lágrimas nunca foram
prova de bom-caratismo ou arrependimento. Basta lembrar as muitas
que verteram certos petistas nos últimos meses. O julgamento
de Suzane, inicialmente marcado para o dia 5 de junho, deverá
ser adiado para que não coincida com o de Daniel Cravinhos,
seu ex-namorado, e o irmão dele, Cristian Cravinhos
ambos cúmplices da ex-estudante no assassinato. Suzane e
seus comparsas receberão a sentença pelo crime que
cometeram de um corpo de jurados, como em qualquer país civilizado.
Até lá, toda condenação que lhes for
imposta só pode ser chamada de injustiça.
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