Edição 1951 . 12 de abril de 2006

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Internacional
Rendição no grito

Acuado pelos protestos nas ruas, governo
francês revoga a Lei Primeiro Emprego


Antonio Ribeiro, de Paris

 

Jena-Paul Pelissier/Reuters
Na faixa dos estudantes, em Marselha: "Vamos completar o serviço"

O governo do presidente francês Jacques Chirac escreveu, na semana passada, mais uma página na história das capitulações humilhantes. Desta vez, nenhum exército estrangeiro foi responsável pela debacle. Bastou a resistência de estudantes, sindicalistas e funcionários públicos franceses. Durante nove semanas, eles bloquearam colégios e universidades, fizeram greves e marcharam em protesto nas ruas. No fim, conseguiram a rendição no grito. Acuado, o governo engavetou a lei do Contrato Primeiro Emprego, que havia sido aprovada pela Assembléia Nacional e pelo Senado, respaldada pelo Conselho Constitucional, promulgada pelo próprio Chirac e publicada no Diário Oficial. Apresentada pelo primeiro-ministro Dominique de Villepin, a lei tinha como objetivo incentivar as grandes empresas a contratar jovens – o índice de desemprego entre os jovens franceses é de 23%, o segundo maior da Europa. O mecanismo de incentivo era a possibilidade de demissão nos dois primeiros anos de contrato sem que fosse preciso pagar as pesadas indenizações previstas na legislação trabalhista francesa.

A flexibilização do mercado de trabalho ajuda a gerar novos empregos da Inglaterra à Eslováquia e da Espanha à Finlândia, mas é repudiada com vigor pelo código genético dos sindicatos franceses, acostumados a empregos vitalícios, e pelos estudantes universitários, cujo projeto de vida, de acordo com as pesquisas, é um emprego público no qual possam levar uma vida profissional sem risco. A única reforma recente aceita pelos sindicatos foi a redução da jornada de trabalho para 35 horas semanais, introduzida pelos socialistas. A idéia era que seria preciso criar novas vagas para compensar o horário mais folgado, mas isso não aconteceu. As empresas francesas se retraíram ao perceber que a jornada curta só multiplicava os pesados encargos sociais sem aumentar a produtividade. A França precisa de 150.000 novos empregos por ano, mas só cria 80.000, dos quais 55.000 recebem ajuda ou são oferecidos pelo governo.

Victor Tonelli/Reuters
Villepin: agora, uma fórmula que adia a solução do problema do desemprego


Abandonado pelos aliados e por Chirac, Villepin foi submetido à humilhação pública. O primeiro-ministro viu-se obrigado a substituir o Contrato Primeiro Emprego por uma fórmula que só adia a busca de solução para o problema. Na quinta-feira, o Senado aprovou a nova lei, que concede às empresas um subsídio de 400 euros mensais no primeiro ano e 200 no segundo para cada emprego concedido aos jovens "desqualificados e moradores de zonas sensíveis". Leia-se, filhos e netos de imigrantes que moram na periferia das grandes cidades, onde o desemprego chega a 40%. Depois da derrota, o governo francês perdeu a autoconfiança. A prova? Na semana passada, Chirac, cuja popularidade despencou para 29%, achou prudente não apresentar um projeto de lei que proíbe fumar em lugares públicos. O presidente temia causar rebuliços.

 
 
 
 
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