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Televisão
Estranhas no ninho
No programa Troca de Família, mulheres têm de cuidar do
marido e dos filhos alheios. Que concluem que mãe é mesmo uma
só  Marcelo
Marthe Fotos
divulgação
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DONDOCA E O PALHAÇO | "Você
não acabou de falar que a gente ia almoçar no shopping? Eu vim para
esse programa para tirar uma semana de férias." Rozania,
mãe "perua" de uma família de classe média |
| "É
impossível uma mulher não saber nem fritar um ovo. Depois de três
dias, ela só conseguiu fazer uma lasanha de microondas." Pingolé,
palhaço e chefe de um clã de artistas circenses |
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Exibido nas noites de terça-feira da Rede Record, o programa Troca de
Família oferece ao espectador uma curiosa experiência antropológica.
Por uma semana, duas mulheres mudam-se para a casa uma da outra e assumem as responsabilidades
perante seu marido e seus filhos. Ao fim do processo, acompanhado pelas câmeras
do nascer do dia à hora de dormir, a forasteira tem de decidir como será
gasto o prêmio de 25.000 reais a que a família tem direito. A atração
é mais um reality show que faz dos conflitos familiares a sua pedra de
toque (vertente na qual se inclui ainda o Super Nanny, do SBT, em
que uma babá socorre pais em apuros). Trata-se da versão brasileira
de um sucesso da rede americana Fox, que por sua vez se inspira num similar produzido
pelo Channel Four inglês. Como a graça está em observar as
mães e suas novas famílias se estranharem, há o cuidado de
misturar gente de origem, classe social e comportamento radicalmente diferentes.
No primeiro caso apresentado, uma dondoca trocou de lar com uma artista de circo.
Ao constatar a precariedade do ônibus em que esta última vive, a
emergente Rozania esboçou uma cara de choro. "Vamos ver se a madame sabe
varrer o chão", ironizou o palhaço Pingolé, seu marido postiço
um rematado machista. Enquanto isso, a trapezista Elaine tentou pôr
os filhos adolescentes da outra na linha. Um dos garotos não deu moleza:
"Se ela pegar no meu pé, vai quebrar a cara".
O espectador se identifica com esse tipo de programa porque se vê diante
de questões com as quais tem de lidar diariamente e, claro, a uma
distância segura para se divertir de camarote com os defeitos de terceiros.
Famílias certinhas são confrontadas com outras que tratam a gestão
doméstica de forma, digamos, mais relaxada. Numa história que irá
ao ar em breve, a chegada de uma baiana disciplinada à casa de uma artista
plástica riponga de São Paulo provoca grande mal-estar, já
que a nova mãe se enoja do desmazelo e do fato de o gato de estimação
fazer sujeira na cozinha. "Se você acha que somos porcos, problema seu",
diz-lhe o marido. Num programa que oporá um clã de surfistas cariocas
a um casal paulistano obcecado por organização, o atrito também
é imediato. Ao tentar impor suas manias ao lar desencanado, a mãe
de São Paulo arranja encrenca até com a empregada.  | A
DISCIPLINADA E A RIPONGA | "A
cozinha está cheia de bactérias. É isso que vocês querem
trocar de experiência?" Mariene,
mãe de classe média baiana |
| "Ela
saiu de uma realidade diferente só para criticar minha mãe, que
faz tudo pela gente. Quero pular no pescoço dela." Vanessa,
filha de uma riponga paulistana |
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Outro ponto de tensão é a relação com os filhos. Na
história que está em exibição no momento, uma roqueira
troca de papel com uma caipira. Embora cause espanto pelo topete vermelho e pelas
tatuagens, Izabel revela-se uma mãe em moldes tradicionais, que se dá
bem ao corrigir o comportamento da filha mimada do casal. A interiorana Angélica
não tem a mesma sorte. Desentende-se com o filho rebelde da outra e decide
doar a parte do prêmio que daria a ele a uma instituição de
caridade. Foi o suficiente para minar qualquer chance de amizade entre os clãs
depois do programa. "A Angélica agiu com prepotência e não
acrescentou nada de bom a minha família", diz Izabel. Em tempo: a punição
infligida por Angélica não teve efeito prático. Embora o
programa venda a idéia de que o dinheiro será utilizado de acordo
com a vontade da mãe substituta, a Record o entrega diretamente à
família e não fiscaliza os gastos.  | A
SURFISTA E O CERTINHO | "Ele
fica me vigiando para ver se eu vou limpar direito. Mas não estou nem aí
com o que esse cara pensa de mim." Laila,
mãe de uma família surfista carioca |
| "A
Laila é uma estabanada." Santo,
pai de uma família ultra-regrada paulistana |
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Troca de Família tem obtido 10 pontos de média,
ibope satisfatório para depois das 10 da noite. Funcionaria melhor, é
verdade, se as histórias não se prolongassem por dois episódios
(como, de resto, se dá no original da Fox). Apesar desse porém,
é um experimento social dos mais interessantes. Comparar o comportamento
das famílias brasileiras ao das inglesas submetidas à mesma fórmula
é um exercício revelador. Na Inglaterra, a tônica é
a do confronto aberto, já que os maridos e filhos não fazem concessões
para assimilar a nova mãe, e vice-versa. No Brasil, as coisas tendem a
se encaminhar para um final conciliatório. Nem que seja só de fachada,
frise-se. Depois das rusgas, as pessoas contemporizam mas nem por isso
deixam de falar poucas e boas da intrusa, tão logo se livram dela. Outra
diferença: enquanto no programa inglês a aceitação
da nova mãe depende da reação do marido, no brasileiro isso
é definido pelo comportamento da própria recém-chegada. Por
mais machistas ou exigentes, os homens acabam se sujeitando à matriarca
de plantão. Ao contrário do que esperava Pingolé, a dondoca
que acampou em sua casa não moveu uma palha para fazer limpeza ou comida.
O palhaço ficou triste mas se conformou.  | A
CAIPIRA E O ROQUEIRO | "Ai,
que menino rebelde, credo. Estou me controlando para não pegar ele de jeito." Angélica,
mãe de uma família interiorana paulista |
| "Essa
mulher é autoritária e só quer me pegar para Cristo." Kim,
filho de uma roqueira paulistana |
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