Edição 1 632 -19/1/2000

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África

Resgate na areia

Rali Paris–Dacar–Cairo ganha etapa
aérea para evitar terrorismo

Passava das 6 da tarde de quarta-feira quando os doze trens de pouso de um imenso Antonov 124 – o maior avião de carga existente – tocaram o chão do aeroporto da cidade de Niamei, no sul do Níger, país da África saariana. Minutos depois, aterrissaram outros dois aviões idênticos. Assim que as portas foram abertas e os pilotos desceram do avião, metidos em grossos pulôveres de lã, pôde-se ter uma idéia da dimensão da operação que estava sendo armada. Os três monstruosos aparelhos tinham decolado de Kiev, gélida capital da Ucrânia, e seriam usados para transportar oito helicópteros, 143 motocicletas, 150 carros, 77 caminhões, 2.500 toneladas de equipamento e 1.365 pessoas. Era a tralha completa do rali Paris–Dacar–Cairo, que cruzou 1.500 quilômetros do maior deserto do mundo a bordo dos aviões até a cidade de Sabha, na Líbia. O sabor de um rali está exatamente nos perigos e nas adversidades do percurso. Mas como um dia antes os governos da França e dos Estados Unidos tinham advertido sobre os riscos de um ataque de terroristas argelinos em Níger, os desportistas preferiram pular essa etapa da competição.

O alerta ocorreu depois que arapongas franceses interceptaram transmissões de rádio entre tribos de nômades tuaregues de Níger e membros do Grupo Islâmico Armado, GIA, o mais impiedoso movimento de fundamentalistas islâmicos da Argélia. Nas conversas captadas, os terroristas planejavam emboscadas na rota do rali e tomada de reféns. O Departamento de Estado, em Washington, já havia advertido aos cidadãos americanos em viagem pelo norte da África que ficassem atentos à possibilidade de atentados. Na quinta-feira passada, encerrou-se o prazo dado pelo governo da Argélia para que os grupos armados islâmicos depusessem armas em troca de anistia. O principal movimento de oposição, a Frente Islâmica de Salvação, aceitou dissolver seu braço armado, mas o GIA se mantém irredutível. O Níger, que faz fronteira com a Argélia, é um dos principais abrigos dos guerrilheiros islâmicos, infiltrados entre as populações nômades que circulam pelo Saara.

Assustados com o tamanho da encrenca em que poderiam meter-se, os organizadores do Paris–Dacar–Cairo gastaram 5,8 milhões de dólares para fazer o desvio aéreo que cortou cerca de 3.000 quilômetros do trajeto inicial, de 11.000. Optaram por carregar o circo inteiro pelos ares, no prazo assombroso de cinco dias. E para isso foram buscar nos confins da Europa os Antonov 124. São mastodontes voadores, concebidos na antiga União Soviética, com envergadura de 73 metros, 10 a mais que a de um Boeing 747. Cada uma das duas dezenas de viagens levou uma dúzia de carros, quatro caminhões e quantas motos couberam no espaço restante, o equivalente a 90 toneladas de peso. Calejado em acidentes, assaltos e mortes que aconteceram no rali em anos anteriores, o diretor da prova Hubert Auriol, da empresa francesa Thierry Sabine, decidiu não brincar com terroristas argelinos. Mesmo porque, como se sabe, eles costumam atirar primeiro nos franceses.