Edição 1 645 -19/4/2000

VEJA esta semana

Brasil
Internacional
Geral
Economia e negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Colunas
Claudio de Moura Castro
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Contexto
Holofote 
Veja essa
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações
Para usar
Veja recomenda
Os mais vendidos

Banco de Dados 

Para pesquisar digite uma ou mais palavras no campo abaixo. 


 

A etiqueta do celular

"Por que, no país do 'homem cordial', somos tão
atabalhoados na etiqueta do celular?
A mesma
pessoa que faz gentilezas e rapapés palra no aparelho
diante de um grupo de amigos ou clientes"


Ilustração Ale Setti


Quatro pessoas do segundo escalão de um ministério — todas inteligentes e simpáticas — sentavam-se comigo à mesa, informalmente. Impaciente, pesquei uma revista na pasta e comecei a ler. Isso porque cada uma daquelas pessoas estava ao celular resolvendo problemas inadiáveis da República.
Há incontáveis exemplos na mesma direção. Em conferência com um ministro centro-americano, o celular pousado em sua mesa tocava com freqüência — e era atendido. Outro exemplo: uma pessoa apresentou-se para uma entrevista, em que pedia alguma coisa importante. Mas toca o seu celular e segue-se uma longa e animada conversa. Contam-me também que há escolas onde alunos e professores, em plena aula, usam abundantemente os celulares. E nos concertos, então?

As exceções são à força. Em reuniões ministeriais, cria-se um berçário para celulares à porta da sala e fica uma secretária tomando conta. Antes de entrar o presidente da República em alguma cerimônia, o arauto do protocolo manda desligar os celulares.

Ou muito me engano, ou há um equívoco na etiqueta do celular abaixo do Equador. Dos americanos — considerados pelos europeus como no limiar da barbárie — não nos veio esse mau hábito. O celular é usado com circunspeção. É proibido usá-lo no Clube Cosmos, o quintessencial esconderijo da classe dominante americana. Amy Vanderbilt é taxativa: (1) executivos não devem deixar ligados seus celulares quando se encontram com outras pessoas e (2) restaurante não é cabine telefônica, é para comer.

Recuperemos a história da etiqueta. Segundo S.L. Carter, a civilidade é a soma dos muitos sacrifícios que somos levados a fazer para facilitar a vida em comum. Portanto, as regras de civilidade são também as regras da moralidade, têm a ver com respeito pelo próximo. Historicamente, a etiqueta se desenvolveu nos últimos séculos, guindando a Europa da barbárie, no processo de disciplinar nossos desejos, permitindo o funcionamento harmônico e eficiente da sociedade. A etiqueta é a ética para tranqüilizar os estranhos, mostrando que somos civilizados. Para o suíço Elias, tem a ver com a eliminação de aspectos desagradáveis dos processos sociais. Os chineses comem de pauzinhos, pois consideram grosseiro levar à mesa "armas" — como garfo e faca.

Por que, em nosso país do "homem cordial", somos tão atabalhoados na etiqueta do celular? A mesma pessoa faz gentilezas e rapapés, abre portas para as mulheres, usa corretamente os talheres, não arrota, pede licença para se retirar, não interrompe a conversa dos outros mas, alegremente, palra no celular diante de um grupo de amigos ou clientes.

Uma explicação possível: por décadas os telefones eram precários e as ligações difíceis, havia que ser rápido antes que caísse. Conseguir falar era uma vitória. No início dos 70, existia um amplificador para o ruído de linha. A secretária pela manhã punha o fone no aparelho e ia fazer o seu trabalho até que o telefone desse linha. Nesta situação, criou-se uma norma pragmática: diante de tão fugaz chance de falar com alguém longe, a ligação teria precedência sobre quem está perto. Mas a trabalheira e o preço eram tão altos que só coisa importante justificava a chamada.

Hoje, os telefones dão linha e falam, a praga de gafanhotos do celular invadiu o país. Tudo funciona — demais, com excessiva freqüência. Mas a mudança foi muito rápida, a antietiqueta do "telefone/emergência" sobreviveu e invadiu o período do "telefone/tagarelice". Será que não seria o caso de exumar a velha etiqueta de dar preferência ao nosso interlocutor já estabelecido e não interrompê-lo sei lá quantas vezes com a zoada do celular e a conversa que se segue? Por que um povo de trato doce não abandona essas interrupções tão pouco civilizadas?


Claudio de Moura Castro é economista (claudiomc@attglobal.net)