Edição 1 645 -19/4/2000

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Transparência nacional

"A corrupção, chaga moral, cria também
um custo econômico elevado.
Além de ético, é racional combatê-la"

 
Ilustração Ale Setti

A corrupção no Brasil está maior ou menor hoje? Provavelmente a maioria dirá: "maior". De fato, ninguém sabe. Certo é que a transparência das atividades do setor público, em todos os níveis de governo, aumentou muito. A corrupção pode estar diminuindo, embora cresça o número de casos que chegam ao conhecimento público. Durante a ditadura, a imprensa ou o Legislativo não podiam investigar denúncias nem rumores de corrupção. O Serviço Nacional de Informações (SNI) monopolizava essas investigações, talvez punindo os desafetos do regime e desconsiderando o que surgia contra seus simpatizantes e colaboradores. O Ministério Público não tinha autonomia. A imprensa era censurada. O Congresso vivia sob a ameaça dos tanques.

Com o fim do regime militar, acabou a censura e restabeleceu-se plenamente a liberdade de imprensa. Com a liberalização política surgiram legendas partidárias sem ligações com as velhas oligarquias. Logo, fora dos conluios oligárquicos que tendiam a acobertar todo tipo de irregularidade. O Congresso e os Legislativos estaduais voltaram a ser livres e a abrigar oposições efetivas, não apenas as consentidas. Aumentou a transparência porque se tornou possível revelar mais atos de corrupção e fisiologismo do que antes. É razoável supor que hoje a transparência aumente e a corrupção diminua, embora pareça o contrário. Saber de verdade é impossível.

Mesmo porque pode ter ressurgido a corrupção de setores afeitos à rapinagem do Estado, que estavam submetidos a longo jejum por ter ficado do "lado errado" no golpe de 1964. Nesse período, pode ter havido um aumento do volume tanto da corrupção quanto do noticiário sobre ela. O ápice talvez tenha ocorrido entre o final dos anos 80 e o início dos 90. Sem falar na expansão do narcotráfico nas últimas duas décadas, que corrompe aqui e no ultramar.

A Constituição de 1988 assegurou a liberdade de imprensa e deu autonomia ao Ministério Público para investigar atos contra a administração pública, consolidando a transparência e plantando a frágil semente da impunidade. Claro, a impunidade ainda é grande. O Judiciário ficou atrasado nesse processo, e a CPI sobre ele mostrou que, em alguns casos, tem ramos podres que são parte do problema, e não da solução. Por isso, é preciso cautela com medidas como a lei da mordaça, para que não reduzam a transparência, arma imprescindível contra a corrupção. Mas é verdade, também, que o Ministério Público tem politizado demais sua função, enfraquecendo seu papel e estimulando iniciativas para reduzir seus poderes e autonomia. O exercício legítimo e eficaz de sua prerrogativa constitucional exige que persiga obstinadamente a isenção, sobretudo política e ideológica, e a circunspecção.

As forças políticas emergentes, estranhas aos conluios oligárquicos, têm conseguido vitórias importantes. Pela primeira vez na história o Congresso julga, pune congressistas e permite que parlamentares sejam processados pela Justiça. Nem todos, é certo. Mas o importante é que a trama de cumplicidades a bloquear toda iniciativa nesse sentido já se rompeu. É bom, ainda que seja pouco.

A corrupção, chaga moral, cria também um custo econômico elevado. Além de ético, é racional combatê-la. Não é monopólio nacional. Existe em toda parte. Nos anos 80, lia uma revista acadêmica interdisciplinar dos Estados Unidos chamada Corrupção e Reforma, que estudava casos de corrupção e as reformas institucionais para coibi-los. Eram muitos: corrupção eleitoral, na administração pública, em empresas privadas e no sistema financeiro.

A existência da corrupção é um dado inescapável da realidade. Mas combatê-la deve ser prioridade nacional. O fundamental é implementar reformas institucionais que coíbam essas práticas e também permitam processar e punir os culpados. Ainda são imprecisos demais os limites éticos na relação entre agentes públicos e privados, reguladores e regulados, autoridades e cidadãos. Só os definindo com muito maior nitidez iremos fechando as fissuras por onde se infiltram os predadores do interesse público e, inclusive, do patrimônio privado.

Sérgio Abranches é cientista político (sergioabranches@sda.com.br)