Vaticano
Conexão Moscou
Ali Agca, que tentou matar o papa, estabelece
uma ligação entre a KGB e o atentado de 1981
Em 13 de maio de 1981, 40.000
pessoas reunidas na Praça de São Pedro, no Vaticano, foram
testemunhas de um capítulo dramático da história da Igreja
Católica: o atentado a tiros que quase tirou a vida de João
Paulo II. Preso em flagrante, o turco Mehmet Ali Agca diria
um ano depois que havia sido contratado para matar o papa
por três diplomatas búlgaros, que lhe prometeram 1,2 milhão
de dólares pelo serviço. Como na ocasião a Bulgária era
um satélite da União Soviética e o pontífice polonês estava
empenhadíssimo em derrubar os governos comunistas no Leste
Europeu, a história fazia sentido. Em 1985, no entanto,
ao ser interrogado novamente pelos promotores encarregados
do caso, Agca desmentiu sua confissão e afirmou que havia
disparado contra João Paulo II porque se considerava Jesus
Cristo e o fim do mundo estava próximo. Na falta de provas
de sua ligação com os búlgaros, a hipótese de que o turco
seria apenas um lunático acabou prevalecendo. Os diplomatas
foram inocentados e Agca foi condenado à prisão perpétua,
já que, diferentemente do que acontece no Brasil, maluco
que sai atirando por aí não tem colher de chá na Itália.
Desde então, o nome do turco volta e meia aparece em reportagens
e livros que tentam, sem sucesso, estabelecer uma conexão
concreta entre ele e os comunistas. Há alguns dias, Agca
voltou ao noticiário, só que de viva voz. Em entrevista
ao jornal inglês Sunday Times, afirmou que resolveu
bancar o doido porque, na época do processo, foi ameaçado
pela KGB, o serviço secreto soviético. De acordo com ele,
em dezembro de 1983 um magistrado búlgaro chamado Jordan
Ormankov, que acompanhava o processo, visitou-o na prisão,
junto com um intérprete. O intérprete seria, na verdade,
um agente soviético que se apresentou como Markov Petkov.
"A KGB quer ajudá-lo. Mas você deve negar tudo aquilo
que falou até agora. Se não o fizer, nós mataremos você
e sua família", teria dito Petkov a um Agca aterrorizado.
Essa história reforça a convicção dos adeptos da teoria
conspiracionista de que a idéia do atentado surgiu em Moscou
e que os soviéticos, por prudência, resolveram utilizar
os búlgaros na operação. Um dos juízes italianos que trabalharam
no caso, Ferdinando Imposimato, acredita que Agca está dizendo
a verdade. "Agca tinha oito passaportes falsos. Não
trabalhava e gastava 4.000
dólares por mês. Viajava sem problemas pelos países da Cortina
de Ferro. É óbvio que tinha apoio do bloco soviético",
afirmou Imposimato ao Sunday Times. O jornal cita,
ainda, um ex-funcionário graduado da KGB, Victor Ivanovich
Sheymov. Ele diz que, logo depois da primeira visita de
João Paulo II à Polônia, leu um telegrama assinado pelo
então líder da União Soviética, Iuri Andropov, no qual estava
escrito: "Precisamos de todas as informações possíveis
de como ter acesso ao papa". Essa mensagem, segundo
Sheymov, tinha um significado claro para os agentes. "Andropov
queria assassinar João Paulo II", diz.
Na mesma semana em que saiu publicada a declaração de Agca,
outra entrevista manteve o papa sob foco. O cardeal Karl
Lehmann, presidente da Conferência Episcopal da Alemanha,
teria afirmado num programa de rádio que João Paulo II deveria
renunciar. A frase de Lehmann divulgada pelas agências de
notícias foi: "O papa deveria ter a coragem de dizer
'Não posso mais exercer o cargo como se deve' ". De
acordo com as agências, o cardeal acrescentou que a Igreja
precisava de um homem forte que a conduzisse e que os religiosos
próximos a João Paulo II eram partidários da renúncia. Diante
do barulho que se armou no Vaticano, Lehmann negou que tivesse
pedido a saída do pontífice. "Em resposta a uma pergunta
sobre a hipótese de o papa abdicar, respondi ao repórter
que estava certo de que, se João Paulo II chegasse à conclusão
de que deveria renunciar por motivos de saúde, ele teria
força para levar adiante essa decisão", explicou Lehmann.
Não importa o que disse o cardeal alemão, o fato é que
a renúncia de João Paulo II, cada vez mais alquebrado pelo
mal de Parkinson, é uma possibilidade real. Ela sempre esteve
presente no Código de Direito Canônico, mas só foi regulamentada
há quatro anos por João Paulo II, com a divulgação das novas
regras do conclave, a assembléia de cardeais que elege o
papa. Em maio de 1996, VEJA publicou uma reportagem que
contava como a idéia da renúncia papal estava sendo discutida
no Vaticano. É bobagem, porém, dizer que um grupo de cardeais
possa forçar o pontífice a abdicar do trono de Pedro. Ninguém
pressiona o papa, ele é um monarca absoluto. Leão XIII,
que governou a Igreja entre o final do século XIX e o início
do XX, chegou ao final de seu pontificado sem entender direito
o que se passava à sua volta. Preocupado, um cardeal italiano
sugeriu que ele fosse aposentado compulsoriamente. "Elegemos
um santo padre, não um padre eterno", disse o prelado
em 1901. Leão XIII morreu em 1903. Como papa.