Edição 1 645 -19/4/2000

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Chega de receitas

O maior brasilianista diz que o país precisa
vencer o conformismo e encarar o desafio
de criar seu próprio modelo

César Nogueira

 
Paulo Jares
  "O Brasil não tem cabeças tentando formular políticas alternativas. O que há é um vácuo intelectual"

O historiador americano Thomas Skidmore, 69 anos, é o decano dos "brasilianistas", como são apelidados os estrangeiros dedicados ao estudo do Brasil. Nos Estados Unidos, onde dirige o Centro de Estudos Latino-Americanos da Brown University, na cidade de Providence, Rhode Island, ele é uma autoridade respeitada sobre o país que estuda há 39 anos. O processo de preparação dos embaixadores americanos designados para o Brasil inclui longas conversas com Skidmore. Curiosamente, sua opção pelos estudos brasileiros foi obra do acaso. Ele dava aulas em Harvard nos anos 60 quando o comunismo se instalou em Cuba, a poucos quilômetros da costa dos Estados Unidos. Fidel Castro levou o governo americano a estimular as universidades a formar especialistas em América Latina. Skidmore, que não falava português nem espanhol, correu a se inscrever num curso de verão, visando ganhar uma bolsa de estudos. O curso de língua espanhola começava às 8 da manhã. O de português, às 11. Como não queria acordar cedo nas férias, resolveu aprender português. "Foi uma decisão de malandro", diz. Deu certo. O historiador, que ficou famoso com o livro Brasil – De Getúlio a Castelo, produziu ao todo cinco títulos*, que já venderam 70 000 exemplares no Brasil e 10 000 nos Estados Unidos. Na semana passada, Skidmore falou a VEJA.

Veja – O senhor analisa a história brasileira desde o tempo do presidente Getúlio Vargas. Qual a principal mudança desses últimos anos?
Skidmore – O país está imerso agora num clima generalizado de conformismo. Nem sempre foi assim. Nas décadas de 50 e 60 havia uma grande agitação na cultura brasileira. Era a época da bossa nova, da criação de Brasília e existia um movimento ideológico vigoroso. O orgulho do Brasil estava em alta e o presidente Juscelino Kubitschek se empenhava em reforçar essa autoconfiança. A construção de Brasília era uma forma de mostrar ao mundo que o Brasil era capaz de fazer alguma coisa séria. O problema agora é que não existe mais essa confiança.

Veja – O Brasil está se deixando colonizar?
Skidmore –
Não exatamente. O que há é um vácuo intelectual. O presidente Fernando Henrique, autor de um livro clássico sobre a teoria da dependência econômica, foi a público para dizer com todas as letras: "Não há alternativa para a nossa política econômica". Existe esse sentimento geral no Brasil, e também em outros países em desenvolvimento, de que só há uma política certa. É a política que vem de Washington. Não se procura uma solução brasileira, ou mexicana, ou chilena.

Veja – Os brasileiros têm estudado pouco o Brasil?
Skidmore – O Brasil mudou muito desde minha primeira viagem, em 1961. Quando cheguei e perguntei sobre os economistas do Brasil, todo mundo dizia: Ah, é o Delfim Netto! Quase não havia gente com formação de economista. Agora você tem muitos, muito bem treinados. A capacidade relativa do Brasil aumentou tremendamente.

Veja – Então, por que o vácuo?
Skidmore – O problema é que o Brasil não tem intelectuais, ou tem poucos, que estejam tentando formular políticas alternativas. Cada país precisa de uma receita própria. Desde a década de 70 o Brasil está seguindo uma política anêmica em termos de crescimento, que não dá conta nem de absorver os trabalhadores novos. A enorme desigualdade existente no Brasil só vai desaparecer com crescimento. Os brasileiros têm de encontrar uma fórmula de crescer.

Veja – Com isso virão as idéias originais?
Skidmore – O Brasil age como se não houvesse mais possibilidade de descobrir novos caminhos. Vamos observar alguns exemplos. O país produziu o método Paulo Freire de alfabetização, que foi testado e se tornou famoso no mundo. Ele foi deixado de lado e em vez de usar a cultura popular para melhorar o ensino, como propunha Paulo Freire, recorre-se às fórmulas estrangeiras, que nem sempre ajudam. Há outros exemplos. O Brasil está paralisado diante da questão social e está se tornando uma nação de castelos armados. No Rio de Janeiro, os edifícios na Zona Sul são cercados de grades e guardas particulares. É uma mistura de apartheid social e medo. O país precisa pensar em fortalecer o espírito de comunidade e não em levantar arranha-céus protegidos por cães e guardas. Não se buscam alternativas para a vida que os brasileiros estão vivendo no momento. A frase do presidente, de que não há alternativas, deveria ser tomada como um desafio pela intelectualidade brasileira. Eles deveriam pensar em projetos que tornassem possível melhorar a justiça social.

