Edição 1 632 -19/1/2000

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O grito de Calabi

O presidente do BNDES declara guerra ao
estrangeiro em defesa do capital nacional

Leandra Peres

O presidente do BNDES,
Andrea Calabi, recebeu
de FHC a missão de mudar
o banco

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, BNDES, a maior fonte financiadora do governo para empresários, está trocando o pêlo. Na semana passada, três de seus principais diretores saíram em férias avisando que não voltam para o banco. José Luiz Osório, da área de privatização e cunhado do presidente do Banco Central, Armínio Fraga, pegou o boné e vai assumir a direção da Comissão de Valores Mobiliários. Fernando Perrone, responsável pelo setor de infra-estrutura, e Eduardo Rath Fingerl, da indústria, são os outros dois a abandonar o barco. Na origem da dança das cadeiras está a nova orientação adotada pelo banco. O comando do BNDES, sensível às mudanças na direção do vento político, resolveu adotar o discurso auriverde desde que o ministro Alcides Tápias assumiu a pasta do Desenvolvimento. O banco, que até 1999 emprestou 1,2 bilhão de reais para empresas estrangeiras participarem da privatização, pretende agora dar uma força maior às nacionais. "Nosso objetivo é tornar o capital nacional tão competitivo quanto o estrangeiro", diz Andrea Calabi, presidente do banco.

As pegadas verde-amarelas de Calabi podem ser vistas em vários negócios recentes em que o banco se envolveu. Num deles, no setor petroquímico, o presidente do BNDES chegou a tropeçar com Armínio Fraga, chefão do Banco Central. O caso é curioso e ainda deve dar pano para mangas. Acontece que o Banco Central se tornou dono de uma parte da empresa petroquímica Copene quando assumiu a massa falida do Banco Econômico. Agora, quer livrar-se do patrimônio pelo melhor preço. Para isso, o BC montou uma operação em conjunto com os grupos Odebrecht e Mariani, também sócios da Copene, para vender o controle da empresa à gigante americana Dow Chemical. Uma estrangeira. Na outra ponta, candidato a comprar a empresa, o grupo Ultra, nacional e menos pujante do que a Dow.

Ao saber desse acerto do Banco Central com os grupos Odebrecht e Mariani, Calabi resolveu gritar, para fazer valer a nova política de defender a bandeira nacional nos setores-chave da economia. Ele procurou Armínio Fraga para tentar desfazer o acordo. Não foi feliz. A saída que encontrou foi turbinar, com 750 milhões de reais, uma sociedade com o grupo Ultra para entrar na Copene. "Se não houvesse esse acordo do Banco Central, poderíamos ter entrado na Copene sem o dinheiro do BNDES", diz Paulo Cunha, presidente do Ultra. A intervenção do BNDES pode ser decisiva para manter a Copene sob controle do capital nacional. Deve render também um bônus político para o governo. Afinal, o dono do grupo Ultra é também um dos mais atuantes membros do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial, o Iedi, uma confraria de grandes empresários nacionais muito organizados e especializados em arrancar benefícios públicos.

O BNDES também atravessou um negócio importante que vinha sendo costurado no setor siderúrgico. O empresário Benjamin Steinbruch estava negociando a venda de ações na CSN e na Companhia Vale do Rio Doce à mineradora Arbed, com sede em Luxemburgo. Estava. O governo resolveu agir. Nesse caso, foi o próprio presidente Fernando Henrique Cardoso que entrou em ação. Mandou a Steinbruch o recado de que não quer ver a Vale do Rio Doce em mãos estrangeiras. A solução Arbed foi para a gaveta e o BNDES passou a articular uma saída nacional. No lugar da Arbed entraria de novo o dinheiro do contribuinte, dessa vez por meio da Previ, fundo de pensão do Banco do Brasil, e em companhia do Bradesco, que já são sócios de Steinbruch na Vale.

Essa é a toada com que o BNDES pretende usar seus recursos e poder daqui em diante. Não há mais disposição no banco para financiar os estrangeiros na compra das estatais mais apetitosas. Só as menos concorridas, principalmente do Nordeste, para onde será mais difícil atrair capitais, estariam livres dessa nova regra. "Para as empresas mais maduras, haverá algumas limitações de financiamento ao capital estrangeiro", diz Calabi. E, sempre que possível, o banco tentará fazer a balança pender para o lado do capital nacional. Foi o que aconteceu no caso da venda do Projeto Jari – o frustrado empreendimento do bilionário americano Daniel Keith Ludwig, no Amapá, que agora encontrou candidatos dispostos a reativá-lo. O grupo brasileiro Orsa, com financiamento do banco, venceu a disputa com o canadense Tembec e deverá ficar com o que restou do projeto na área de celulose.

Ao promover essas mudanças, Calabi está sofrendo fortes resistências. A saída de três diretores do banco é sintomática. José Luiz Osório não estava satisfeito com o fato de a privatização estar parada. No acordo com o Fundo Monetário Internacional, o Brasil previa arrecadar 28 bilhões de reais com a privatização em 1999. Só obteve 7,6 bilhões. "Não há entraves técnicos além dos habituais. A questão do atraso nas privatizações é política", diz Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central. O novo modelo de atuação do BNDES parece desafinado em relação à política econômica recente e pode sugerir uma volta ao passado. Nos tempos em que o país vivia como uma autarquia, isolado do mercado internacional por muros altos que protegiam as empresas locais, era o BNDES que viabilizava os projetos dos empresários nacionais – os bons, os maus e os malucos. O empresário entrava com a idéia, o banco com o dinheiro e o contribuinte com o risco. Tudo em nome do nacionalismo e do desenvolvimento. O viés nacionalista foi temporariamente abandonado nos últimos anos, quando prevaleceu a onda da abertura do mercado à concorrência estrangeira. Partiu-se, então, para o extremo oposto, com o banco financiando potências empresariais estrangeiras na disputa com as nacionais. Na ânsia de fazer caixa em dólar com as privatizações, o governo usou todos os recursos que tinha à mão.

A volta ao discurso nacionalista tem razões econômicas e políticas. Desde que iniciou o segundo mandato, o presidente Fernando Henrique Cardoso tem tentado dar um tom mais desenvolvimentista a seu governo. Agora, sem grandes turbulências na economia, o governo acredita ter chegado o momento de estabelecer uma estratégia de desenvolvimento nacional mais clara. A inflação está controlada, os juros contidos, há uma aparente folga cambial e um ingresso de 2 bilhões de dólares ao mês de dinheiro de fora para investimentos. Livre da necessidade desesperada de atrair capitais estrangeiros em grande quantidade, o governo encontrou espaço para equilibrar melhor os pratos da balança. Ofereceu aos empresários nacionais recursos em quantidade e a preços competitivos, como os que os estrangeiros obtêm lá fora. É uma operação complicada, porque há o risco de os estrangeiros interpretarem esses movimentos como um gesto inamistoso. Outro risco é que, sob o carimbo do nacionalismo, o dinheiro público vá regar de novo projetos inviáveis. A conferir.