Edição 1 632 -19/1/2000

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E viva a diferença

Ressaltar o que gêmeos têm em particular
evita rivalidades e ajuda os pais na educação

Tatiana Chiari

 
Claudio Rossi

Fernanda e Renata: amigos diferentes
para preservar a identidade

A ciência é pródiga em estudos sobre a influência genética na formação da personalidade dos gêmeos. Tanto empenho se justifica porque os gêmeos, quando univitelinos, são seres absolutamente iguais e, com base neles, consegue-se investigar o papel da herança biológica na vida de todos, inclusive na dos não gêmeos. Graças a esses trabalhos, sabe-se que os pais não passam aos filhos apenas a cor dos olhos ou a propensão para essa ou aquela doença, mas também uma série de características associadas ao temperamento. Para quem tem gêmeos em casa e para quem deseja tê-los (mais de 30% dos casais sem filhos, segundo pesquisa do instituto Vox Populi), há alguns estudos mais importantes do que esses. Eles dizem respeito à melhor maneira de se relacionar com os gêmeos, às sutilezas envolvidas na educação de crianças provenientes de gestações múltiplas, cada vez mais comuns atualmente.

A crescente procura por clínicas especializadas em tratamento de inseminação artificial e fertilização in vitro dobrou a freqüência de nascimento de gêmeos. Da média de um caso em cada grupo de oitenta partos, a incidência passou para um caso em quarenta. Entre as mulheres que se submetem a algum tipo de tratamento, 20% dão à luz mais de uma criança. Como a receita para a educação desses filhos não está no tubo de ensaio, ao contrário do que acontece na fase de concepção, é preciso tomar alguns cuidados.

Para os especialistas, enquanto os estudos científicos em geral reforçam as semelhanças entre os gêmeos, a preocupação central dos pais deve ser exatamente a inversa: preservar a individualidade dos filhos. "Eles precisam pensar na diferença entre as crianças desde o momento da escolha do nome", diz a psicóloga e terapeuta familiar Gláucia Rezende Tavares, chefe da unidade neonatal da Maternidade Santa Fé, em Belo Horizonte. "Nomes muito parecidos atrapalham as distinções." Respeitar a singularidade dos filhos, seu ritmo, horários e preferências também é uma maneira adequada de valorizar a diferença. Como é impossível não comparar filhos que nasceram ao mesmo tempo, um grande esforço deve ser feito para que, ao menos, não se incentive a competição. As irmãs Fernanda e Renata Darakdjian d'Alcântara Barbosa, de São Paulo, aos 7 anos já criaram seus mecanismos de diferenciação. Gêmeas univitelinas, elas fazem questão de marcar sua individualidade. Os amigos são sempre de uma ou de outra e o quarto em conjunto está sofrendo modificações para delimitar espaços próprios. Há pouco tempo elas exigiram que o armário fosse dividido e hoje cada uma usa sua parte. "As meninas têm roupas iguais, mas se organizam para não usar juntas", conta a mãe, Lucy.

Irmãos levados – Alguns cuidados na criação exigem apenas bom senso, como o de não penalizar as duas crianças pelo erro de uma delas nem valorizar alguma conquista como se ela fosse conjunta. Outros demandam mudanças no cotidiano dos pais. É o caso de escolas que oferecem somente uma classe por série. Matricular os filhos em turmas diferentes, o que especialistas recomendam, pode significar levar e buscar as crianças em pontos distantes da cidade. E, se achar uma escola que agrade já é difícil, imagine duas.

Quando são univitelinos, os gêmeos possuem algumas particularidades. Ao mesmo tempo em que sentem necessidade de mostrar-se diferentes do irmão como qualquer outra criança, também se aproveitam das semelhanças – o que as demais crianças não podem fazer. Muitas vezes, adotam atitudes e manias muito próximas, um agindo em função do outro, dando as mesmas respostas, imitando o tom de voz e até chorando junto. Outro dado da personalidade dos gêmeos é que, por demandar atenção dobrada dos pais (ou triplicada, quadruplicada, conforme o número), os irmãos costumam aproveitar-se da falta de controle e muitas vezes se tornam levados, daqueles que não ficam parados um segundo.

Alguns são tão levados que, quando perguntados, dizem irritar-se com piadinhas a respeito da semelhança física. Eles não gostam daquelas gracinhas do tipo: "Você é o xerox ou o original?" ou "Você é você ou sua irmã?" Acontece que, muitas vezes, são eles que se transformam em grandes piadistas. As irmãs Vanessa e Veridiana Motta Paulella, de Santos, têm hoje 25 anos e contam que fizeram todas as estripulias que podiam imaginar. "Já fizemos prova uma para a outra e até trocamos de namorado", conta Vanessa. "Aproveitamos sempre a melhor parte de ser tão parecidas."