Veja – Muitos gostam de comparar o presidente Fernando Henrique a Juscelino Kubitschek. Existem semelhanças?
Skidmore – Kubitschek era político nato. Gostava de falar com as pessoas, distribuir coisas, beijar criancinhas na multidão – aquela coisa do político que fica suado de tanto abraçar as pessoas. O Kubitschek gostava dessa ligação emocional com a população. Estava nas veias dele. O Fernando Henrique é diferente. É um homem muito racional, pensa com seriedade, mas não gosta desse negócio de ficar no meio do povo. O que ele gosta é de viajar, visitar os países desenvolvidos, o que é importante para o Brasil. Mas significa também que ele não tem a capacidade de mobilizar, de fazer apelos ao público como JK fazia. A liderança de Fernando Henrique é intelectual. É um defeito de seu tipo de personalidade. Ele não tem a capacidade de dizer para o Brasil: "Vamos correr o risco".

Veja – Por que a distribuição de renda continua sempre tão desigual no Brasil apesar de todas as mudanças que o país viveu nos últimos quarenta anos?
Skidmore – Não sou economista, mas acho que um dos problemas é que o sistema político no Brasil é uma máquina de distribuir dinheiro para cima, para as classes média e alta. O sistema dá muitos subsídios. Um exemplo é o das universidades, que é um subsídio do pagador de impostos para os ricos. Outro é o emprego público. Durante o governo Sarney houve uma onda de empreguismo nos governos estaduais. Isso é também um subsídio para os amigos dos políticos, pago com os impostos de toda a população e dos pobres.

Veja – Por que as coisas não mudam?
Skidmore – A elite brasileira tem uma familiaridade muito grande com os pobres. Há uma certa intimidade, como se vê na relação com os empregados domésticos. A elite acha que esses pobres estão sempre ao lado dela e que a pobreza é uma fatalidade. Não vislumbra uma democracia econômica nem sonha em criar uma economia próspera, em que todo mundo tenha um emprego bom. Nesse ponto, o Brasil é bem diferente dos Estados Unidos e da Alemanha. Não existe um ideal de igualdade no Brasil. Os pobres também não acreditam que tenham o direito de ficar melhor na vida. Encaram o destino com uma certa fatalidade, "o senhor é que sabe", "a senhora é que manda", "se Deus quiser". Esse é um traço muito importante do sistema social brasileiro.

Veja – Por que nos Estados Unidos a coisa é diferente?
Skidmore – A elite americana tem mais sentimento de culpa. É um traço do protestantismo. O rico brasileiro não tem sentimento de culpa. O americano rico fica envergonhado por ter muito dinheiro. Na Califórnia, os empresários que ficaram milionários com a internet aos 35 anos andam desesperados atrás de idéias para criar fundações. Isso acontece porque podem deduzir, do imposto de renda, os gastos feitos com programas sociais. Mas não é só isso. Há também o sentimento de que é necessário espalhar o dinheiro. O protestante, como dizia Calvino, nunca sabe se será salvo ou não. O católico, cuja moral está mais presente na cultura brasileira, sabe que será salvo a cada domingo. Ele vai até o padre, consegue uma solução para os pecados e volta feliz para casa. Livre para pecar mais uma semana.

Veja – Olhando a galeria de presidentes do Brasil, quais deles poderiam ser chamados de estadistas?
Skidmore – Falar em estadistas é complicado. É melhor pensarmos nos de maior influência. O primeiro é o Vargas, sem dúvida. Ele tinha uma visão do Brasil: unificar o país e depois industrializar. Era o arquiteto do Brasil. Depois dele, vem o Juscelino Kubitschek. Não só por causa do progresso econômico que promoveu, mas também pela ação que teve sobre a psicologia do povo, estimulando o otimismo no país. A seguir, o Geisel, porque conseguiu quebrar o poder dos militares da linha dura, e isso era necessário para a abertura política do Brasil. Outro é o Fernando Henrique, porque conseguiu a estabilização, o que parecia impossível. Infelizmente, acho que ele não vai conseguir dar o passo seguinte, que é avançar na justiça social.

Veja – Nos anos 60, uma das idéias que se alimentavam no país era transformar o Brasil em grande potência. Que papel está reservado para ele na globalização?
Skidmore – Tudo depende da capacidade do Brasil de acelerar o desenvolvimento. Mas o momento atual não é de exaltação. Nos anos 50 e 60 havia um movimento ideológico muito forte, que foi apagado pelo governo militar. Ele ressurgiu na década de 80, com o movimento das diretas, que trouxe um otimismo muito grande. Havia a esperança de que o sentimento de participação pudesse consolidar-se. Isso não aconteceu, e a política voltou a ficar parecida com a que era praticada na República Velha. A política da manipulação dos caudilhos. Isso disseminou o pessimismo pela população e hoje, como resultado, o cidadão não tem confiança nos partidos nem nos políticos.

