África
Resgate na areia
Rali ParisDacarCairo
ganha etapa
aérea para evitar terrorismo
Passava das 6 da tarde de quarta-feira
quando os doze trens de pouso de um imenso Antonov 124
o maior avião de carga existente tocaram o chão
do aeroporto da cidade de Niamei, no sul do Níger,
país da África saariana. Minutos depois, aterrissaram
outros dois aviões idênticos. Assim que as
portas foram abertas e os pilotos desceram do avião,
metidos em grossos pulôveres de lã, pôde-se
ter uma idéia da dimensão da operação
que estava sendo armada. Os três monstruosos aparelhos
tinham decolado de Kiev, gélida capital da Ucrânia,
e seriam usados para transportar oito helicópteros,
143 motocicletas, 150 carros, 77 caminhões, 2.500
toneladas de equipamento e 1.365 pessoas. Era a tralha completa
do rali ParisDacarCairo, que cruzou 1.500 quilômetros
do maior deserto do mundo a bordo dos aviões até
a cidade de Sabha, na Líbia. O sabor de um rali está
exatamente nos perigos e nas adversidades do percurso. Mas
como um dia antes os governos da França e dos Estados
Unidos tinham advertido sobre os riscos de um ataque de
terroristas argelinos em Níger, os desportistas preferiram
pular essa etapa da competição.
O alerta ocorreu depois que arapongas
franceses interceptaram transmissões de rádio
entre tribos de nômades tuaregues de Níger
e membros do Grupo Islâmico Armado, GIA, o mais impiedoso
movimento de fundamentalistas islâmicos da Argélia.
Nas conversas captadas, os terroristas planejavam emboscadas
na rota do rali e tomada de reféns. O Departamento
de Estado, em Washington, já havia advertido aos
cidadãos americanos em viagem pelo norte da África
que ficassem atentos à possibilidade de atentados.
Na quinta-feira passada, encerrou-se o prazo dado pelo governo
da Argélia para que os grupos armados islâmicos
depusessem armas em troca de anistia. O principal movimento
de oposição, a Frente Islâmica de Salvação,
aceitou dissolver seu braço armado, mas o GIA se
mantém irredutível. O Níger, que faz
fronteira com a Argélia, é um dos principais
abrigos dos guerrilheiros islâmicos, infiltrados entre
as populações nômades que circulam pelo
Saara.
Assustados com o tamanho da encrenca
em que poderiam meter-se, os organizadores do ParisDacarCairo
gastaram 5,8 milhões de dólares para fazer
o desvio aéreo que cortou cerca de 3.000 quilômetros
do trajeto inicial, de 11.000. Optaram por carregar o circo
inteiro pelos ares, no prazo assombroso de cinco dias. E
para isso foram buscar nos confins da Europa os Antonov
124. São mastodontes voadores, concebidos na antiga
União Soviética, com envergadura de 73 metros,
10 a mais que a de um Boeing 747. Cada uma das duas dezenas
de viagens levou uma dúzia de carros, quatro caminhões
e quantas motos couberam no espaço restante, o equivalente
a 90 toneladas de peso. Calejado em acidentes, assaltos
e mortes que aconteceram no rali em anos anteriores, o diretor
da prova Hubert Auriol, da empresa francesa Thierry Sabine,
decidiu não brincar com terroristas argelinos. Mesmo
porque, como se sabe, eles costumam atirar primeiro nos
franceses.