Edição 1 632 -19/1/2000

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A Mcliteratura

A ficção facilmente digerível de escritores
que se debruçam sobre o universo pop

Carlos Graieb

 

O ano é 1993. Jovens do mundo todo ouvem CDs do Nirvana. Enquanto isso, Marcus, um menino de 12 anos, roda no toca-discos velhas canções de Bob Dylan e Joni Mitchell. Juntamente com a mãe "cabeça", ele acaba de chegar a Londres. Suas roupas são estranhas. Seu cabelo é esquisito. Ele está completamente por fora. Não demora muito para que as crianças da nova escola o escolham como alvo de suas brincadeiras. Marcus está encrencado. É aí que ele conhece Will Freeman. Will sabe exatamente quais tênis usar, a quais programas de TV assistir. O único problema é que ele tem 36 anos, é solteiro e bon vivant. Nunca lhe passou pela cabeça servir de babá de um pirralho. É com esse enredo, e essa improvável dupla de protagonistas, que o escritor inglês Nick Hornby põe em andamento as engrenagens de Um Grande Garoto (tradução de Paulo Reis; Rocco; 267 páginas; 28 reais). Deliciosa comédia, o livro confirma as expectativas criadas pelo primeiro romance do autor, Alta Fidelidade. Mas não é só isso. Ele também demonstra que a ficção vem se tornando, cada vez mais, o melhor instrumento para analisar o universo pop com suas tribos e modas.

Hornby não é o único. Além dele, vários outros autores, a maior parte ingleses e americanos, têm se debruçado sobre o tema. São escritores bastante diferentes entre si. Hanif Kureishi, inglês de ascendência paquistanesa, ao mesmo tempo que retrata, em livros como Álbum Negro, o mundo dos imigrantes asiáticos na Inglaterra, fala do movimento punk e das músicas de Prince. Alex Garland, também britânico, autor do best-seller A Praia, adora citar letras de rock em suas obras e diz que a banda tecno Prodigy o influenciou mais do que qualquer filósofo. Rick Moody, americano, faz em Tempestade de Gelo um retrato nostálgico dos anos 70 sob a perspectiva de um adolescente cujo maior passatempo é ler histórias em quadrinhos. O escocês Irvine Welsh, que escreveu Trainspotting e Ecstasy, disseca as origens do movimento clubber. Esses escritores têm duas coisas em comum. A primeira é o universo. Em seus livros, a chamada cultura de massa, que ganhou força dos anos 60 para cá, é mais do que um pano de fundo. Ela é, muitas vezes, a razão principal da vida dos personagens. A segunda semelhança é a abordagem. Eles não têm uma perspectiva negativa ou zombeteira. Criados à base de McDonald's, Mickey Mouse e Monkees, mantêm uma relação nostálgica e afetiva com esses ícones da cultura pop.

Alienação – Até os anos 60, este tema era vedado aos escritores sérios. Havia uma distinção muito clara entre os mundos da cultura de massa e da chamada "alta cultura", da qual a literatura fazia parte. Antes de ir parar na ficção, ícones pop só chegavam aos livros em teses acadêmicas destinadas a provar que a indústria cultural criaria uma geração de pessoas "vulgares" e "alienadas", para usar termos da época. Autores como Welsh, Moody e Kureishi mostraram que é possível fazer boa ficção com esse assunto. Não que o gênero tenha dado à luz obras-primas. A qualidade da literatura que produzem é mediana. Comercialmente, fazem um certo sucesso, mas nada comparável a gente como John Grisham ou Danielle Steel. Como escola, têm pelo menos um ponto altamente criticável: às vezes são complacentes demais com o lado pernicioso da cultura pop. Hornby, por exemplo, não vê nada de mais na infantilização de alguém que passa a vida se preocupando apenas com o próximo episódio de um seriado de TV. A mensagem de seus livros é que é melhor ser um eterno adolescente do que se tornar intolerante ou preconceituoso. Dito assim, ele tem razão. Mas livros como Um Grande Garoto, apesar de divertidos, não deixam de fazer um certo elogio da mediocridade.

 

De Mickey ao Nirvana

Um precursor da literatura pop é o americano John Updike, nascido em 1932 e autor de diversos textos sobre o personagem Mickey Mouse e sua importância para a vida americana. Depois de Updike, muitos escritores encaixaram ícones da cultura de massa das últimas décadas em suas obras literárias. Alguns exemplos:

ANOS 70 – Ricky Moody escreve sobre personagens de quadrinhos como Surfista Prateado e Os Quatro Fantásticos

ANOS 80 – Hanif Kureishi cita Prince, os conjuntos de punk rock e o reggae dos jamaicanos de Londres

ANOS 90 – Irvine Welsh retrata o mundo das raves e a cultura das drogas como o ecstasy