Edição 1 632 -19/1/2000

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O futuro ex-ministro
da Defesa

Um interlocutor de Fernando Henrique
Cardoso garante: a queda é para já

Expedito Filho

Ichiro Guerra/Folha Imagem
Élcio Álvares recebendo continência militar:
na hora da crise, ele é que foi buscar apoio
dos subordinados

Na semana passada, um interlocutor do presidente Fernando Henrique Cardoso comentava que a queda do ministro da Defesa, Élcio Álvares, é uma questão de tempo. Ao que tudo indica, de pouco tempo, alguns dias apenas. Na terça-feira passada, o próprio ministro estava certo de sua demissão. "Não se preocupe, eu já não sou mais ministro", disse Élcio Álvares a sua mulher, Irene. Nem o próprio presidente Fernando Henrique Cardoso desmentiu o toque de recolher. "Enquanto eu não disser que não é, é ministro e tem todo o meu apoio", disse FHC numa cerimônia em São Paulo naquela manhã. Tinha óleo de fritura no contorcionismo verbal do presidente. O ministro não chegou a fazer as malas, mas imaginou-se de férias na praia de Setiba, no Espírito Santo, ao lado de filhos, netos e do único bisneto. Homem de fé kardecista, daqueles que acreditam na vida após a morte, naquele dia Élcio Álvares rezou antes de dormir. Na quarta-feira, em conversa de uma hora e meia no Palácio da Alvorada, disse ao presidente Fernando Henrique que o cargo de ministro era do presidente. Ao final, no entanto, deu um jeito de encaixar um discreto apelo. Sussurrou que gostaria mesmo era de continuar no cargo. "A consolidação do Ministério da Defesa encerra minha vida pública", disse.

Lula Marques/Folha Imagem
FHC (à esq.) e
Élcio: sombras
no Alvorada


Fernando Henrique impôs como condição que o ministro respondesse com vigor aos ataques que vinha sofrendo e restabelecesse a autoridade sobre seus comandados. Élcio Álvares vinha sendo acusado de ter traficantes entre os clientes de seu escritório de advocacia em Vitória. "Entrei no Palácio da Alvorada de alma leve, preparado para tudo. Se fosse demitido, eu entenderia", confessou. O fato é que o ministro continuou titubeante. Sua reação contra os ataques ficou aquém da esperada pelo Palácio do Planalto. Apesar de estar convencido de que as acusações de ligação de Élcio Álvares com traficantes não se sustentam, FHC exigiu que ele reagisse, o que não aconteceu. O pior: na sexta-feira passada, havia rumores de que novas denúncias poderiam vir a público, prejudicando ainda mais a situação de Élcio. Até o general Alberto Cardoso, ministro-chefe do Gabinete Militar da Presidência, reconheceu que a situação de Élcio Álvares no governo é desfavorável. "Como é um homem de bem, ele deve estar em situação desconfortável", disse. O general tem conversado com o presidente sobre o desfecho da crise, mas fecha-se em copas sobre o acsunto. Cardoso, que já esteve no coração das crises do grampo do BNDES, é um homem muito discreto. Só costuma abrir-se, em assuntos como esse, com o público interno.

Nascido em Ubá, Minas Gerais, Élcio Álvares entrou na vida política convidado pelos militares. Foi deputado federal pela Arena entre 1970 e 1974 e governador biônico do Espírito Santo entre 1975 e 1979. Eleito para o Senado em 1990 pelo PFL, comandou a tropa de choque do governo Collor no Senado ao lado de Antonio Carlos Magalhães. Ajudou a aprovar as reformas econômicas, administrativa e da Previdência, além da emenda que separou a carreira dos militares da dos servidores públicos civis. Ao tentar a reeleição em 1998, perdeu a vaga para Paulo Hartung. Decidiu deixar a vida pública e mandou reformar seu escritório de advocacia no Espírito Santo. Antes de embarcar sua mudança, recebeu o convite para assumir o Ministério da Defesa. Aparentemente, sua indicação foi uma espécie de prêmio de consolação pela derrota nas eleições, o que só serviu para irritar os militares.


Sérgio Dutti
General Alberto Cardoso sobre a crise: "A situação é desconfortável"

O fator decisivo para o fracasso, contudo, é que lhe falta tarimba para a função. Em primeiro lugar, não entende do ramo militar. E demora demais a tomar decisões. Não faltam ocasiões em que a hesitação do ministro obrigou o presidente a reagir por conta própria. Foi Fernando Henrique Cardoso quem demitiu o ex-comandante da Aeronáutica Walter Werner Bräuer, subordinado a Élcio Álvares que fez declarações simpáticas à CPI do Narcotráfico, em cuja mira estava Solange Resende, assessora especial do ministro. Numa tentativa de equilibrar a equação, o presidente mandou demitir também a assessora, cuja correção havia sido colocada em dúvida pelos membros da CPI. Era opinião dominante que Élcio deveria ter tomado a decisão de livrar-se de Solange ao primeiro sinal de que havia algum rumor contra ela na CPI, por ter supostamente defendido traficantes de tóxicos como advogada do escritório capixaba de Élcio Álvares. O ministro não apenas esperou para tomar essa decisão só depois da ordem do presidente como continua em contato permanente com a ex-assessora.

