A Mcliteratura
A ficção facilmente digerível
de escritores
que se debruçam sobre o universo pop
Carlos Graieb
O
ano é 1993. Jovens do mundo todo ouvem CDs do Nirvana.
Enquanto isso, Marcus, um menino de 12 anos, roda no toca-discos
velhas canções de Bob Dylan e Joni Mitchell.
Juntamente com a mãe "cabeça", ele acaba de
chegar a Londres. Suas roupas são estranhas. Seu
cabelo é esquisito. Ele está completamente
por fora. Não demora muito para que as crianças
da nova escola o escolham como alvo de suas brincadeiras.
Marcus está encrencado. É aí que ele
conhece Will Freeman. Will sabe exatamente quais tênis
usar, a quais programas de TV assistir. O único problema
é que ele tem 36 anos, é solteiro e bon vivant.
Nunca lhe passou pela cabeça servir de babá
de um pirralho. É com esse enredo, e essa improvável
dupla de protagonistas, que o escritor inglês Nick
Hornby põe em andamento as engrenagens de Um
Grande Garoto (tradução de Paulo Reis;
Rocco; 267 páginas; 28 reais). Deliciosa comédia,
o livro confirma as expectativas criadas pelo primeiro romance
do autor, Alta Fidelidade. Mas não é
só isso. Ele também demonstra que a ficção
vem se tornando, cada vez mais, o melhor instrumento para
analisar o universo pop com suas tribos e modas.
Hornby não é o único. Além
dele, vários outros autores, a maior parte ingleses
e americanos, têm se debruçado sobre o tema.
São escritores bastante diferentes entre si. Hanif
Kureishi, inglês de ascendência paquistanesa,
ao mesmo tempo que retrata, em livros como Álbum
Negro, o mundo dos imigrantes asiáticos na Inglaterra,
fala do movimento punk e das músicas de Prince. Alex
Garland, também britânico, autor do best-seller
A Praia, adora citar letras de rock em suas obras
e diz que a banda tecno Prodigy o influenciou mais do que
qualquer filósofo. Rick Moody, americano, faz em
Tempestade de Gelo um retrato nostálgico dos
anos 70 sob a perspectiva de um adolescente cujo maior passatempo
é ler histórias em quadrinhos. O escocês
Irvine Welsh, que escreveu Trainspotting e Ecstasy,
disseca as origens do movimento clubber. Esses escritores
têm duas coisas em comum. A primeira é o universo.
Em seus livros, a chamada cultura de massa, que ganhou força
dos anos 60 para cá, é mais do que um pano
de fundo. Ela é, muitas vezes, a razão principal
da vida dos personagens. A segunda semelhança é
a abordagem. Eles não têm uma perspectiva negativa
ou zombeteira. Criados à base de McDonald's, Mickey
Mouse e Monkees, mantêm uma relação
nostálgica e afetiva com esses ícones da cultura
pop.
Alienação Até os anos
60, este tema era vedado aos escritores sérios. Havia
uma distinção muito clara entre os mundos
da cultura de massa e da chamada "alta cultura", da qual
a literatura fazia parte. Antes de ir parar na ficção,
ícones pop só chegavam aos livros em teses
acadêmicas destinadas a provar que a indústria
cultural criaria uma geração de pessoas "vulgares"
e "alienadas", para usar termos da época. Autores
como Welsh, Moody e Kureishi mostraram que é possível
fazer boa ficção com esse assunto. Não
que o gênero tenha dado à luz obras-primas.
A qualidade da literatura que produzem é mediana.
Comercialmente, fazem um certo sucesso, mas nada comparável
a gente como John Grisham ou Danielle Steel. Como escola,
têm pelo menos um ponto altamente criticável:
às vezes são complacentes demais com o lado
pernicioso da cultura pop. Hornby, por exemplo, não
vê nada de mais na infantilização de
alguém que passa a vida se preocupando apenas com
o próximo episódio de um seriado de TV. A
mensagem de seus livros é que é melhor ser
um eterno adolescente do que se tornar intolerante ou preconceituoso.
Dito assim, ele tem razão. Mas livros como Um
Grande Garoto, apesar de divertidos, não deixam
de fazer um certo elogio da mediocridade.
De Mickey ao
Nirvana
Um precursor da literatura pop é o americano
John Updike, nascido em 1932 e autor de diversos textos
sobre o personagem Mickey Mouse e sua importância
para a vida americana. Depois de Updike, muitos escritores
encaixaram ícones da cultura de massa das últimas
décadas em suas obras literárias. Alguns
exemplos:
ANOS 70 Ricky Moody escreve sobre
personagens de quadrinhos como Surfista Prateado
e Os Quatro Fantásticos
ANOS 80 Hanif Kureishi cita Prince,
os conjuntos de punk rock e o reggae dos jamaicanos
de Londres
ANOS 90 Irvine Welsh retrata o mundo
das raves e a cultura das drogas como o ecstasy
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