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Internacional
Entre o ruim e o pior
No segundo turno, os peruanos
devem escolher entre dois populistas,
Ollanta Humala e Alan García

Diogo Schelp
Pilar Olivares/Reuters
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| Ollanta Humala em campanha: o coronel está
mais para Mussolini do que para Marx |
Não foi por falta de opção.
O cardápio oferecido aos eleitores peruanos era variadíssimo
vinte diferentes candidatos disputaram a Presidência
do Peru nas eleições de domingo 9. Ainda assim, como
está virando moda na América Latina, os peruanos devem
decidir no segundo turno entre um candidato ruim (Alan García)
e um pior (Ollanta Humala). Com um terço dos votos, Humala
está garantido na disputa decisiva. Ainda é preciso
esperar até a contagem das últimas urnas, o que deve
ocorrer nesta semana, mas os prognósticos são de que
García, com cerca de 25% dos votos já contados, baterá
por pequena vantagem a candidata Lourdes Flores, ex-deputada por
Lima. Isso significaria que a escolha será entre dois tipos
de populismo.
Humala é novato em política.
Suas promessas de campanha são, basicamente, mão firme
contra os "exploradores do povo" e uma "política econômica
nacionalista". Essa expressão significa, pelo que ele já
explicitou, nacionalização dos minérios e do
petróleo e aversão aos investimentos estrangeiros.
Humala beneficiou-se do alto índice de insatisfação
dos peruanos com o governo do presidente Alejandro Toledo. É
um paradoxo: a política de Toledo de controle dos gastos
públicos, respeito aos contratos e incentivo às exportações
fez a economia do Peru crescer 20% no acumulado dos últimos
cinco anos. A explicação pode estar no fato de que,
apesar desse crescimento, o índice de pobreza no Peru caiu
apenas 2% nos últimos cinco anos metade da população
do país é pobre.
Alan García é ex-presidente,
candidato de um partido tradicional. Em sua mão, entre 1985
e 1990, o Peru conheceu o caos econômico, a hiperinflação
e o descontrole da guerrilha do Sendero Luminoso. Eleições
como a peruana, logo depois da posse de Evo Morales na Bolívia
e de Michelle Bachelet no Chile, dão a impressão de
que a América Latina iniciou uma irrefreável virada
à esquerda. Há grande injustiça em pôr
todos eles no mesmo saco. A chilena Bachelet, o brasileiro Lula
e o uruguaio Tabaré Vázquez representam governos responsáveis,
socialistas moderados ou social-democratas. Chávez, Morales,
Humala e o argentino Néstor Kirchner simbolizam um velho
fenômeno que já causou muito mal à América
Latina, o populismo.
Kiko Castro/AFP
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Daniel Silva/Reuters
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| Lourdes e García, um deles
vai disputar com Humala no segundo turno. Ex-presidente, García
é o favorito |
O político populista pode ser
identificado, entre outras características, pelo discurso
demagógico e por apelar diretamente às massas em detrimento
das instituições. Na economia, costuma prometer crescimento
e distribuição de renda sem se importar se a contrapartida
é a inflação, o déficit público
e outros desastres que terminam por deixar os pobres mais pobres.
O populismo não é nativo do continente latino-americano,
mas é recorrente por aqui. Por sua vez, a esquerda latino-americana
sofre de atração fatal por líderes populistas,
mesmo quando eles não são ideologicamente de esquerda.
O argentino Juan Perón inspirou-se
no fascismo e ofereceu refúgio aos criminosos nazistas depois
da II Guerra. Apesar disso, o partido do presidente Kirchner, que
se apresenta como um companheiro na luta antiglobalização,
supostamente existe para perpetuar seus ideais. O nacionalismo do
coronel peruano lembra mais Mussolini do que Marx. "Humala representa
uma mistura estranha de esquerdismo, pelo que defende de política
econômica e social, e fascismo, por seu discurso autoritário
e imagem de militar durão, o que parece agradar ao eleitorado",
disse a VEJA o peruano Alvaro Vargas Llosa, do Instituto Independente
em Washington, nos Estados Unidos.
Humala, Morales e Chávez estão
de acordo em três pontos. Primeiro, em atribuir à globalização
econômica e à abertura comercial a pobreza em seus
países. Segundo, pelo apelo étnico: os três
enaltecem as próprias origens indígenas e mestiças
para buscar identificação popular. "Humala explora
um mito que toca fundo no imaginário de 80% da população
do Peru, os índios e mestiços: o retorno à
era dourada do império inca", disse a VEJA o peruano Alfredo
Torres, diretor do instituto de pesquisas Apoyo, de Lima. O terceiro
ponto em comum é o empenho em dar uma fachada democrática
a práticas autoritárias. Humala já avisou que
pretende dissolver o Congresso para convocar uma Assembléia
Constituinte, como fez Chávez na Venezuela. É claro
que sua vida não será tão fácil. O venezuelano
pode financiar suas aventuras com o dinheiro farto da venda do petróleo.
O Peru é um país miserável, que só tem
a perder com o isolamento econômico.
Ollanta Humala, 42 anos, é acusado
de tortura e execuções sumárias no início
da década de 90, quando combateu o Sendero Luminoso. Esse
currículo pega bem entre os pobres peruanos, que sofreram
nas mãos dos alucinados maoístas. Em 2000, Ollanta
("guerreiro que tudo vê", na língua dos incas) e seu
irmão Antauro, também oficial do Exército,
tentaram um levante militar para derrubar o presidente Alberto Fujimori.
A tradição golpista dos Humala repetiu-se em janeiro
do ano passado, quando Antauro comandou uma quartelada para derrubar
o presidente Alejandro Toledo. Ollanta garante que não tem
nada a ver com o irmão. Também tenta se distanciar
das declarações do resto da família. Sua mãe
propõe fuzilar os homossexuais. O irmão quer executar
o presidente Toledo. O pai, comunista empedernido, defende anistia
para os senderistas presos. Ou seja, a família Humala quer
ver sangue derramado.
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