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Economia e Negócios
A arte de enxergar longe
Prever crises e agir antes do desastre:
a nova receita dos países emergentes

Giuliano Guandalini
Atolada em dívidas, com as contas externas
no vermelho e encurralada pelos especuladores, a Tailândia
entregou os pontos em 1997. A moeda do país, o baht, desabou.
Os investidores fugiram em manada dos Tigres Asiáticos, temendo
o contágio tailandês. No meses seguintes o tsunami
financeiro arrastaria Indonésia, Filipinas, Malásia
e Coréia do Sul países com economias que dependiam
do capital externo para fechar suas contas. Nos anos seguintes cairiam
Rússia, Brasil e Argentina. O abalo da crise asiática
trouxe um período de penúria e baixo crescimento.
No mês passado, uma nova crise trouxe de volta o temor de
que o mundo estaria diante de um novo ciclo de crises. Depois de
três anos de uma bolha inflada pelo capital estrangeiro, a
Islândia começou a enfrentar a descrença dos
investidores. O gelado país do extremo norte europeu, de
300.000 habitantes, enfrenta uma fuga de divisas. Suas ações,
que tinham subido 400% entre 2003 e o começo deste ano, estão
em forte queda. A turbulência no minúsculo país
gerou temores e inúmeras discussões nas páginas
do Wall Street Journal e do Financial Times. Estaria
o mundo prestes a ser arrastado por uma nova onda de crises financeiras?
A resposta é um sonoro não ao menos por enquanto.
Embora existam riscos, os países em desenvolvimento (também
chamados de emergentes) vivem um período de inédita
solidez de seus fundamentos e previsibilidade econômica. Pelos
seguintes motivos:
Em vez de saldos
negativos, os países em desenvolvimento registram hoje um
grande superávit nas contas externas. De um déficit
de 115 bilhões de dólares em 1998, eles têm
agora uma sobra de divisas que poderá alcançar 500
bilhões de dólares neste ano.
De devedores,
esses países passaram a ser credores em dólares. Hoje
não são os pobres que devem aos ricos; são
os desenvolvidos, principalmente os Estados Unidos, que devem aos
emergentes.
Esses países,
de maneira geral, abandonaram políticas populistas e executam
com muito mais seriedade suas políticas econômicas,
trazendo estabilidade e confiança dos investidores.
Os emergentes
estão tirando proveito do crescimento do comércio
mundial, ampliando suas exportações e economizando
dólares.
Essas economias
são hoje bem mais transparentes, abertas e diversificadas
do que eram no passado, o que as deixa menos sujeitas a choques
externos.
Os países aprenderam a duras penas
que é preciso enxergar longe, fazer planejamento e agir contra
as tempestades antes que as nuvens se tornem negras. Em resumo,
o ambiente econômico mundial tornou-se mais racional e previsível.
Isso não significa que nunca mais haverá crises globais
afinal, crise é justamente algo que não se
pode prever. Mas as defesas hoje são bem mais fortes. Não
por acaso, só houve reflexo do abalo islandês em países
cujas contas externas operam no vermelho, como a Hungria. No resto
do planeta, mal se tomou conhecimento da turbulência na terra
da cantora Björk. Segundo relatório do Fundo Monetário
Internacional (FMI), países como o México e o Brasil
souberam tirar lições de seus erros do passado. "Os
mercados financeiros, nos últimos anos, têm sido caracterizados
por uma aguda melhora em sua resistência", disse Gerd Häusler,
diretor da divisão de mercado de capitais do FMI. Tome-se
o caso do Brasil. Em 1998, o país amargou um megadéficit
de 33,5 bilhões de dólares nas suas contas externas.
O sistema de paridade com o dólar, mantido a duras penas
até a reeleição de Fernando Henrique Cardoso,
ruiu. O país quebrou e teve de ser socorrido pelo FMI. O
Brasil adotou o câmbio flutuante e estancou a sangria dos
gastos públicos. A gestão econômica foi aprimorada
e as exportações dispararam com o alto crescimento
mundial. Resultado? O país teve um saldo positivo de 14,2
bilhões de dólares nas suas transações
internacionais no ano passado. As reservas em divisas estrangeiras,
que são recursos utilizados para honrar débitos externos,
subiram a 60 bilhões de dólares. Outro exemplo de
robustez é a China. Há dez anos, as reservas internacionais
chinesas eram de 100 bilhões de dólares; hoje já
passam de 700 bilhões. Com uma blindagem desse tamanho, é
improvável que o país sofra um ataque especulativo
como o que vitimou seus vizinhos asiáticos.
Essa engorda das reservas está sendo
feita conjuntamente pela grande maioria dos emergentes. Para o americano
Allan Meltzer, da Universidade Carnegie Mellon, o risco de uma crise
sistêmica é hoje muito menor. "É menos provável
o ataque de especuladores, e os países têm como se
defender", disse Meltzer a VEJA. Reflexo disso tudo é que
o FMI entrou em crise existencial. Quase todos os países
quitaram seus débitos com o Fundo, e, para alguns, a instituição
perdeu sua razão de existir. Os emergentes também
avançaram na administração de suas dívidas
e sofisticaram seus mercados financeiros. Alan Greenspan, o ex-presidente
do Federal Reserve (o banco central americano) que acaba de se aposentar,
sempre foi um entusiasta dessa revolução. "Instrumentos
financeiros cada vez mais complexos contribuíram para o desenvolvimento
de um mercado financeiro muito mais flexível, eficiente e
resistente", afirmou recentemente.
A globalização chegou a ser
considerada o principal algoz dos emergentes na década passada.
A atual estabilidade mundial atesta que a integração
dos mercados pode trazer muitos benefícios para aqueles que
souberem tirar proveito de suas virtudes.
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