Chega de receitas
O maior
brasilianista diz
que o país precisa
vencer o conformismo e encarar o desafio
de criar seu próprio modelo
César
Nogueira
Paulo Jares
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"O
Brasil não tem
cabeças tentando formular
políticas alternativas.
O que há é
um vácuo
intelectual" |
O historiador americano
Thomas Skidmore, 69 anos, é o decano dos "brasilianistas",
como são apelidados os estrangeiros dedicados ao estudo
do Brasil. Nos Estados Unidos, onde dirige o Centro de Estudos
Latino-Americanos da Brown University, na cidade de Providence,
Rhode Island, ele é uma autoridade respeitada sobre
o país que estuda há 39 anos. O processo de
preparação dos embaixadores americanos designados
para o Brasil inclui longas conversas com Skidmore. Curiosamente,
sua opção pelos estudos brasileiros foi obra
do acaso. Ele dava aulas em Harvard nos anos 60 quando o comunismo
se instalou em Cuba, a poucos quilômetros da costa dos
Estados Unidos. Fidel Castro levou o governo americano a estimular
as universidades a formar especialistas em América
Latina. Skidmore, que não falava português nem
espanhol, correu a se inscrever num curso de verão,
visando ganhar uma bolsa de estudos. O curso de língua
espanhola começava às 8 da manhã. O de
português, às 11. Como não queria acordar
cedo nas férias, resolveu aprender português.
"Foi uma decisão de malandro", diz. Deu certo. O historiador,
que ficou famoso com o livro Brasil – De Getúlio
a Castelo, produziu ao todo cinco títulos*,
que já venderam 70 000 exemplares no Brasil e 10 000
nos Estados Unidos. Na semana passada, Skidmore falou a VEJA.
Veja – O senhor
analisa a história brasileira desde o tempo do presidente
Getúlio Vargas. Qual a principal mudança desses
últimos anos?
Skidmore –
O país está imerso agora num clima generalizado
de conformismo. Nem sempre foi assim. Nas décadas de
50 e 60 havia uma grande agitação na cultura
brasileira. Era a época da bossa nova, da criação
de Brasília e existia um movimento ideológico
vigoroso. O orgulho do Brasil estava em alta e o presidente
Juscelino Kubitschek se empenhava em reforçar essa
autoconfiança. A construção de Brasília
era uma forma de mostrar ao mundo que o Brasil era capaz de
fazer alguma coisa séria. O problema agora é
que não existe mais essa confiança.
Veja – O Brasil
está se deixando colonizar?
Skidmore –
Não exatamente. O que há é um vácuo
intelectual. O presidente Fernando Henrique, autor de um livro
clássico sobre a teoria da dependência econômica,
foi a público para dizer com todas as letras: "Não
há alternativa para a nossa política econômica".
Existe esse sentimento geral no Brasil, e também em
outros países em desenvolvimento, de que só
há uma política certa. É a política
que vem de Washington. Não se procura uma solução
brasileira, ou mexicana, ou chilena.
Veja – Os brasileiros
têm estudado pouco o Brasil?
Skidmore –
O Brasil mudou muito desde minha primeira viagem, em 1961.
Quando cheguei e perguntei sobre os economistas do Brasil,
todo mundo dizia: Ah, é o Delfim Netto! Quase não
havia gente com formação de economista. Agora
você tem muitos, muito bem treinados. A capacidade relativa
do Brasil aumentou tremendamente.
Veja – Então,
por que o vácuo?
Skidmore –
O problema é que o Brasil não tem intelectuais,
ou tem poucos, que estejam tentando formular políticas
alternativas. Cada país precisa de uma receita própria.
Desde a década de 70 o Brasil está seguindo
uma política anêmica em termos de crescimento,
que não dá conta nem de absorver os trabalhadores
novos. A enorme desigualdade existente no Brasil só
vai desaparecer com crescimento. Os brasileiros têm
de encontrar uma fórmula de crescer.
Veja – Com isso
virão as idéias originais?
Skidmore – O
Brasil age como se não houvesse mais possibilidade
de descobrir novos caminhos. Vamos observar alguns exemplos.
O país produziu o método Paulo Freire de alfabetização,
que foi testado e se tornou famoso no mundo. Ele foi deixado
de lado e em vez de usar a cultura popular para melhorar o
ensino, como propunha Paulo Freire, recorre-se às fórmulas
estrangeiras, que nem sempre ajudam. Há outros exemplos.
O Brasil está paralisado diante da questão social
e está se tornando uma nação de castelos
armados. No Rio de Janeiro, os edifícios na Zona Sul
são cercados de grades e guardas particulares. É
uma mistura de apartheid social e medo. O país precisa
pensar em fortalecer o espírito de comunidade e não
em levantar arranha-céus protegidos por cães
e guardas. Não se buscam alternativas para a vida que
os brasileiros estão vivendo no momento. A frase do
presidente, de que não há alternativas, deveria
ser tomada como um desafio pela intelectualidade brasileira.
