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Economia e Negócios
Razões para não ajudar a Varig
Não é preciso gastar
dinheiro público.
Concorrentes já ocupam a fatia de
mercado deixada pela empresa

Chrystiane Silva e Victor Martino
Flavio Florido/Folha Imagem
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Álbum de família
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Aqui e lá: enquanto funcionários
da Varig tentam salvar a empresa no Brasil, alguns pilotos
ganham a vida voando para companhias aéreas da Ásia
e do Oriente Médio
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A crise da Varig voltou aos noticiários
na semana passada diante do risco iminente de seus aviões
deixarem de decolar. Funcionários da empresa foram às
ruas pressionar o governo a liberar dinheiro público para
salvá-la. Um jato fretado levou manifestantes a Brasília,
onde, depois, foi "abraçado" por um cordão humano.
A Varig também recebeu um patético apoio da mesma
classe artística que, nas últimas duas décadas,
voou de graça em aviões da companhia e deleitou-se
com patrocínios culturais concedidos por ela. O argumento
dos manifestantes é basicamente o seguinte: a Varig é
um patrimônio nacional que merece ser preservado não
só por seus empregos, como também porque seu nome,
projetado durante décadas no exterior, se confunde com a
história recente do país. O raciocínio é
anacrônico. Não se sustenta no mundo real. A Varig
caminha para o desastre pelos próprios erros, e não
é justo que a conta seja mandada para os brasileiros
cuja imensa maioria, ao contrário dos artistas, nunca se
beneficiou da existência da companhia aérea. Algumas
razões pelas quais a Varig não deve receber ajuda
do governo:
Se a empresa deixar de operar, a aviação civil
brasileira não entrará em colapso. O setor vive sua
melhor fase depois dos atentados de 11 de setembro de 2001. Cresce
a uma taxa de 20% ao ano. As linhas da Varig estão sendo
gradativamente absorvidas pelas concorrentes. Seus pilotos, comissários
de bordo e pessoal de terra, conhecidos pela eficiência e
formação, não devem encontrar problemas sérios
de recolocação.
Uma ajuda pública não resolverá o problema
da Varig. Enquanto o combate aos desperdícios foi decisivo
para sanear empresas do setor aéreo no mundo todo, a direção
da Varig continuou operando como uma estatal. A companhia é
controlada por um grupo de funcionários que sempre barram
medidas administrativas indispensáveis, tais como restrição
de salários e demissões. A origem dessa estrutura
vem de 1945, quando o então presidente da companhia, Ruben
Berta, criou a Fundação dos Funcionários da
Varig hoje Fundação Ruben Berta para
controlar a empresa. As raposas tomam conta do galinheiro.
A Varig já é um cemitério de dinheiro
público. A empresa tem uma dívida de 5 bilhões
de reais com a BR Distribuidora, a Infraero, a Receita Federal e
o INSS. Os malefícios que a Varig causa a todos os contribuintes
superam quaisquer benefícios que concede a poucos. A companhia
vem sendo ajudada artificialmente pelo governo há alguns
anos, já que consome combustível e opera nos aeroportos
quase de graça. A cada dia que passa, o contribuinte tira
dinheiro do bolso para dar à empresa.
Se o governo decidir injetar dinheiro na companhia, toda
e qualquer empresa do país que tiver problemas financeiros
se julgará no mesmo direito. Vasp e TransBrasil, que já
deixaram o mercado por problemas de má gestão, podem
exigir tratamento idêntico.
A aprovação da nova lei de falências
brasileira, no ano passado, foi adiada justamente para incluir as
companhias aéreas e permitir que credores e devedores se
entendessem numa negociação de mercado. Se o governo
injetar capital na Varig, vai atropelar a própria lei, em
um retrocesso inadmissível.
