Edição 1 645 -19/4/2000

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O Cholo desafia o Chino

Populista e com cara de índio, Toledo
leva Fujimori ao segundo turno

 

AP
Toledo, a mulher, Eliane, e a filha, Chantal: família sob medida

"Cholo, sim, Chino, não", diz o refrão que dá tom à campanha de Alejandro Toledo à Presidência do Peru. Cholo, expressão depreciativa que designa a maioria da população indígena e mestiça do país, é Toledo, descendente de índios dos Andes e candidato pelo Movimento Peru Possível, de oposição. Chino (apelido que os peruanos dão a qualquer pessoa com traços orientais) é o nissei Alberto Fujimori, candidato a um terceiro mandato como presidente. Não foi desta vez que se trocou o Chino pelo Cholo, mas pela primeira vez em dez anos Fujimori não é uma unanimidade no Peru. Na semana passada os dois ganharam o direito de passar ao segundo turno das eleições com votações surpreendentes. Contados os votos, Fujimori ficou com 49,84% dos sufrágios – faltando reles 0,16% para a maioria que lhe garantiria a Presidência no primeiro turno –, contra 40,31% do adversário. A quantidade de votos dados à oposição impressiona por duas razões. Primeiro, porque até seis meses atrás pouca gente já ouvira falar em Toledo. Segundo, porque colocou contra a parede um presidente até então considerado imbatível.

AFP
Alberto Fujimori: dez anos de governo autoritário e bons números econômicos


A eleição peruana tem surpresas sobre surpresas. Nas eleições anteriores, Fujimori arrasou dois monumentos da cultura e da política peruana. Em 1990, triturou ainda no primeiro turno o candidato Mario Vargas Llosa, o maior escritor peruano do século XX e o único intelectual do país com prestígio internacional. Cinco anos depois, foi a vez de passar por cima de outra glória nacional, Javier Pérez de Cuéllar, que pouco antes deixara o prestigiado cargo de secretário-geral das Nações Unidas. Talvez o que prejudicou Vargas Llosa, que se mudou para a Espanha e se naturalizou logo em seguida à derrota, e Pérez de Cuéllar tenha sido a identificação deles como representantes da minoria branca, rica e intelectualizada, num país de índios, analfabetos e miseráveis. Em contraste, Fujimori apresentou-se como alguém acima das diferenças étnicas e de classe. Um chino, capaz de atrair capitais de seus parentes nipônicos e governar sem a velha oligarquia de origem espanhola. Toledo é um adversário a sua altura, a sua imagem e a sua semelhança.

Como o Chino de 1990, o Cholo é um político sem passado e sem partido, de origem humilde e estilo populista, que fala direto ao coração da multidão de cholos. Apesar do apoio das rádios e da televisão, do uso e abuso da máquina estatal, ficou difícil para Fujimori contrapor-se a um adversário que era seu espelho. Um trunfo do oposicionista é a família estável. Sobretudo a esposa, Eliane Karp, uma antropóloga elegante. Em contraste, Susana Higushi, comportando-se como uma Nicéa Pitta dos Andes, bombardeia o ex-marido Fujimori com saraivada de acusações de corrupção e desvio de bens públicos.

Para os cholos como ele, Toledo é o exemplo de ascensão social, por meio da educação e do esforço pessoal, que é o sonho de cada um. "Toledo tem uma história parecida com a de centenas de milhares de peruanos. Mas com um final feliz", diz Raúl Vargas, diretor da Radioprogramas, líder de audiência no Peru. Um dos dezesseis filhos do casal formado por um pedreiro e uma vendedora de peixes na feira, Alejandro Toledo cresceu engraxando sapatos na pequena cidade de Chimbote até ser adotado por uma comunidade de mórmons e ser levado, aos 16 anos, para morar e estudar nos Estados Unidos. Terminado o 2º grau, conseguiu uma bolsa na Universidade de San Francisco, onde se formou em economia. Com o diploma debaixo do braço, matriculou-se para fazer doutorado em Stanford.

Lá conheceu a esposa, Eliane Karp. A moça de cabelos ruivos, filha de judeus belgas e naturalizada americana, era onze anos mais jovem, mas se casaram e foram morar no Peru. Eles têm uma filha, Chantal, com 17 anos. O casal feliz tornou-se perfeito para a campanha presidencial. Os dois se completam. Toledo é o índio bem-sucedido, fala em inglês com os jornalistas estrangeiros e representa a possibilidade de ascensão social numa sociedade injusta. Eliane é a européia que fez a opção pelos pobres, usa roupas simples, vai à favela e fala quíchua, a língua indígena. "Sou mais peruana do que muitas peruanas", diz. Se vencer, Toledo prometeu dar a ela o Ministério da Agricultura, um posto-chave no governo de um país eminentemente agrícola.

Toledo havia sido candidato nas eleições anteriores, com o lema "Um candidato com a cor da terra", mas não se fez notar. Desta vez acertou na mosca apresentando-se como o índio que deu certo. Do ponto de vista político, representa o homem de centro, disposto a persistir nas obras bem-sucedidas de Fujimori: estabilidade da moeda, abertura de mercado e mão dura com a guerrilha que já barbarizou o país. A única proposta diferente é mais democracia, coisa que não se pode esperar de Fujimori. A classe média beneficiou-se da política econômica de Fujimori, mas está farta de seu mandonismo. Não é fácil engolir um presidente que muda a Constituição e dá nó no Judiciário para poder reeleger-se pela terceira vez, coisa que a lei proíbe. São coisas que levaram o Cholo ao segundo turno contra o Chino.