Eles deveriam pensar em projetos que tornassem possível
melhorar a justiça social.
Veja – Muitos
gostam de comparar o presidente Fernando Henrique a Juscelino
Kubitschek. Existem semelhanças?
Skidmore –
Kubitschek era político nato. Gostava de falar com
as pessoas, distribuir coisas, beijar criancinhas na multidão
– aquela coisa do político que fica suado de tanto
abraçar as pessoas. O Kubitschek gostava dessa ligação
emocional com a população. Estava nas veias
dele. O Fernando Henrique é diferente. É um
homem muito racional, pensa com seriedade, mas não
gosta desse negócio de ficar no meio do povo. O que
ele gosta é de viajar, visitar os países desenvolvidos,
o que é importante para o Brasil. Mas significa também
que ele não tem a capacidade de mobilizar, de fazer
apelos ao público como JK fazia. A liderança
de Fernando Henrique é intelectual. É um defeito
de seu tipo de personalidade. Ele não tem a capacidade
de dizer para o Brasil: "Vamos correr o risco".
Veja – Por que a
distribuição de renda continua sempre tão
desigual no Brasil apesar de todas as mudanças que
o país viveu nos últimos quarenta anos?
Skidmore – Não
sou economista, mas acho que um dos problemas é que
o sistema político no Brasil é uma máquina
de distribuir dinheiro para cima, para as classes média
e alta. O sistema dá muitos subsídios. Um exemplo
é o das universidades, que é um subsídio
do pagador de impostos para os ricos. Outro é o emprego
público. Durante o governo Sarney houve uma onda de
empreguismo nos governos estaduais. Isso é também
um subsídio para os amigos dos políticos, pago
com os impostos de toda a população e dos pobres.
Veja – Por que
as coisas não mudam?
Skidmore –
A elite brasileira tem uma familiaridade muito grande com
os pobres. Há uma certa intimidade, como se vê
na relação com os empregados domésticos.
A elite acha que esses pobres estão sempre ao lado
dela e que a pobreza é uma fatalidade. Não vislumbra
uma democracia econômica nem sonha em criar uma economia
próspera, em que todo mundo tenha um emprego bom. Nesse
ponto, o Brasil é bem diferente dos Estados Unidos
e da Alemanha. Não existe um ideal de igualdade no
Brasil. Os pobres também não acreditam que tenham
o direito de ficar melhor na vida. Encaram o destino com uma
certa fatalidade, "o senhor é que sabe", "a senhora
é que manda", "se Deus quiser". Esse é um traço
muito importante do sistema social brasileiro.
Veja – Por que nos
Estados Unidos a coisa é diferente?
Skidmore –
A elite americana tem mais sentimento de culpa. É um
traço do protestantismo. O rico brasileiro não
tem sentimento de culpa. O americano rico fica envergonhado
por ter muito dinheiro. Na Califórnia, os empresários
que ficaram milionários com a internet aos 35 anos
andam desesperados atrás de idéias para criar
fundações. Isso acontece porque podem deduzir,
do imposto de renda, os gastos feitos com programas sociais.
Mas não é só isso. Há também
o sentimento de que é necessário espalhar o
dinheiro. O protestante, como dizia Calvino, nunca sabe se
será salvo ou não. O católico, cuja moral
está mais presente na cultura brasileira, sabe que
será salvo a cada domingo. Ele vai até o padre,
consegue uma solução para os pecados e volta
feliz para casa. Livre para pecar mais uma semana.
Veja – Olhando a
galeria de presidentes do Brasil, quais deles poderiam ser
chamados de estadistas?
Skidmore –
Falar em estadistas é complicado. É melhor pensarmos
nos de maior influência. O primeiro é o Vargas,
sem dúvida. Ele tinha uma visão do Brasil: unificar
o país e depois industrializar. Era o arquiteto do
Brasil. Depois dele, vem o Juscelino Kubitschek. Não
só por causa do progresso econômico que promoveu,
mas também pela ação que teve sobre a
psicologia do povo, estimulando o otimismo no país.
A seguir, o Geisel, porque conseguiu quebrar o poder dos militares
da linha dura, e isso era necessário para a abertura
política do Brasil. Outro é o Fernando Henrique,
porque conseguiu a estabilização, o que parecia
impossível. Infelizmente, acho que ele não vai
conseguir dar o passo seguinte, que é avançar
na justiça social.
Veja – Nos anos
60, uma das idéias que se alimentavam no país
era transformar o Brasil em grande potência. Que papel
está reservado para ele na globalização?
Skidmore – Tudo
depende da capacidade do Brasil de acelerar o desenvolvimento.
Mas o momento atual não é de exaltação.
Nos anos 50 e 60 havia um movimento ideológico muito
forte, que foi apagado pelo governo militar. Ele ressurgiu
na década de 80, com o movimento das diretas, que trouxe
um otimismo muito grande. Havia a esperança de que
o sentimento de participação pudesse consolidar-se.
