Edição 1 632 -19/1/2000

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Vaticano

Conexão Moscou

Ali Agca, que tentou matar o papa, estabelece
uma ligação entre a KGB e o atentado de 1981

Em 13 de maio de 1981, 40.000 pessoas reunidas na Praça de São Pedro, no Vaticano, foram testemunhas de um capítulo dramático da história da Igreja Católica: o atentado a tiros que quase tirou a vida de João Paulo II. Preso em flagrante, o turco Mehmet Ali Agca diria um ano depois que havia sido contratado para matar o papa por três diplomatas búlgaros, que lhe prometeram 1,2 milhão de dólares pelo serviço. Como na ocasião a Bulgária era um satélite da União Soviética e o pontífice polonês estava empenhadíssimo em derrubar os governos comunistas no Leste Europeu, a história fazia sentido. Em 1985, no entanto, ao ser interrogado novamente pelos promotores encarregados do caso, Agca desmentiu sua confissão e afirmou que havia disparado contra João Paulo II porque se considerava Jesus Cristo e o fim do mundo estava próximo. Na falta de provas de sua ligação com os búlgaros, a hipótese de que o turco seria apenas um lunático acabou prevalecendo. Os diplomatas foram inocentados e Agca foi condenado à prisão perpétua, já que, diferentemente do que acontece no Brasil, maluco que sai atirando por aí não tem colher de chá na Itália.

Desde então, o nome do turco volta e meia aparece em reportagens e livros que tentam, sem sucesso, estabelecer uma conexão concreta entre ele e os comunistas. Há alguns dias, Agca voltou ao noticiário, só que de viva voz. Em entrevista ao jornal inglês Sunday Times, afirmou que resolveu bancar o doido porque, na época do processo, foi ameaçado pela KGB, o serviço secreto soviético. De acordo com ele, em dezembro de 1983 um magistrado búlgaro chamado Jordan Ormankov, que acompanhava o processo, visitou-o na prisão, junto com um intérprete. O intérprete seria, na verdade, um agente soviético que se apresentou como Markov Petkov. "A KGB quer ajudá-lo. Mas você deve negar tudo aquilo que falou até agora. Se não o fizer, nós mataremos você e sua família", teria dito Petkov a um Agca aterrorizado.

Essa história reforça a convicção dos adeptos da teoria conspiracionista de que a idéia do atentado surgiu em Moscou e que os soviéticos, por prudência, resolveram utilizar os búlgaros na operação. Um dos juízes italianos que trabalharam no caso, Ferdinando Imposimato, acredita que Agca está dizendo a verdade. "Agca tinha oito passaportes falsos. Não trabalhava e gastava 4.000 dólares por mês. Viajava sem problemas pelos países da Cortina de Ferro. É óbvio que tinha apoio do bloco soviético", afirmou Imposimato ao Sunday Times. O jornal cita, ainda, um ex-funcionário graduado da KGB, Victor Ivanovich Sheymov. Ele diz que, logo depois da primeira visita de João Paulo II à Polônia, leu um telegrama assinado pelo então líder da União Soviética, Iuri Andropov, no qual estava escrito: "Precisamos de todas as informações possíveis de como ter acesso ao papa". Essa mensagem, segundo Sheymov, tinha um significado claro para os agentes. "Andropov queria assassinar João Paulo II", diz.

Na mesma semana em que saiu publicada a declaração de Agca, outra entrevista manteve o papa sob foco. O cardeal Karl Lehmann, presidente da Conferência Episcopal da Alemanha, teria afirmado num programa de rádio que João Paulo II deveria renunciar. A frase de Lehmann divulgada pelas agências de notícias foi: "O papa deveria ter a coragem de dizer 'Não posso mais exercer o cargo como se deve' ". De acordo com as agências, o cardeal acrescentou que a Igreja precisava de um homem forte que a conduzisse e que os religiosos próximos a João Paulo II eram partidários da renúncia. Diante do barulho que se armou no Vaticano, Lehmann negou que tivesse pedido a saída do pontífice. "Em resposta a uma pergunta sobre a hipótese de o papa abdicar, respondi ao repórter que estava certo de que, se João Paulo II chegasse à conclusão de que deveria renunciar por motivos de saúde, ele teria força para levar adiante essa decisão", explicou Lehmann.

Não importa o que disse o cardeal alemão, o fato é que a renúncia de João Paulo II, cada vez mais alquebrado pelo mal de Parkinson, é uma possibilidade real. Ela sempre esteve presente no Código de Direito Canônico, mas só foi regulamentada há quatro anos por João Paulo II, com a divulgação das novas regras do conclave, a assembléia de cardeais que elege o papa. Em maio de 1996, VEJA publicou uma reportagem que contava como a idéia da renúncia papal estava sendo discutida no Vaticano. É bobagem, porém, dizer que um grupo de cardeais possa forçar o pontífice a abdicar do trono de Pedro. Ninguém pressiona o papa, ele é um monarca absoluto. Leão XIII, que governou a Igreja entre o final do século XIX e o início do XX, chegou ao final de seu pontificado sem entender direito o que se passava à sua volta. Preocupado, um cardeal italiano sugeriu que ele fosse aposentado compulsoriamente. "Elegemos um santo padre, não um padre eterno", disse o prelado em 1901. Leão XIII morreu em 1903. Como papa.