Riso contra a dor

Hospitais adotam as palhaçadas dos Doutores
da Alegria no tratamento de crianças doentes

Dona Elinalda e
o filho Paulo com os
Doutores: "mais ânimo"
Foto: Egberto Nogueira  

"A gente aqui fica abalada. São tantas crianças com problemas", queixa-se a dona de casa Elinalda Alves de Oliveira enquanto usa uma seringa para colocar um pouco de água na boca de seu filho Paulo Vinicius, de 1 ano e 1 mês. Paulo chora baixinho. São dias difíceis. Portador de um tumor canceroso no sistema nervoso, a vida do menino se confunde com suas inúmeras internações hospitalares. Chegou a ficar 32 dias no setor de oncologia do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas de São Paulo. Vinicius voltou a ser internado no início do mês. Dessa vez, para a extração cirúrgica do nódulo. A atmosfera sufocante de dor e tensão ganhou ar novo com a chegada de um grupo de visitantes incomuns. Eram os Doutores da Alegria, que realizaram mais uma visita de rotina à enfermaria cirúrgica do hospital. Durante quarenta minutos, os atores Juliana Gontijo, Raul Figueiredo e Wellington Nogueira comandaram a farra sob fantasias coloridas de palhaço. Implantaram uma bola de espuma vermelha no nariz do garoto, fizeram bolhas de sabão e cantaram músicas infantis ao som de violão. "Só Deus sabe quando vamos sair deste hospital, mas com os palhacinhos pelo menos temos um pouco mais de ânimo", diz Elinalda.

Criado há sete anos e implantado em seis hospitais de São Paulo, o grupo Doutores da Alegria acaba de expandir seus picadeiros. Um novo núcleo está em funcionamento em um hospital de Campinas, no interior do Estado, e em outros dois do Rio de Janeiro. No próximo ano o serviço deverá ser estendido a algumas capitais do Nordeste. A fórmula dos Doutores, inspirada em experiências semelhantes na Europa e nos Estados Unidos, é simples. Os 25 atores que integram o grupo utilizam técnicas circenses para satirizar os horrores da rotina hospitalar e tentar diminuir o trauma de crianças adoentadas (veja quadro ao lado). Eles fazem transplantes de nariz de espuma para que a criança perca um pouco do medo da cirurgia a que ela mesma foi submetida. Tiram sangue de animais de borracha para mostrar que não é preciso ter pavor da enfermeira que se aproxima com uma seringa pontiaguda. Também fazem a extração de um formigueiro imaginário escondido sob o lençol para ajudar a aliviar a sensação de formigamento da garotinha recém-saída de uma cirurgia. "Não somos palhaços de Deus, que chegam para fazer milagres e salvar vidas", observa Wellington Nogueira, diretor artístico do grupo. "Apenas deixamos as crianças um pouco mais alegres, e isso é bom para o tratamento." É mesmo.

Tragédia — A exemplo da terapia ocupacional e das técnicas tradicionais de recreação, o trabalho dos Doutores funciona como apoio terapêutico. Eles fazem sucesso porque contam com a força simbólica dos palhaços simpáticos que povoam as fantasias de crianças de todas as idades e não têm a pretensão de rivalizar com os avanços da medicina moderna. Uma tese de mestrado da psicóloga Morgana Masetti, de São Paulo, mostrou que as brincadeiras, na medida em que dão um descanso à ansiedade e ao stress da rotina hospitalar, ajudam os pequenos, seus pais e o próprio corpo médico a lidar melhor com a doença. Segundo a pediatra Cristina Jacob, do Instituto da Criança, "os Doutores da Alegria nos lembram que a vida em um hospital não precisa ser feita exclusivamente de dor e tragédia. O sorriso de uma criança é sempre possível".




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