Isso não aconteceu, e a política voltou a ficar
parecida com a que era praticada na República Velha.
A política da manipulação dos caudilhos.
Isso disseminou o pessimismo pela população
e hoje, como resultado, o cidadão não tem confiança
nos partidos nem nos políticos.
Veja – Como o senhor
acha que vai estar o Brasil em dez ou vinte anos?
Skidmore – Uma
boa notícia é que a taxa de crescimento da população
no Brasil caiu muito. Na década de 70 era quase 3%
e agora caiu para 1,4%. Isso diminui um pouco a pressão
para a necessidade de gerar empregos. O Brasil pode continuar
alguns anos com essa estratégia de privilegiar a estabilização,
mas não pode fazer isso por muito tempo. O próximo
presidente vai ter de correr o risco de acelerar o crescimento.
Se o Brasil conseguir um crescimento maior, pode emergir como
um poder regional bastante forte.
Veja – O Brasil
entrará para o grupo dos desenvolvidos nesse período
de tempo?
Skidmore – Não,
acho que vai ficar na margem, ainda.
Veja – A sensação
de que a pobreza é inescapável não pode
trazer de volta o nacionalismo?
Skidmore –
O nacionalismo morreu vítima da década de 70.
O Brasil foi à bancarrota, não tinha capacidade
de pagar a dívida externa. O mesmo aconteceu em toda
a América Latina. Se você não tem dinheiro
para pagar o banqueiro, não está em condições
de dizer que sua nação é a melhor do
mundo. Um colapso da economia mundial pode reacender o nacionalismo.
Foi um processo desse tipo que impulsionou o populismo de
raízes nacionalistas no passado.
Veja – E os países
desenvolvidos? Neles o nacionalismo parece estar renascendo
com força. Muitas vezes até com um viés
reacionário, como na Áustria. Isso está
ocorrendo também nos Estados Unidos?
Skidmore – O
nacionalismo nos Estados Unidos é perigoso, porque
algumas vezes se traduz em protecionismo econômico,
o que é muito ruim para o comércio exterior.
Outras vezes se torna uma coisa irracional, como se viu nos
debates sobre a intervenção em Kosovo. Muita
gente nos Estados Unidos tem falado sobre a necessidade de
aumentar o orçamento de defesa. É uma coisa
louca! Os falcões voando de novo. Para que precisamos
de um novo tipo de submarino? É absurdo.
Veja – Qual é
a justificativa deles?
Skidmore –
Os que são favoráveis a reforçar o sistema
de defesa dizem que os Estados Unidos precisam proteger-se
porque temos inimigos. Como a Coréia do Norte, por
exemplo. Imagine, como pode a Coréia do Norte, que
está morrendo de fome, ameaçar os Estados Unidos?
O fato é que essa idéia, de que os americanos
não podem ser fracos, está sempre presente.
Veja – Qual será
seu próximo trabalho sobre o Brasil?
Skidmore –
Estou pesquisando a questão racial. A situação
no Brasil está mudando bastante. O país está
considerando a adoção da política de
criar cotas de vagas para os negros nas universidades e nas
empresas. É um modelo que já foi adotado pelos
americanos e que os Estados Unidos estão começando
a abandonar. Há um entendimento hoje de que dar privilégios
às minorias, como forma de compensar a discriminação
passada, fere a idéia de igualdade de oportunidades.
A maioria da comunidade negra está contra a revogação,
mas há um grupo que acha a política de cotas
uma espécie de discriminação, com efeitos
psicológicos negativos.
Veja – Por que a
questão racial chamou sua atenção neste
momento?
Skidmore – Porque
ela começou a ser discutida abertamente. As denúncias
de discriminação têm cobertura na imprensa.
O presidente Fernando Henrique, em seus discursos, tem enfatizado
a necessidade de reconhecer os direitos das minorias. Ele
é o primeiro presidente a mencionar abertamente a existência
da discriminação racial no país.
Veja – Na campanha,
ele disse que tinha um pé na cozinha...
Skidmore – Isso
é outra coisa. É a maneira brasileira de fugir
do assunto. Diz-se "não sou negro, minha avó
é que é mulata". Ainda assim, o discurso no
Brasil é muito mais aberto agora do que era na década
de 60.
Veja – A bibliografia
de seus livros cita uma quantidade enorme de estrangeiros
falando sobre o Brasil contemporâneo. Muita gente nos
Estados Unidos se dedica hoje a estudar a América Latina?
Skidmore – Existem
milhares de estudiosos. Hoje temos uma associação,
a Latin American Studies Association. No último encontro,
em Miami, havia 4 000 especialistas e 2 500 eram americanos.
* Brasil
– De Getúlio a Castelo, Preto no Branco, Brasil – De
Castelo a Tancredo, O Brasil Visto de Fora e Uma
História do Brasil.
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