Um certo sr. Abel. Ou: a
banalidade da corrupção
Histórias que ilustram como, para
medrar,
a roubalheira precisa ser considerada
normal como respirar
Olha-se para um lado, olha-se para o outro, e, diante do
panorama que se descortina, torna-se oportuno recordar o sr.
Abel. O sr. Abel, assim mesmo, sem sobrenome, para preservar
sua identidade, é personagem de um lindo livro da professora
Ecléa Bosi, Memória e Sociedade, publicado
pela primeira vez em 1973, republicado em 1994. Com o subtítulo
"Lembranças de Velhos", o livro contém um estudo
sobre esse patrimônio maior dos velhos, que são
as lembranças, e em seguida transcreve os depoimentos
de pessoas ouvidas pela autora, todas de São Paulo
e com idade superior a 70 anos. O sr. Abel é um dos
depoentes. Quando do depoimento, estava recolhido a um asilo,
pobre e sozinho no mundo, mas em outros tempos não
fora pouca coisa. Filho de família conhecida, circulara
entre gente importante. Trabalhara em banco e na Light, sempre
apadrinhado por políticos. Fora parar no Instituto
Brasileiro do Café, o antigo IBC. Ali virou especialista
em inquéritos administrativos. Que empregão!
"Muitas vezes eu recebia um envelope com dinheiro dentro,
uma vez até 1 libra esterlina", conta Abel, com entusiasmo.
"Era dos processados ou dos seus advogados que queriam copiar
parte dos autos ou saber de informações que
só eu tinha, como funcionário da União."
Abel acabara de ingressar no reino encantado da corrupção.
Alguns anos depois, ele conheceu o "dr. X". Um amigo procurou-o
e indagou: "Oi, Abel, como é que você receberia
o dr. X em sua casa?" Abel respondeu que o receberia "como
um amigo". Não lhe foi difícil adivinhar o porquê
do interesse de X, poderoso personagem da época: Abel
tinha em mãos um processo em que ele estava implicado.
O dr. X não demorou a dar o ar de sua graça.
"Foi o dedo de Deus que me trouxe a esta casa", disse, ao
entrar. Abel foi direto ao ponto: "Eu sei, dr. X, o que o
senhor quer. Está em cima de minha mesa. Pode levar".
Era o tal processo. Diante de tanta solicitude, resistir quem
há-de? Claro, o dr. X encantou-se com o sr. Abel. Tanto
que o tomou para secretário. (Deixemos cair esta máscara:
o dr. X é Adhemar de Barros, interventor, governador
e prefeito em São Paulo. No livro seu nome não
aparece, mas as pistas deixadas no caminho são de evidência
gritante.)
O sr. Abel passou a trabalhar na casa do dr. X, então
governador. E estranhava que toda noite, entre 9 e 10 horas,
aparecia um general. Que vinha ele fazer, na hora em que não
havia mais ninguém? Abel concluiu: "É dinheiro,
dinheiro que ele vem buscar". O general, que Ecléa
Bosi nota, num pé de página, ter sido um dos
promotores do golpe de 1964, "sustentava o X no poder", nas
palavras de Abel. Numa outra ponta, X era sustentado pelo
dinheiro do jogo do bicho, que chegava em maletas, farto e
pontual. Dr. X disse um dia a Abel para abrir o cofre onde
depositava o dinheiro. "Quando eu abri", conta Abel, "era
tanto o dinheiro que caía em cima da gente, não
cabia mais nada."
Quando chegavam as maletas, eram esvaziadas e ficava aquele
montão de notas para ser colocadas no cofre. Então
o doutor X dizia: "O Abel, por que você não pega?"
E, se o subordinado mostrasse alguma hesitação:
"Mas você é uma besta mesmo. Tira quanto quiser.
Eu não sei quanto tem". Dr. X tinha um assessor de
nome Caio. Um dia, os dois tiveram uma briga séria.
Quase se atracaram. Tinha acabado de chegar o dinheiro do
bicho. A mala estava no chão. Numa certa altura, X
gritou: "Ponha-se daqui para fora". Caio passou a mão
na mala, conta Abel, "e vupt!... fugiu". Ficou milionário.
"Sessenta milhões, naquela época!", comenta
Abel.
Que nos ensinam as histórias do sr. Abel? Elas se
reportam a uma, digamos, era da inocência da corrupção.
Dinheiro espalhado no chão, cofres entulhados – isso
não é mais concebível senão como
cenário de comédia, mesmo porque a moeda é
hoje abstrata e a comunicação eletrônica.
Fiquemos com uma característica que o sr. Abel, na
candura com que vai desfiando seus casos, ilustra à
perfeição: a banalidade da corrupção.
Ela não o espanta. Não sai dele uma palavra
de condenação ao dr. X – referido, muito pelo
contrário, como "um homem bom". Uma vez inserido no
ambiente, Abel encaixa-se com naturalidade. Já que
estamos aqui, por que não? Ele também dá
suas bicadas e nem por isso sente-se diferente, menos respeitável
como cidadão ou menos "bom" como homem.
Este é um aspecto sem o qual a flor da corrupção
não medraria tão vistosa. A filósofa
Hannah Arendt qualificou de "banalidade do mal" a maneira
mecânica, burocrática, anestesiada, com que,
no nazismo, o cuidadoso funcionário Adolf Eichmann
organizava a logística da condução dos
judeus para os campos de extermínio. O mal, para triunfar,
precisa de uma certa banalidade. Precisa de quem não
o encare como tal, mas como fato da vida, normal como o ato
de respirar. Assim a corrupção. Para virar o
que virou, no Brasil, precisa estar protegida por um ambiente
em que seja encarada como invencível fatalidade e,
já que é assim, uma rotina a cumprir. Deixa
estar, o mundo é assim mesmo. Relaxa e goza.