O Cholo desafia o Chino
Populista e com cara de índio, Toledo
leva Fujimori ao segundo turno
AP
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| Toledo, a mulher, Eliane, e a
filha, Chantal: família sob medida |
"Cholo, sim, Chino, não", diz o refrão que
dá tom à campanha de Alejandro Toledo à
Presidência do Peru. Cholo, expressão depreciativa
que designa a maioria da população indígena
e mestiça do país, é Toledo, descendente
de índios dos Andes e candidato pelo Movimento Peru
Possível, de oposição. Chino (apelido
que os peruanos dão a qualquer pessoa com traços
orientais) é o nissei Alberto Fujimori, candidato
a um terceiro mandato como presidente. Não foi desta
vez que se trocou o Chino pelo Cholo, mas pela primeira
vez em dez anos Fujimori não é uma unanimidade
no Peru. Na semana passada os dois ganharam o direito de
passar ao segundo turno das eleições com votações
surpreendentes. Contados os votos, Fujimori ficou com 49,84%
dos sufrágios – faltando reles 0,16% para a maioria
que lhe garantiria a Presidência no primeiro turno
–, contra 40,31% do adversário. A quantidade de
votos dados à oposição impressiona
por duas razões. Primeiro, porque até seis
meses atrás pouca gente já ouvira falar em
Toledo. Segundo, porque colocou contra a parede um presidente
até então considerado imbatível.
AFP
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| Alberto Fujimori: dez anos de governo
autoritário e bons números econômicos
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A eleição peruana tem surpresas sobre surpresas.
Nas eleições anteriores, Fujimori arrasou
dois monumentos da cultura e da política peruana.
Em 1990, triturou ainda no primeiro turno o candidato Mario
Vargas Llosa, o maior escritor peruano do século
XX e o único intelectual do país com prestígio
internacional. Cinco anos depois, foi a vez de passar por
cima de outra glória nacional, Javier Pérez
de Cuéllar, que pouco antes deixara o prestigiado
cargo de secretário-geral das Nações
Unidas. Talvez o que prejudicou Vargas Llosa, que se mudou
para a Espanha e se naturalizou logo em seguida à
derrota, e Pérez de Cuéllar tenha sido a identificação
deles como representantes da minoria branca, rica e intelectualizada,
num país de índios, analfabetos e miseráveis.
Em contraste, Fujimori apresentou-se como alguém
acima das diferenças étnicas e de classe.
Um chino, capaz de atrair capitais de seus parentes nipônicos
e governar sem a velha oligarquia de origem espanhola. Toledo
é um adversário a sua altura, a sua imagem
e a sua semelhança.
Como o Chino de 1990, o Cholo é um político
sem passado e sem partido, de origem humilde e estilo populista,
que fala direto ao coração da multidão
de cholos. Apesar do apoio das rádios e da televisão,
do uso e abuso da máquina estatal, ficou difícil
para Fujimori contrapor-se a um adversário que era
seu espelho. Um trunfo do oposicionista é a família
estável. Sobretudo a esposa, Eliane Karp, uma antropóloga
elegante. Em contraste, Susana Higushi, comportando-se como
uma Nicéa Pitta dos Andes, bombardeia o ex-marido
Fujimori com saraivada de acusações de corrupção
e desvio de bens públicos.
Para os cholos como ele, Toledo é o exemplo de
ascensão social, por meio da educação
e do esforço pessoal, que é o sonho de cada
um. "Toledo tem uma história parecida com a de centenas
de milhares de peruanos. Mas com um final feliz", diz Raúl
Vargas, diretor da Radioprogramas, líder de audiência
no Peru. Um dos dezesseis filhos do casal formado por um
pedreiro e uma vendedora de peixes na feira, Alejandro Toledo
cresceu engraxando sapatos na pequena cidade de Chimbote
até ser adotado por uma comunidade de mórmons
e ser levado, aos 16 anos, para morar e estudar nos Estados
Unidos. Terminado o 2º grau, conseguiu uma bolsa na
Universidade de San Francisco, onde se formou em economia.
Com o diploma debaixo do braço, matriculou-se para
fazer doutorado em Stanford.
Lá conheceu a esposa, Eliane Karp. A moça
de cabelos ruivos, filha de judeus belgas e naturalizada
americana, era onze anos mais jovem, mas se casaram e foram
morar no Peru. Eles têm uma filha, Chantal, com 17
anos. O casal feliz tornou-se perfeito para a campanha presidencial.
Os dois se completam. Toledo é o índio bem-sucedido,
fala em inglês com os jornalistas estrangeiros e representa
a possibilidade de ascensão social numa sociedade
injusta. Eliane é a européia que fez a opção
pelos pobres, usa roupas simples, vai à favela e
fala quíchua, a língua indígena. "Sou
mais peruana do que muitas peruanas", diz. Se vencer, Toledo
prometeu dar a ela o Ministério da Agricultura, um
posto-chave no governo de um país eminentemente agrícola.
Toledo havia sido candidato nas eleições
anteriores, com o lema "Um candidato com a cor da terra",
mas não se fez notar. Desta vez acertou na mosca
apresentando-se como o índio que deu certo. Do ponto
de vista político, representa o homem de centro,
disposto a persistir nas obras bem-sucedidas de Fujimori:
estabilidade da moeda, abertura de mercado e mão
dura com a guerrilha que já barbarizou o país.
A única proposta diferente é mais democracia,
coisa que não se pode esperar de Fujimori. A classe
média beneficiou-se da política econômica
de Fujimori, mas está farta de seu mandonismo. Não
é fácil engolir um presidente que muda a Constituição
e dá nó no Judiciário para poder reeleger-se
pela terceira vez, coisa que a lei proíbe. São
coisas que levaram o Cholo ao segundo turno contra o Chino.