E viva a diferença
Ressaltar o que gêmeos têm em
particular
evita rivalidades e ajuda os pais na educação
Tatiana Chiari
Claudio Rossi
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Fernanda e Renata: amigos diferentes
para preservar a identidade
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A ciência é pródiga em estudos sobre
a influência genética na formação
da personalidade dos gêmeos. Tanto empenho se justifica
porque os gêmeos, quando univitelinos, são
seres absolutamente iguais e, com base neles, consegue-se
investigar o papel da herança biológica na
vida de todos, inclusive na dos não gêmeos.
Graças a esses trabalhos, sabe-se que os pais não
passam aos filhos apenas a cor dos olhos ou a propensão
para essa ou aquela doença, mas também uma
série de características associadas ao temperamento.
Para quem tem gêmeos em casa e para quem deseja tê-los
(mais de 30% dos casais sem filhos, segundo pesquisa do
instituto Vox Populi), há alguns estudos mais importantes
do que esses. Eles dizem respeito à melhor maneira
de se relacionar com os gêmeos, às sutilezas
envolvidas na educação de crianças
provenientes de gestações múltiplas,
cada vez mais comuns atualmente.
A
crescente procura por clínicas especializadas em
tratamento de inseminação artificial e fertilização
in vitro dobrou a freqüência de nascimento de
gêmeos. Da média de um caso em cada grupo de
oitenta partos, a incidência passou para um caso em
quarenta. Entre as mulheres que se submetem a algum tipo
de tratamento, 20% dão à luz mais de uma criança.
Como a receita para a educação desses filhos
não está no tubo de ensaio, ao contrário
do que acontece na fase de concepção, é
preciso tomar alguns cuidados.
Para os especialistas, enquanto os estudos científicos
em geral reforçam as semelhanças entre os
gêmeos, a preocupação central dos pais
deve ser exatamente a inversa: preservar a individualidade
dos filhos. "Eles precisam pensar na diferença entre
as crianças desde o momento da escolha do nome",
diz a psicóloga e terapeuta familiar Gláucia
Rezende Tavares, chefe da unidade neonatal da Maternidade
Santa Fé, em Belo Horizonte. "Nomes muito parecidos
atrapalham as distinções." Respeitar a singularidade
dos filhos, seu ritmo, horários e preferências
também é uma maneira adequada de valorizar
a diferença. Como é impossível não
comparar filhos que nasceram ao mesmo tempo, um grande esforço
deve ser feito para que, ao menos, não se incentive
a competição. As irmãs Fernanda e Renata
Darakdjian d'Alcântara Barbosa, de São Paulo,
aos 7 anos já criaram seus mecanismos de diferenciação.
Gêmeas univitelinas, elas fazem questão de
marcar sua individualidade. Os amigos são sempre
de uma ou de outra e o quarto em conjunto está sofrendo
modificações para delimitar espaços
próprios. Há pouco tempo elas exigiram que
o armário fosse dividido e hoje cada uma usa sua
parte. "As meninas têm roupas iguais, mas se organizam
para não usar juntas", conta a mãe, Lucy.
Irmãos levados Alguns cuidados na criação
exigem apenas bom senso, como o de não penalizar
as duas crianças pelo erro de uma delas nem valorizar
alguma conquista como se ela fosse conjunta. Outros demandam
mudanças no cotidiano dos pais. É o caso de
escolas que oferecem somente uma classe por série.
Matricular os filhos em turmas diferentes, o que especialistas
recomendam, pode significar levar e buscar as crianças
em pontos distantes da cidade. E, se achar uma escola que
agrade já é difícil, imagine duas.
Quando
são univitelinos, os gêmeos possuem algumas
particularidades. Ao mesmo tempo em que sentem necessidade
de mostrar-se diferentes do irmão como qualquer outra
criança, também se aproveitam das semelhanças
o que as demais crianças não podem
fazer. Muitas vezes, adotam atitudes e manias muito próximas,
um agindo em função do outro, dando as mesmas
respostas, imitando o tom de voz e até chorando junto.
Outro dado da personalidade dos gêmeos é que,
por demandar atenção dobrada dos pais (ou
triplicada, quadruplicada, conforme o número), os
irmãos costumam aproveitar-se da falta de controle
e muitas vezes se tornam levados, daqueles que não
ficam parados um segundo.
Alguns são tão levados que, quando perguntados,
dizem irritar-se com piadinhas a respeito da semelhança
física. Eles não gostam daquelas gracinhas
do tipo: "Você é o xerox ou o original?" ou
"Você é você ou sua irmã?" Acontece
que, muitas vezes, são eles que se transformam em
grandes piadistas. As irmãs Vanessa e Veridiana Motta
Paulella, de Santos, têm hoje 25 anos e contam que
fizeram todas as estripulias que podiam imaginar. "Já
fizemos prova uma para a outra e até trocamos de
namorado", conta Vanessa. "Aproveitamos sempre a melhor
parte de ser tão parecidas."