Zimbábue
De tacape na mão
Com a economia em crise, Mugabe tenta manter
o poder mandando invadir terras dos brancos
Reuters
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| Fazendeiro foge ao avanço
dos sem-terra: país sem dinheiro para a conta
de eletricidade |
O que um velho caudilho pode fazer se a economia vai pelo
ralo e os eleitores lhe viram as costas? A reação
mais comum é desviar a atenção dos
problemas reais com a estratégia de lançar
a turba de desvalidos contra uma minoria malvista. É
assim que age o presidente do Zimbábue, Robert Mugabe,
há vinte anos no poder. Desde o início do
ano, mais de 900 fazendas de propriedade da minoria branca
foram invadidas por um exército de sem-terra arregimentado
e patrocinado pelo governo. Mugabe, disse uma vez o sul-africano
Desmond Tutu, ganhador do Prêmio Nobel da Paz, é
"quase a caricatura de todas as coisas que as pessoas pensam
de um líder africano negro". O que está ocorrendo
na capital, Harare, é igualmente o que as pessoas
pensam de um país africano. Armada de tacapes, a
turba de invasores compõe um cenário de caos
africano que afugenta os investidores estrangeiros. Sem
dinheiro novo entrando na economia, Mugabe socorre-se nas
impressoras da Casa da Moeda e tenta ganhar prestígio
internacional com uma guerra sem sentido no Congo.
Reuters
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| Robert Mugabe: mandachuva à
moda africana |
Não há boas notícias no Zimbábue,
um país maior que a Alemanha e com 11 milhões
de habitantes que outrora foi visto como promissor e moderno.
A inflação bate nos 60% ao ano, o desemprego
atinge metade da população e 63% dos zimbabuanos
vivem abaixo da linha de pobreza. Como não paga a
conta da energia elétrica fornecida pela vizinha
África do Sul, corre o risco de ficar no escuro.
Único poder estável na região, o governo
de Pretória torce o nariz ao vizinho encrenqueiro,
mas não pode simplesmente desligar a luz, sob o risco
de receber um êxodo de refugiados famintos. Pela primeira
vez, Mugabe vê-se ameaçado por uma oposição
que junta negros e brancos com chances de derrotá-lo.
Em fevereiro, ele perdeu um referendo que mudaria a Constituição
para dar-lhe mais dez anos de mandato. As previsões
são de que perderá também as eleições
parlamentares deste ano.
No desespero, Mugabe ressuscitou velhos ódios raciais.
Por sua iniciativa, o Congresso aprovou uma lei que permite
a tomada de fazendas de proprietários brancos sem
o pagamento de indenizações. Quem quiser se
queixar que vá cobrar dos colonialistas em Londres,
diz Mugabe. A provocação revela um problema
e esconde outro. O problema é o da situação
fundiária desequilibrada do país, que há
vinte anos espera por uma reforma agrária. Os 4.500
fazendeiros brancos são donos de 11 milhões
de hectares de terra. Outros 16 milhões de hectares,
a maioria solo ruim para a agricultura, estão nas
mãos de 1 milhão de negros. O que ele esconde
é que quase toda a riqueza produzida no país
sai das fazendas dos brancos e é lá que a
maioria dos negros consegue trabalho.
Com as invasões, não apenas as fazendas
deixaram de produzir. Muitos dos 75.000
brancos que vivem no país estão abandonando
suas propriedades e, a contragosto, indo embora para a Inglaterra.
Os que decidiram ficar estão cada vez mais integrados
à oposição negra. Até mesmo
o ex-primeiro-ministro Ian Smith, líder do governo
de minoria branca que capitulou diante dos guerrilheiros
de Mugabe em 1980, voltou à cena política.
Aos 80 anos, ele deverá ser candidato a deputado
nas próximas eleições com a ajuda de
muitos negros. Uma pesquisa mostra que apenas 30% da população
apóia a desapropriação das fazendas
produtivas. "Os brancos e os negros deste país nunca
estiveram tão unidos", diz Morgan Tsvangirai, líder
do partido oposicionista negro Movimento pela Mudança
Democrática. "Em 100 anos nunca havíamos conseguido
tal grau de harmonia."