Edição 1 632 -19/1/2000

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Maledetta polêmica

O movimento negro não está gostando
de certos diálogos e situações da novela das 8

Celso Masson

 
Flavio Torres

Primeiro a glória, agora a polêmica. A novela Terra Nostra, maior fenômeno de audiência da TV brasileira nos últimos anos, com média diária de 44 pontos no Ibope, parecia uma unanimidade entre os telespectadores. Não é mais. Parte do movimento negro brasileiro vem acusando o autor Benedito Ruy Barbosa de racismo. Segundo seus integrantes, a novela reforça estereótipos negativos atribuídos à raça negra, enquanto enaltece os italianos na trama. A primeira a tocar no assunto foi a filósofa Sueli Carneiro, coordenadora executiva da ONG Geledés – Instituto da Mulher Negra. Num artigo de jornal, ela apontou falas que insinuam que os negros se acomodaram à escravidão, enquanto os italianos, brancos e "com espírito de liberdade", nunca se conformariam com ela. Diálogos com esse teor continuam a ser exibidos. Dois dos três exemplos citados no rodapé destas páginas foram tirados de capítulos da semana retrasada.

 

A idéia segundo a qual os negros teriam se sujeitado à escravidão por fraqueza de caráter ganhou credibilidade no final do século XIX, quando estavam em voga teorias racistas pretensamente científicas. Estudos históricos recentes refutam essa idéia. "Ao contrário do que se pensa, os africanos eram mais revoltosos e fugidios do que os índios capturados nos sertões brasileiros", afirma o professor do departamento de antropologia da Universidade Estadual de Campinas John Manuel Monteiro, autor de Negros da Terra, obra de referência sobre a escravidão em São Paulo. "Tanto que formaram quilombos por todo o país." A novela estaria assim reproduzindo uma idéia preconceituosa sem nenhuma base histórica. Os ativistas do Geledés apontam que na trama, que se passa na virada do século XIX para o XX, os negros não têm sequer consciência de que a escravidão já foi abolida. Tanto que precisam ser defendidos por um branco, o personagem Marco Antônio, interpretado por Marcello Antony. Ele tem discussões acaloradas com sua mãe, que é racista. Para a filósofa Sueli Carneiro, a divulgação de estereótipos pela novela afeta a auto-estima dos telespectadores de origem africana. Em especial a das crianças. "É péssimo para um menino negro ver um personagem de sua idade dizendo que Deus não quis embranquecê-lo", observa ela.

"Negro safado" – O autor de Terra Nostra, Benedito Ruy Barbosa, não acha que a sua história seja racista. "O fato de meus personagens dizerem determinadas coisas não significa que eu pense do mesmo jeito", defende-se ele. Benedito afirma que, ao colocar na boca de seus personagens frases ofensivas aos negros, ele apenas quis reproduzir os preconceitos existentes na época. Não é a primeira vez que o Geledés vê racismo numa novela da Globo. Em 1994, o grupo chegou a entrar na Justiça quando um personagem da novela Pátria Minha chamava um empregado de "negro safado". No caso de Terra Nostra, justamente por levar em consideração o argumento de Benedito, a ONG não pretende ser tão radical. "Nós só lamentamos o fato de que uma novela que devolveu aos descendentes de italianos o orgulho de sua origem atente contra a auto-estima da raça negra", diz Sueli Carneiro. Mesmo sem admitir que está errado, o autor pretende remediar essa situação no decorrer da trama. Principalmente no tocante às crianças. "Os meninos negros Tiziu e José Alceu crescerão e conquistarão posições sociais de destaque, através do estudo", promete.