Edição 1 645 -19/4/2000

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Zimbábue

De tacape na mão

Com a economia em crise, Mugabe tenta manter
o poder mandando invadir terras dos brancos



Reuters
Fazendeiro foge ao avanço dos sem-terra: país sem dinheiro para a conta de eletricidade

O que um velho caudilho pode fazer se a economia vai pelo ralo e os eleitores lhe viram as costas? A reação mais comum é desviar a atenção dos problemas reais com a estratégia de lançar a turba de desvalidos contra uma minoria malvista. É assim que age o presidente do Zimbábue, Robert Mugabe, há vinte anos no poder. Desde o início do ano, mais de 900 fazendas de propriedade da minoria branca foram invadidas por um exército de sem-terra arregimentado e patrocinado pelo governo. Mugabe, disse uma vez o sul-africano Desmond Tutu, ganhador do Prêmio Nobel da Paz, é "quase a caricatura de todas as coisas que as pessoas pensam de um líder africano negro". O que está ocorrendo na capital, Harare, é igualmente o que as pessoas pensam de um país africano. Armada de tacapes, a turba de invasores compõe um cenário de caos africano que afugenta os investidores estrangeiros. Sem dinheiro novo entrando na economia, Mugabe socorre-se nas impressoras da Casa da Moeda e tenta ganhar prestígio internacional com uma guerra sem sentido no Congo.


Reuters
Robert Mugabe: mandachuva à moda africana

Não há boas notícias no Zimbábue, um país maior que a Alemanha e com 11 milhões de habitantes que outrora foi visto como promissor e moderno. A inflação bate nos 60% ao ano, o desemprego atinge metade da população e 63% dos zimbabuanos vivem abaixo da linha de pobreza. Como não paga a conta da energia elétrica fornecida pela vizinha África do Sul, corre o risco de ficar no escuro. Único poder estável na região, o governo de Pretória torce o nariz ao vizinho encrenqueiro, mas não pode simplesmente desligar a luz, sob o risco de receber um êxodo de refugiados famintos. Pela primeira vez, Mugabe vê-se ameaçado por uma oposição que junta negros e brancos com chances de derrotá-lo. Em fevereiro, ele perdeu um referendo que mudaria a Constituição para dar-lhe mais dez anos de mandato. As previsões são de que perderá também as eleições parlamentares deste ano.

No desespero, Mugabe ressuscitou velhos ódios raciais. Por sua iniciativa, o Congresso aprovou uma lei que permite a tomada de fazendas de proprietários brancos sem o pagamento de indenizações. Quem quiser se queixar que vá cobrar dos colonialistas em Londres, diz Mugabe. A provocação revela um problema e esconde outro. O problema é o da situação fundiária desequilibrada do país, que há vinte anos espera por uma reforma agrária. Os 4.500 fazendeiros brancos são donos de 11 milhões de hectares de terra. Outros 16 milhões de hectares, a maioria solo ruim para a agricultura, estão nas mãos de 1 milhão de negros. O que ele esconde é que quase toda a riqueza produzida no país sai das fazendas dos brancos e é lá que a maioria dos negros consegue trabalho.

Com as invasões, não apenas as fazendas deixaram de produzir. Muitos dos 75.000 brancos que vivem no país estão abandonando suas propriedades e, a contragosto, indo embora para a Inglaterra. Os que decidiram ficar estão cada vez mais integrados à oposição negra. Até mesmo o ex-primeiro-ministro Ian Smith, líder do governo de minoria branca que capitulou diante dos guerrilheiros de Mugabe em 1980, voltou à cena política. Aos 80 anos, ele deverá ser candidato a deputado nas próximas eleições com a ajuda de muitos negros. Uma pesquisa mostra que apenas 30% da população apóia a desapropriação das fazendas produtivas. "Os brancos e os negros deste país nunca estiveram tão unidos", diz Morgan Tsvangirai, líder do partido oposicionista negro Movimento pela Mudança Democrática. "Em 100 anos nunca havíamos conseguido tal grau de harmonia."