Edição 1 632 -19/1/2000

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Deus descolado

Ele é Ela no divertido Dogma, que só
chocará os católicos ultraconservadores

Isabela Boscov

A cantora Alanis, no papel de Deus, e o diretor Smith: irreverência

Dois anjos desobedecem às ordens de Deus e, por isso, são expulsos do Céu. Há algo de herético nessa trama? Definitivamente, não – uma passagem semelhante até consta da Bíblia. Ao contrário de Lúcifer, porém, os protagonistas da comédia Dogma (Estados Unidos, 1999) não são condenados ao Inferno, e sim a vagar pelo desenxabido Estado americano de Wisconsin. Eis por que os anjos Loki e Bartleby não descansam até encontrar uma saída jurídica que lhes permita retornar ao Paraíso. Mas, se o fizerem, provarão que Deus é falível e aniquilarão todas as Suas criações. Devem, portanto, ser impedidos. A tarefa recai sobre Bethany, a última descendente da Virgem Maria, uma moça que perdeu a fé e trabalha numa clínica de abortos. É fácil perceber por que Dogma, que estréia nesta sexta-feira em São Paulo, no Rio de Janeiro e em outras capitais, entrou na mira dos católicos mais conservadores. No filme, Deus é uma mulher (a cantora Alanis Morrissette), um anjo abaixa as calças e fornece provas indiscutíveis de que sua espécie não tem sexo e a maior preocupação dos dois profetas que acompanham Bethany é arrumar namoradas. O enredo inclui até um 13º apóstolo, que diz não constar das Escrituras por ser negro. Por trás dessas piadas, no entanto, o diretor Kevin Smith (que interpreta um dos assanhados profetas) esconde uma queixa séria. "Não compreendo as pessoas que tratam a fé como um fardo, e não como a bênção que ela é", proclama um personagem. Mais reverente, impossível.

Damon e Affleck, como
os anjos caídos: fazendo
qualquer negócio para
voltar ao Céu

Como todo bom satirista, Smith é antes de tudo um moralista, daqueles que têm muito a criticar. Por isso ele nem perde tempo com o visual do filme e concentra toda a força nos diálogos. À maneira dos de Woody Allen, eles são rápidos, verbosos e engraçados. Nada disso surpreende quem já viu outros trabalhos do diretor, como Procura-se Amy. O que não se esperava é que ele fosse tão carola. Smith se compadece da vida inútil que levam na Terra os dois anjos caídos (vividos por Matt Damon e Ben Affleck), mas não esconde que prefere ver Deus levar a melhor sobre os rebeldes. Também trata de dar à desiludida Bethany prova sobre prova de que o Criador merece sua fé. Dogma, é verdade, tem palavrões em profusão e não perde uma chance de chocar a platéia. O alvo de Smith, contudo, não é o cristianismo, e sim o mau uso que se faz dele. Na visão católica do diretor, todas as criações divinas, mesmo as mais desgarradas, não conhecem conforto maior do que a presença de Deus. Mesmo para os mais fervorosos, pregar contra o filme é, assim, um contra-senso. É, também, desperdiçar uma boa oportunidade de se divertir no cinema.