Edição 1 645 -19/4/2000

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Um certo sr. Abel. Ou: a
banalidade da corrupção

Histórias que ilustram como, para medrar,
a roubalheira precisa ser considerada
normal como respirar

Olha-se para um lado, olha-se para o outro, e, diante do panorama que se descortina, torna-se oportuno recordar o sr. Abel. O sr. Abel, assim mesmo, sem sobrenome, para preservar sua identidade, é personagem de um lindo livro da professora Ecléa Bosi, Memória e Sociedade, publicado pela primeira vez em 1973, republicado em 1994. Com o subtítulo "Lembranças de Velhos", o livro contém um estudo sobre esse patrimônio maior dos velhos, que são as lembranças, e em seguida transcreve os depoimentos de pessoas ouvidas pela autora, todas de São Paulo e com idade superior a 70 anos. O sr. Abel é um dos depoentes. Quando do depoimento, estava recolhido a um asilo, pobre e sozinho no mundo, mas em outros tempos não fora pouca coisa. Filho de família conhecida, circulara entre gente importante. Trabalhara em banco e na Light, sempre apadrinhado por políticos. Fora parar no Instituto Brasileiro do Café, o antigo IBC. Ali virou especialista em inquéritos administrativos. Que empregão! "Muitas vezes eu recebia um envelope com dinheiro dentro, uma vez até 1 libra esterlina", conta Abel, com entusiasmo. "Era dos processados ou dos seus advogados que queriam copiar parte dos autos ou saber de informações que só eu tinha, como funcionário da União." Abel acabara de ingressar no reino encantado da corrupção.

Alguns anos depois, ele conheceu o "dr. X". Um amigo procurou-o e indagou: "Oi, Abel, como é que você receberia o dr. X em sua casa?" Abel respondeu que o receberia "como um amigo". Não lhe foi difícil adivinhar o porquê do interesse de X, poderoso personagem da época: Abel tinha em mãos um processo em que ele estava implicado. O dr. X não demorou a dar o ar de sua graça. "Foi o dedo de Deus que me trouxe a esta casa", disse, ao entrar. Abel foi direto ao ponto: "Eu sei, dr. X, o que o senhor quer. Está em cima de minha mesa. Pode levar". Era o tal processo. Diante de tanta solicitude, resistir quem há-de? Claro, o dr. X encantou-se com o sr. Abel. Tanto que o tomou para secretário. (Deixemos cair esta máscara: o dr. X é Adhemar de Barros, interventor, governador e prefeito em São Paulo. No livro seu nome não aparece, mas as pistas deixadas no caminho são de evidência gritante.)

O sr. Abel passou a trabalhar na casa do dr. X, então governador. E estranhava que toda noite, entre 9 e 10 horas, aparecia um general. Que vinha ele fazer, na hora em que não havia mais ninguém? Abel concluiu: "É dinheiro, dinheiro que ele vem buscar". O general, que Ecléa Bosi nota, num pé de página, ter sido um dos promotores do golpe de 1964, "sustentava o X no poder", nas palavras de Abel. Numa outra ponta, X era sustentado pelo dinheiro do jogo do bicho, que chegava em maletas, farto e pontual. Dr. X disse um dia a Abel para abrir o cofre onde depositava o dinheiro. "Quando eu abri", conta Abel, "era tanto o dinheiro que caía em cima da gente, não cabia mais nada."

Quando chegavam as maletas, eram esvaziadas e ficava aquele montão de notas para ser colocadas no cofre. Então o doutor X dizia: "O Abel, por que você não pega?" E, se o subordinado mostrasse alguma hesitação: "Mas você é uma besta mesmo. Tira quanto quiser. Eu não sei quanto tem". Dr. X tinha um assessor de nome Caio. Um dia, os dois tiveram uma briga séria. Quase se atracaram. Tinha acabado de chegar o dinheiro do bicho. A mala estava no chão. Numa certa altura, X gritou: "Ponha-se daqui para fora". Caio passou a mão na mala, conta Abel, "e vupt!... fugiu". Ficou milionário. "Sessenta milhões, naquela época!", comenta Abel.

Que nos ensinam as histórias do sr. Abel? Elas se reportam a uma, digamos, era da inocência da corrupção. Dinheiro espalhado no chão, cofres entulhados – isso não é mais concebível senão como cenário de comédia, mesmo porque a moeda é hoje abstrata e a comunicação eletrônica. Fiquemos com uma característica que o sr. Abel, na candura com que vai desfiando seus casos, ilustra à perfeição: a banalidade da corrupção. Ela não o espanta. Não sai dele uma palavra de condenação ao dr. X – referido, muito pelo contrário, como "um homem bom". Uma vez inserido no ambiente, Abel encaixa-se com naturalidade. Já que estamos aqui, por que não? Ele também dá suas bicadas e nem por isso sente-se diferente, menos respeitável como cidadão ou menos "bom" como homem.

Este é um aspecto sem o qual a flor da corrupção não medraria tão vistosa. A filósofa Hannah Arendt qualificou de "banalidade do mal" a maneira mecânica, burocrática, anestesiada, com que, no nazismo, o cuidadoso funcionário Adolf Eichmann organizava a logística da condução dos judeus para os campos de extermínio. O mal, para triunfar, precisa de uma certa banalidade. Precisa de quem não o encare como tal, mas como fato da vida, normal como o ato de respirar. Assim a corrupção. Para virar o que virou, no Brasil, precisa estar protegida por um ambiente em que seja encarada como invencível fatalidade e, já que é assim, uma rotina a cumprir. Deixa estar, o mundo é assim mesmo. Relaxa e goza.