Edição 1 645 -19/4/2000

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Índia

Marajás do software

Centro de excelência em informática, país
exporta mão-de-obra especializada

 
Reuters
Engenheiro numa filial de empresa americana: Vale do Silício na Ásia

A Alemanha anunciou recentemente que vai abrir suas fronteiras para a contratação de 20.000 profissionais estrangeiros. Será o maior fluxo de imigração do país desde a década de 50. Na época, um exército de operários turcos, sem especialização, foi recrutado para preencher vagas criadas por um grande boom de desenvolvimento econômico. Agora, chegou a vez dos indianos. Considerados mão-de-obra barata e qualificada, eles devem ocupar a maior parte das novas colocações, destinadas a incrementar a produção da indústria de informática alemã. A Índia é a grande surpresa do mercado mundial de tecnologia. Mesmo com índices de pobreza tão impressionantes quanto sua população de 1 bilhão de pessoas, o país tornou-se centro de excelência em computação. Suas prestigiadas universidades e escolas técnicas formam por ano 240.000 técnicos nessa área. Parte desses talentos é exportada para países como Alemanha e Estados Unidos. O restante é absorvido pelo mercado interno, em permanente estado de expansão. Existem por lá cerca de 600 empresas, a maioria do setor de produção de programas de computação, que exporta atualmente 4 bilhões de dólares por ano. As previsões são de que esse número deve saltar para a casa dos 50 bilhões até 2008.

 
AFP
Propaganda em Calcutá: contraste entre a miséria e a tecnologia

O sucesso dos marajás do software é provocado por uma feliz conjunção de fatores. Primeiro, existe a herança do colonialismo inglês, que criou no país um sistema educacional de qualidade, cujas raízes se mantiveram firmes mesmo após a declaração de independência da Índia, em 1947. A cidade de Bangalore é um exemplo desse tipo de investimento. Conhecida como o "novo Vale do Silício", ela possui nada menos do que três universidades, catorze faculdades de engenharia, 47 escolas politécnicas e diversos institutos de pesquisas. Além da ótima formação, os profissionais que saem desses centros interessam ao mercado mundial porque dominam o inglês e são baratos. Um programador experiente na Índia recebe salário de 10.000 dólares por ano, equivalente a um quinto dos rendimentos de seus colegas americanos. Não é à toa, portanto, que as empresas americanas recrutam profissionais indianos. Por fim, a abertura de mercado do país às importações, ocorrida em 1991, possibilitou a entrada de componentes eletrônicos numa escala suficiente para permitir a decolagem da produção das empresas locais.

 

A indústria indiana de informática tornou-se respeitada por dominar o desenvolvimento de sistemas complexos de computador. São programas capazes de cuidar do processamento de dados de satélites, resolução de imagens de máquinas de ressonância magnética e monitoramento de redes de comunicação, entre outras funções. Alguns de seus principais clientes são corporações americanas do porte da Xerox, General Electric, Reebok e AT&T. Além disso, as principais empresas dos Estados Unidos montaram seus próprios centros de desenvolvimento de softwares na Índia, casos da IBM e da Microsoft. A estrela do "Vale do Silício" do sul da Ásia é a Infosys, sediada em Bangalore. Ela possui 6.000 funcionários, faturamento anual de 122 milhões de dólares e foi a pioneira na Índia a figurar no índice Nasdaq, que mede a cotação das empresas de alta tecnologia no mundo.

Apesar do sucesso e da evolução do mercado, os marajás do software precisam driblar os problemas estruturais da Índia. Como não podem depender do caótico sistema de telefonia do país, as corporações locais transmitem seus dados por satélites. Elas precisam também ter sistemas de energia alternativos, já que os colapsos de energia na região são freqüentes. A Infosys, por exemplo, mantém 13,5 toneladas de baterias de reserva e estoques de 4.000 galões de óleo diesel para se proteger contra os blecautes. É o preço que se paga para manter um pólo de tecnologia avançada num ambiente de desenvolvimento de Terceiro Mundo.

 
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