O gueto do HIV
Brasileiros são o segundo grupo
mais
infectado pelo vírus da Aids no Japão
Eduardo Nunomura
Ricardo Benichio
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"Quando sabiam que
eu era brasileiro,
até as garotas
de programa
me evitavam."
J.P.N, que viveu quatro
anos no Japão e está
com o HIV
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Não bastassem a saudade de casa, a discriminação
racial e o pesado dia-a-dia nas fábricas, os trabalhadores
brasileiros vivem um novo drama no Japão: o do estigma
da Aids. Dos 230.000 imigrantes
em busca de oportunidades na terra do sol nascente, 1.200
são portadores do HIV. É uma taxa de contaminação
altíssima, duas vezes maior que a registrada entre
a população do Brasil e 54 vezes superior
à japonesa. Um estudo realizado pelo Ministério
da Saúde e Bem-Estar do Japão mostra que os
brasileiros são o segundo grupo de estrangeiros mais
infectado, atrás apenas dos tailandeses. O cenário
da epidemia é especialmente explosivo porque a maior
parte dos infectados, temendo perder o emprego ou ser deportados,
evita procurar atendimento médico.
A maioria dos dekasseguis já chegou infectada ao
Japão, mas dois em cada dez portadores do HIV foram
contaminados em solo nipônico. Pesquisas mostram que
os trabalhadores estrangeiros dão atenção
mínima à prevenção da doença
e só a metade deles usa camisinha. Existe a idéia
fantasiosa de que tais cuidados são desnecessários
num país desenvolvido como o Japão, com baixíssima
incidência de Aids na população nativa.
É um erro fatal, sobretudo porque a vida sexual dos
imigrantes quase nunca ultrapassa os limites da própria
comunidade. Os namoros com os japoneses são improváveis
não apenas por causa do preconceito racial mas também
porque a imagem do estrangeiro está associada à
Aids. O paulista J.P.N., 32, que passou quatro anos no Japão,
conta que era rejeitado até pelas prostitutas nipônicas.
"Na cabeça do japonês, Aids é coisa
de estrangeiro", diz. Ele contraiu o HIV numa visita ao
Brasil, em 1993.
A
rapidez da contaminação é conseqüência
direta do isolamento em que vivem os dekasseguis. Como o
convívio com os japoneses é, na maioria das
vezes, formal e restrito ao local de trabalho, os brasileiros
formam um grupo muito fechado. "Sem a prevenção
e a percepção do risco, a possibilidade de
o vírus circular livremente é muito maior",
diz Adauto Castelo Filho, professor da Universidade Federal
de São Paulo e presidente da Sociedade Brasileira
de Infectologia. Entre os latino-americanos infectados,
dos quais dois terços vêm do Brasil, 40% não
sabem como e onde contraíram o vírus. Como
poucos dekasseguis contam com plano de assistência
médica, a maior parte deles não tem a quem
recorrer. "Algumas cidades proíbem que os planos
de saúde sejam estendidos aos trabalhadores brasileiros",
diz José Araújo Lima, coordenador do Grupo
de Incentivo à Vida, GIV, primeira Organização
Não-Governamental brasileira de combate à
Aids a atuar no Japão. Dos 300 hospitais existentes
no país, só cinqüenta atendem estrangeiros.
Desses, apenas dezessete já cuidaram de pacientes
brasileiros. Não se trata de discriminação
racista, mas do obstáculo da língua. Poucos
dekasseguis falam japonês e são raros os médicos
nipônicos que dominam um idioma estrangeiro. "Quando
os casos aparecem, a doença tende a estar num estágio
muito avançado", afirma Raldo Bonifácio Costa
Filho, do Ministério da Saúde do Brasil. Os
brasileiros infectados praticamente só contam com
a ajuda do Grupo Criativos, uma entidade de apoio à
comunidade latino-americana residente no Japão.