Felizmente, o presidente Lula não
se curvou às pressões pró-salvação
da Varig. "Não cabe ao governo salvar empresa falida", disse
ele. Sem sucesso em sua viagem a Brasília, os funcionários
deram sobrevida à Varig conseguindo uma liminar na Justiça
do Trabalho. A medida lhes concedia a apreensão de todo o
patrimônio da empresa como garantia do pagamento de dívidas
trabalhistas. Isso assegura aos empregados e à própria
companhia que os credores não tomarão os bens dela
pelo não-pagamento das volumosas dívidas oficialmente,
7 bilhões de reais, mas, na prática, calcula-se que
gire em torno dos 10 bilhões. A Varig atribui sua crise às
intervenções econômicas do governo e à
demora no julgamento de uma ação judicial contra o
congelamento de tarifas, que, segundo ela, poderia render-lhe até
3 bilhões de reais. Nenhuma palavra (é claro) sobre
os inúmeros casos de fraudes que transformaram a empresa
numa máquina de queimar dinheiro. Uma agência de viagens
de nome Varig Travel foi criada em 2001 e dela foram desviados 100
milhões de reais. Estima-se que outros 10 milhões
de reais tenham sido tomados por uma empresa terceirizada que digitava
as milhas do programa Smiles. É nesse tipo de companhia que
o governo deve investir dinheiro público? Claro que não.
China Photos/Getty Images
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| China: empresas aéreas terão
de comprar 2 600 aviões em vinte anos para atender ao
aumento da demanda |
Outra alegação dos funcionários
é que 11.000 empregos serão perdidos. O sofrimento
de cada um dos ameaçados de demissão merece toda a
solidariedade. A Varig e os sindicatos da categoria devem a eles
todo o esforço para recolocação que puderem
fazer. As concorrentes da Varig já estão absorvendo
parte dos funcionários da empresa. Há centenas de
pilotos brasileiros trabalhando no exterior em jatos de companhias
aéreas na Ásia, Índia e Oriente Médio.
Nesses países, o crescimento da aviação civil
dá-se em ritmo maior do que a capacidade das escolas especializadas
em formar comandantes. "É mais eficiente e seguro contratar
pilotos experientes estrangeiros do que esperar a formação
de novos profissionais. Os brasileiros são muito adaptáveis
e excelentes pilotos", disse a VEJA Julie Liu, diretora da EVA Air,
empresa de Taiwan que emprega 36 pilotos brasileiros.
A Boeing, uma das maiores fabricantes
mundiais de aviões, espera faturar 550 bilhões de
dólares no Sudeste Asiático, na China e no Oriente
Médio com a venda de 5.182 aeronaves nos próximos
vinte anos. Mas não há pilotos suficientes para isso.
A China precisaria de mais 1.200 pilotos a cada ano. A Índia,
outra potência crescente na aviação civil após
a desregulamentação do setor, necessitaria de 2.000
profissionais. Para os brasileiros, esse é o melhor dos mundos.
As companhias aéreas internacionais oferecem a eles casa
com até 250 metros quadrados em amplos condomínios
com tudo pago, escola para os filhos e salário em dólar
cerca de 50% maior do que os do Brasil. A crescente procura por
pilotos estrangeiros fez nascer empresas especializadas em recrutar
esses profissionais. O carioca Armindo Souza Viriato de Freitas
criou uma dessas companhias em Macau depois que começou a
trabalhar na empresa aérea chinesa Shenzhen Airlines, três
anos atrás. "Desde 2004, já inserimos 25 pilotos em
companhias chinesas, dez na Índia e cinco na Eslovênia",
diz Freitas. Foi por meio dessa empresa que o ex-piloto da TransBrasil
Rodrigo Oliveira, de 50 anos, chegou à China, um ano e meio
atrás. Ele trabalha na Shenzhen Airlines, com outros vinte
brasileiros. "Trabalhar aqui é uma maravilha, não
há problema com o idioma, já que o inglês é
a língua oficial da aviação. Meu filho estuda
na escola americana e aprende mandarim. Não penso em voltar
para o Brasil", comenta. Na Emirates Airlines, uma das companhias
aéreas que mais crescem no mundo, há quinze pilotos
brasileiros. Carlos Eduardo Hime, 44 anos, é um deles. Depois
de trabalhar na Varig por quinze anos, ele mudou-se para Dubai com
a mulher e a filha, de 7 anos. "Quero ficar aqui por dez ou quinze
anos. É um lugar muito mais seguro do que o Rio de Janeiro",
diz. A Varig não deveria receber mais ajuda pública
por todas as razões acima. No Brasil e no mundo, a falência
de companhias aéreas deve ser encarada como um fato da vida.
Se o governo e a sociedade devem fazer algo a respeito, é
impedir que a maioria pague pelo conforto de alguns.
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