Veja – Como o senhor acha que vai estar o Brasil em dez ou vinte anos?
Skidmore – Uma boa notícia é que a taxa de crescimento da população no Brasil caiu muito. Na década de 70 era quase 3% e agora caiu para 1,4%. Isso diminui um pouco a pressão para a necessidade de gerar empregos. O Brasil pode continuar alguns anos com essa estratégia de privilegiar a estabilização, mas não pode fazer isso por muito tempo. O próximo presidente vai ter de correr o risco de acelerar o crescimento. Se o Brasil conseguir um crescimento maior, pode emergir como um poder regional bastante forte.

Veja – O Brasil entrará para o grupo dos desenvolvidos nesse período de tempo?
Skidmore –
Não, acho que vai ficar na margem, ainda.

Veja – A sensação de que a pobreza é inescapável não pode trazer de volta o nacionalismo?
Skidmore – O nacionalismo morreu vítima da década de 70. O Brasil foi à bancarrota, não tinha capacidade de pagar a dívida externa. O mesmo aconteceu em toda a América Latina. Se você não tem dinheiro para pagar o banqueiro, não está em condições de dizer que sua nação é a melhor do mundo. Um colapso da economia mundial pode reacender o nacionalismo. Foi um processo desse tipo que impulsionou o populismo de raízes nacionalistas no passado.

Veja – E os países desenvolvidos? Neles o nacionalismo parece estar renascendo com força. Muitas vezes até com um viés reacionário, como na Áustria. Isso está ocorrendo também nos Estados Unidos?
Skidmore – O nacionalismo nos Estados Unidos é perigoso, porque algumas vezes se traduz em protecionismo econômico, o que é muito ruim para o comércio exterior. Outras vezes se torna uma coisa irracional, como se viu nos debates sobre a intervenção em Kosovo. Muita gente nos Estados Unidos tem falado sobre a necessidade de aumentar o orçamento de defesa. É uma coisa louca! Os falcões voando de novo. Para que precisamos de um novo tipo de submarino? É absurdo.

Veja – Qual é a justificativa deles?
Skidmore – Os que são favoráveis a reforçar o sistema de defesa dizem que os Estados Unidos precisam proteger-se porque temos inimigos. Como a Coréia do Norte, por exemplo. Imagine, como pode a Coréia do Norte, que está morrendo de fome, ameaçar os Estados Unidos? O fato é que essa idéia, de que os americanos não podem ser fracos, está sempre presente.

Veja – Qual será seu próximo trabalho sobre o Brasil?
Skidmore – Estou pesquisando a questão racial. A situação no Brasil está mudando bastante. O país está considerando a adoção da política de criar cotas de vagas para os negros nas universidades e nas empresas. É um modelo que já foi adotado pelos americanos e que os Estados Unidos estão começando a abandonar. Há um entendimento hoje de que dar privilégios às minorias, como forma de compensar a discriminação passada, fere a idéia de igualdade de oportunidades. A maioria da comunidade negra está contra a revogação, mas há um grupo que acha a política de cotas uma espécie de discriminação, com efeitos psicológicos negativos.

Veja – Por que a questão racial chamou sua atenção neste momento?
Skidmore – Porque ela começou a ser discutida abertamente. As denúncias de discriminação têm cobertura na imprensa. O presidente Fernando Henrique, em seus discursos, tem enfatizado a necessidade de reconhecer os direitos das minorias. Ele é o primeiro presidente a mencionar abertamente a existência da discriminação racial no país.

Veja – Na campanha, ele disse que tinha um pé na cozinha...
Skidmore – Isso é outra coisa. É a maneira brasileira de fugir do assunto. Diz-se "não sou negro, minha avó é que é mulata". Ainda assim, o discurso no Brasil é muito mais aberto agora do que era na década de 60.

Veja – A bibliografia de seus livros cita uma quantidade enorme de estrangeiros falando sobre o Brasil contemporâneo. Muita gente nos Estados Unidos se dedica hoje a estudar a América Latina?
Skidmore – Existem milhares de estudiosos. Hoje temos uma associação, a Latin American Studies Association. No último encontro, em Miami, havia 4 000 especialistas e 2 500 eram americanos.

 

* Brasil – De Getúlio a Castelo, Preto no Branco, Brasil – De Castelo a Tancredo, O Brasil Visto de Fora e Uma História do Brasil.

 
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