Deus descolado
Ele é Ela no divertido
Dogma, que só
chocará os católicos
ultraconservadores
Isabela Boscov
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A cantora
Alanis, no papel de Deus, e o diretor Smith: irreverência
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Dois anjos desobedecem às
ordens de Deus e, por isso, são expulsos do Céu.
Há algo de herético nessa trama? Definitivamente,
não uma passagem semelhante até consta
da Bíblia. Ao contrário de Lúcifer,
porém, os protagonistas da comédia Dogma
(Estados Unidos, 1999) não são condenados
ao Inferno, e sim a vagar pelo desenxabido Estado americano
de Wisconsin. Eis por que os anjos Loki e Bartleby não
descansam até encontrar uma saída jurídica
que lhes permita retornar ao Paraíso. Mas, se o fizerem,
provarão que Deus é falível e aniquilarão
todas as Suas criações. Devem, portanto, ser
impedidos. A tarefa recai sobre Bethany, a última
descendente da Virgem Maria, uma moça que perdeu
a fé e trabalha numa clínica de abortos. É
fácil perceber por que Dogma, que estréia
nesta sexta-feira em São Paulo, no Rio de Janeiro
e em outras capitais, entrou na mira dos católicos
mais conservadores. No filme, Deus é uma mulher (a
cantora Alanis Morrissette), um anjo abaixa as calças
e fornece provas indiscutíveis de que sua espécie
não tem sexo e a maior preocupação
dos dois profetas que acompanham Bethany é arrumar
namoradas. O enredo inclui até um 13º apóstolo,
que diz não constar das Escrituras por ser negro.
Por trás dessas piadas, no entanto, o diretor Kevin
Smith (que interpreta um dos assanhados profetas) esconde
uma queixa séria. "Não compreendo as pessoas
que tratam a fé como um fardo, e não como
a bênção que ela é", proclama
um personagem. Mais reverente, impossível.
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Damon e Affleck,
como
os anjos caídos: fazendo
qualquer negócio para
voltar ao Céu
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Como todo bom satirista, Smith é
antes de tudo um moralista, daqueles que têm muito
a criticar. Por isso ele nem perde tempo com o visual do
filme e concentra toda a força nos diálogos.
À maneira dos de Woody Allen, eles são rápidos,
verbosos e engraçados. Nada disso surpreende quem
já viu outros trabalhos do diretor, como Procura-se
Amy. O que não se esperava é que ele fosse
tão carola. Smith se compadece da vida inútil
que levam na Terra os dois anjos caídos (vividos
por Matt Damon e Ben Affleck), mas não esconde que
prefere ver Deus levar a melhor sobre os rebeldes. Também
trata de dar à desiludida Bethany prova sobre prova
de que o Criador merece sua fé. Dogma, é
verdade, tem palavrões em profusão e não
perde uma chance de chocar a platéia. O alvo de Smith,
contudo, não é o cristianismo, e sim o mau
uso que se faz dele. Na visão católica do
diretor, todas as criações divinas, mesmo
as mais desgarradas, não conhecem conforto maior
do que a presença de Deus. Mesmo para os mais fervorosos,
pregar contra o filme é, assim, um contra-senso.
É, também, desperdiçar uma boa oportunidade
de se divertir no cinema.