Rio de Janeiro
"Diga ao povo que fico"
PT abandona Garotinho, mas Benedita fica,
batizada por Brizola de "rainha de Sabá"
Ronaldo França
As denúncias de corrupção que acertaram auxiliares do governador
Anthony Garotinho, do Rio de Janeiro, provocaram várias
demissões e uma crise nos alicerces do governo. Na semana
passada, o PT decidiu abandonar a aliança com o PDT de Garotinho
e entregou os cargos que dominava em sua administração.
Só quem ainda não apagou a luz de seu gabinete foi a vice-governadora
Benedita da Silva. O apego que há tempos vem demonstrando
ao posto irritou o presidente do PDT, Leonel Brizola, que
partiu para a crítica grosseira ao saber da influência de
Benedita na máquina estatal. "Mais parece a rainha
de Sabá", disparou, numa referência à rainha negra
que teria vivido antes de Cristo, cercada de luxo e favores
do rei Salomão. A vice-governadora tinha mesmo um espaço
generoso. Eram de sua cota 45 dos cerca dos 300 cargos do
PT no Rio. Ela não se abalou. "Diga ao povo que fico",
afirmou, repetindo a famosa frase de dom Pedro I.
Benedita da Silva, a Bené, estreou na vida política apresentando-se
como minoria em três categorias distintas: "mulher,
negra e favelada". Imbatível. Está em seu quinto mandato,
um deles como senadora. Já esteve sob suspeita de atos pouco
recomendáveis. Foi acusada de acobertar a falsificação de
diplomas de seu filho e de esbanjar 53.000
reais na reforma de um apartamento funcional em Brasília.
Mudou-se para uma casa confortável, mas manteve a antiga
na favela, transformada em centro cultural. No ecossistema
da política fluminense, a vice-governadora compõe com Brizola
e Garotinho um trio raro. O gaúcho Leonel Brizola, um dos
líderes da resistência ao golpe de 1964, carrega uma extensa
biografia. Mas é por seus arroubos e pelo histrionismo de
suas aparições que se destaca. Garotinho, vindo do interior,
tem fascínio por uma espécie de administração via satélite,
na qual se incluem demissões pelos meios de comunicação.
Desde o início, petistas e pedetistas esmurraram-se por
espaço. O confronto gerou uma das muitas frases de efeito
sobre as quais navegou a crise política fluminense. "O
PT é o partido da boquinha", acusou Garotinho, no ano
passado.
A crise atual, que é muito maior que a briga com os petistas,
envolvendo suspeitas sobre vários amigos de Garotinho que
integravam o governo, foi deflagrada quando o ex-coordenador
de segurança Luiz Eduardo Soares denunciou um suposto acordo
do governo com a "banda podre" da polícia. Com
isso, abriu o caminho para a torrente de denúncias que desabou
contra a "Turma do Chuvisco", o círculo de colaboradores
próximo do governador.
Foram deputados petistas em litígio com os colegas de
dentro do governo que propuseram uma CPI na Assembléia
estadual. Exigiram a apuração das suspeitas de favorecimento
ilícito, esquemas de propinas e tráfico de influência. Uma
delas atinge justamente os domínios de Benedita. Estaria
sob seu comando o esquema de distribuição de cheques de
alimentação à população carente. O programa governamental
foi transformado em trampolim de votos ao ser entregue,
quase que exclusivamente, às igrejas evangélicas fluminenses,
das quais Garotinho e Benedita são os representantes políticos
de maior cacife. Outro esquema sob suspeita é o Nuseg, Núcleo
Superior de Estudos Governamentais, ligado à Universidade
do Rio de Janeiro, transformado num verdadeiro cabide de
empregos. Já foram contratadas pelo órgão mais de 6.000
pessoas, das quais cerca de 1.000
estão lotadas como fiscais na Secretaria de Fazenda.
Isolado, Garotinho foi obrigado a reatar o antigo e indesejado
relacionamento com Brizola. Afastou os colaboradores sobre
quem pesavam as acusações mais graves e passou a fazer juras
de amor ao PDT. No turbilhão, Benedita perdeu o apoio político
do governador como candidata à prefeitura. E Brizola já
assume a intenção de concorrer ao posto. Seus antigos companheiros
começam a voltar à cena, despertando ira no PT. "O
governo Brizola fez aliança com a banda podre da política
do Rio e transformou isto aqui numa máquina centralizadora
infernal", atacou o ex-secretário de planejamento Jorge
Bittar. Benedita de Sabá manteve a postura olímpica. Ao
justificar sua permanência no governo, não hesitou em agregar
ao figurino político uma peça impensável para a realeza,
mas muito apropriada para a ocasião: "Adoro saia-justa".
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