Os militares já estavam irritados havia muito com Solange Resende. Ao assumir o posto, Élcio Álvares colocava a auxiliar para participar de reuniões com os comandantes da Marinha, Exército e Aeronáutica. Isso irritava tremendamente os fardados, pois lhes parecia uma falta de consideração. No episódio recente em que soldados da Polícia do Exército agrediram jornalistas que faziam a cobertura do réveillon do presidente no Forte de Copacabana, no Rio de Janeiro, Élcio Álvares também se omitiu. Foi o presidente quem se manifestou contra a violência dos soldados do Exército.

Tom enfático – O ministro fez confusão até com a hierarquia em outro momento. No esforço para segurar-se na Esplanada dos Ministérios, Élcio Álvares procurou os subordinados para pedir apoio. Posteriormente, chegou a fazer declarações adulatórias. Para ele, o comandante da Marinha, Sérgio Chagastelles, é um "estadista". Gleuber Vieira, do Exército, um "legalista". E Carlos de Almeida Baptista, da Aeronáutica, um "talento". Num primeiro momento, esses gestos surtiram efeito. Os comandantes fizeram chegar ao presidente Fernando Henrique Cardoso manifestações de apoio à permanência de Élcio no poder. Na Aeronáutica, onde a turbulência adquiriu contornos mais fortes com a demissão de Walter Werner Bräuer, o comandante Baptista usou um tom mais enfático. "Seria uma pena, seria lamentável a saída de um ministro tão integrado às Forças Armadas", afirmou.

O fato é que essa boa convivência com os subordinados, combinada à falta de um bom nome para substituir Élcio Álvares, deu sobrevida ao ministro da Defesa. Fernando Henrique já estava certo de que insistir na manutenção do ministro à frente da pasta seria um erro. Dado o temperamento pouco agressivo que vem exibindo durante esta crise, até mesmo essa tendência a se colocar no mesmo patamar que os comandados, o ministro acabaria irremediavelmente tutelado por eles. Esse era o dilema do presidente Fernando Henrique Cardoso durante o desenvolvimento do caso Élcio Álvares. O problema é que o presidente não chegou a um nome. Trata-se de uma escolha difícil. FHC não quer um político e nem um leigo na matéria como substituto do atual ministro, mesmo porque já viu no que dá.

A criação do Ministério da Defesa é uma promessa da primeira campanha de Fernando Henrique à Presidência da República em 1994. Ter um Ministério da Defesa que coloque Marinha, Aeronáutica e Exército sob as ordens de um civil é extremamente benéfico para a saúde democrática de qualquer nação. Ainda mais para países com ditaduras militares no passado recente como o Brasil. É uma forma de lembrar cotidianamente a almirantes, generais e brigadeiros acostumados com o poder político que quem manda é o presidente eleito pelo voto. Ao tomar posse em 1995, Fernando Henrique entregou a missão de viabilizar o surgimento do novo ministério ao então ministro-chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, general Benedito Leonel. Coube a ele vencer as resistências contra a criação do Ministério da Defesa nas três forças. Dezenas de modelos foram estudados até meados de 1997. Foram recebidas informações sobre ministérios da Defesa de mais de 100 países. Um grupo de trabalho interministerial foi criado para elaborar o projeto de criação da versão brasileira do ministério. Entre outras coisas, o grupo de ministros, do qual os militares faziam parte, definiu o perfil ideal para o primeiro ministro da Defesa. "O fundamental era que ele tivesse capacidade decisória, uma boa visão internacional e conhecesse muito bem as Forças Armadas e principalmente o Brasil", diz um dos militares que pertenceram ao grupo interministerial. À luz dessa definição, a escolha de Élcio Álvares não poderia funcionar. Ao assumir o posto ainda em caráter extraordinário em janeiro do ano passado, disse que não conhecia nada de Forças Armadas. Também mostrou rapidamente que não tinha capacidade decisória, além de ter transformado sua assessora Solange Resende na principal liderança civil dentro do Ministério da Defesa.

Desde a criação do Ministério da Defesa, o grupo de engenheiros da Aeronáutica, oficiais mais ligados a funções de planejamento e operação em terra, está insatisfeito. Eles tinham domínio do Departamento de Aviação Civil, o DAC, da Infraero e da Embraer. Ocupavam funções de ponta, ganhavam mais e tinham como representante maior o ministro da Aeronáutica Lélio Lobo. A tutela do Ministério da Defesa os irritou. Qualquer tentativa de controle ou avaliação de serviços gerava arrepios nos engenheiros. A maneira que Élcio Álvares encontrou para ganhar fôlego foi a nomeação de um integrante do grupo dos aviadores, rival dos engenheiros, para o Comando da Aeronáutica. Escolheu o brigadeiro Carlos de Almeida Baptista. Um a um, os integrantes do grupo dos engenheiros foram perdendo poder para os aviadores. Assim, Élcio Álvares imaginava esvaziar os engenheiros e puxar o poder para si. Tudo que conseguiu foi fortalecer a Aeronáutica não em torno de si, mas do brigadeiro Baptista. De tanto titubear nas asas de seu cargo, Élcio Álvares perdeu a chance de entrar para a História como o primeiro civil bem-sucedido à frente do Ministério da Defesa.

Com reportagem de Valéria Blanc e Vladimir Netto