Edição 1 645 -19/4/2000

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Cony, o simplista


Carlos Heitor Cony é o maior intelectual brasileiro da atualidade. Não me ocorre ninguém que possa ser comparado a ele. Sua influência se estende por todas as áreas. É um dos principais articulistas políticos do país, sendo apreciado tanto por seus velhos leitores de direita quanto pelos novos de esquerda. Cony também ocupa uma posição de grande prestígio num dos campos mais disputados das letras nacionais: o das crônicas. Quanto à literatura, tornou-se, nos últimos anos, um extraordinário sucesso de público e de crítica. Consegue emplacar inclusive aqueles livros que pareciam definitivamente esquecidos e que foram exumados de seu passado. Nunca li uma resenha negativa a seu respeito. Até entrou para a Academia Brasileira de Letras. Uma verdadeira unanimidade.

Foi por isso que resolvi pegar no pé do Cony: porque ele é o que temos de melhor. E, se ele representa o que temos de melhor, nem ouso imaginar o que temos de pior. Para ser mais exato, refiro-me a uma carta que Cony mandou a Ariano Suassuna e que este último transcreveu em sua coluna de jornal. Na carta, Cony elogiava um artigo de Suassuna, que deblaterara contra o "Deus capitalista do presidente Clinton, o Deus odiento e insensível dos teólogos brancos, anglo-saxões e protestantes". Depois de elogiar Suassuna, Cony recordava que mais de um terço da população mundial vivia na miséria absoluta, acordando sem saber o que iria comer naquele dia. Temeroso de que tais palavras pudessem soar como retórica rasteira, Cony também se sentiu na obrigação de apresentar uma solução pragmática para o problema: "Bastariam 10% da renda líquida dos países desenvolvidos para diminuir ou mesmo acabar com essa chaga social".

Não entendi direito como funcionaria o projeto. Essa taxa de 10% (felizmente os odientos protestantes estão acostumados ao dízimo) seria distribuída todos os anos ou uma única vez? De que maneira seria arrecadada? Através de impostos? Os desempregados suecos financiariam os milionários bolivianos? Outra coisa: o Brasil é pobre o bastante para receber parte dessa bolada ou teríamos de entregar 10% do nosso dinheirinho a um país ainda mais miserável, como Angola, por exemplo? A propósito, o ex-presidente português Mário Soares acaba de denunciar que a corrupção rola solta no governo angolano. O que os países desenvolvidos fariam se descobrissem que, em vez de aliviar a miséria, os seus 10% estão sendo desviados por um bando de ladrões? Deporiam esses governos? Com a força?

No mesmo dia em que a carta de Cony foi publicada, ele escreveu outro artigo em que se definia um pessimista, pois olhava em torno e não via saída para a miséria de mais da metade (não era um terço?) da humanidade. Pode parecer contraditório que, num lugar, ele aponte uma saída e, logo abaixo, a negue. Mas não tem nada de contraditório. São expressões de um idêntico impulso simplificatório. É um problema e tanto: os intelectuais brasileiros simplificam, quando deveriam complicar. É complicando que os intelectuais ajudam a criar resistências na sociedade contra outros tipos de simplificação, como a demagogia política, o fundamentalismo religioso, o racismo, a censura. Quando não complica, um intelectual não serve para nada.