Edição 1 645 -19/4/2000

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Rio de Janeiro

"Diga ao povo que fico"

PT abandona Garotinho, mas Benedita fica,
batizada por Brizola de "rainha de Sabá"

Ronaldo França

As denúncias de corrupção que acertaram auxiliares do governador Anthony Garotinho, do Rio de Janeiro, provocaram várias demissões e uma crise nos alicerces do governo. Na semana passada, o PT decidiu abandonar a aliança com o PDT de Garotinho e entregou os cargos que dominava em sua administração. Só quem ainda não apagou a luz de seu gabinete foi a vice-governadora Benedita da Silva. O apego que há tempos vem demonstrando ao posto irritou o presidente do PDT, Leonel Brizola, que partiu para a crítica grosseira ao saber da influência de Benedita na máquina estatal. "Mais parece a rainha de Sabá", disparou, numa referência à rainha negra que teria vivido antes de Cristo, cercada de luxo e favores do rei Salomão. A vice-governadora tinha mesmo um espaço generoso. Eram de sua cota 45 dos cerca dos 300 cargos do PT no Rio. Ela não se abalou. "Diga ao povo que fico", afirmou, repetindo a famosa frase de dom Pedro I.

Benedita da Silva, a Bené, estreou na vida política apresentando-se como minoria em três categorias distintas: "mulher, negra e favelada". Imbatível. Está em seu quinto mandato, um deles como senadora. Já esteve sob suspeita de atos pouco recomendáveis. Foi acusada de acobertar a falsificação de diplomas de seu filho e de esbanjar 53.000 reais na reforma de um apartamento funcional em Brasília. Mudou-se para uma casa confortável, mas manteve a antiga na favela, transformada em centro cultural. No ecossistema da política fluminense, a vice-governadora compõe com Brizola e Garotinho um trio raro. O gaúcho Leonel Brizola, um dos líderes da resistência ao golpe de 1964, carrega uma extensa biografia. Mas é por seus arroubos e pelo histrionismo de suas aparições que se destaca. Garotinho, vindo do interior, tem fascínio por uma espécie de administração via satélite, na qual se incluem demissões pelos meios de comunicação. Desde o início, petistas e pedetistas esmurraram-se por espaço. O confronto gerou uma das muitas frases de efeito sobre as quais navegou a crise política fluminense. "O PT é o partido da boquinha", acusou Garotinho, no ano passado.

A crise atual, que é muito maior que a briga com os petistas, envolvendo suspeitas sobre vários amigos de Garotinho que integravam o governo, foi deflagrada quando o ex-coordenador de segurança Luiz Eduardo Soares denunciou um suposto acordo do governo com a "banda podre" da polícia. Com isso, abriu o caminho para a torrente de denúncias que desabou contra a "Turma do Chuvisco", o círculo de colaboradores próximo do governador.

Foram deputados petistas – em litígio com os colegas de dentro do governo – que propuseram uma CPI na Assembléia estadual. Exigiram a apuração das suspeitas de favorecimento ilícito, esquemas de propinas e tráfico de influência. Uma delas atinge justamente os domínios de Benedita. Estaria sob seu comando o esquema de distribuição de cheques de alimentação à população carente. O programa governamental foi transformado em trampolim de votos ao ser entregue, quase que exclusivamente, às igrejas evangélicas fluminenses, das quais Garotinho e Benedita são os representantes políticos de maior cacife. Outro esquema sob suspeita é o Nuseg, Núcleo Superior de Estudos Governamentais, ligado à Universidade do Rio de Janeiro, transformado num verdadeiro cabide de empregos. Já foram contratadas pelo órgão mais de 6.000 pessoas, das quais cerca de 1.000 estão lotadas como fiscais na Secretaria de Fazenda.

Isolado, Garotinho foi obrigado a reatar o antigo e indesejado relacionamento com Brizola. Afastou os colaboradores sobre quem pesavam as acusações mais graves e passou a fazer juras de amor ao PDT. No turbilhão, Benedita perdeu o apoio político do governador como candidata à prefeitura. E Brizola já assume a intenção de concorrer ao posto. Seus antigos companheiros começam a voltar à cena, despertando ira no PT. "O governo Brizola fez aliança com a banda podre da política do Rio e transformou isto aqui numa máquina centralizadora infernal", atacou o ex-secretário de planejamento Jorge Bittar. Benedita de Sabá manteve a postura olímpica. Ao justificar sua permanência no governo, não hesitou em agregar ao figurino político uma peça impensável para a realeza, mas muito apropriada para a ocasião: "Adoro saia-justa".

 
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