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Edição 1978 . 18 de outubro de 2006

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Televisão
Estranhas no ninho

No programa Troca de Família, mulheres
têm de cuidar do marido e dos filhos alheios.
Que concluem que mãe é mesmo uma só


Marcelo Marthe

 

Fotos divulgação
A DONDOCA E O PALHAÇO
"Você não acabou de falar que a gente ia almoçar no shopping? Eu vim para esse programa para tirar uma semana de férias."
Rozania, mãe "perua" de uma família de classe média
"É impossível uma mulher não saber nem fritar um ovo. Depois de três dias, ela só conseguiu fazer uma lasanha de microondas."
Pingolé, palhaço e chefe de um clã de artistas circenses

Exibido nas noites de terça-feira da Rede Record, o programa Troca de Família oferece ao espectador uma curiosa experiência antropológica. Por uma semana, duas mulheres mudam-se para a casa uma da outra e assumem as responsabilidades perante seu marido e seus filhos. Ao fim do processo, acompanhado pelas câmeras do nascer do dia à hora de dormir, a forasteira tem de decidir como será gasto o prêmio de 25.000 reais a que a família tem direito. A atração é mais um reality show que faz dos conflitos familiares a sua pedra de toque (vertente na qual se inclui ainda o Super Nanny, do SBT, em que uma babá socorre pais em apuros). Trata-se da versão brasileira de um sucesso da rede americana Fox, que por sua vez se inspira num similar produzido pelo Channel Four inglês. Como a graça está em observar as mães e suas novas famílias se estranharem, há o cuidado de misturar gente de origem, classe social e comportamento radicalmente diferentes. No primeiro caso apresentado, uma dondoca trocou de lar com uma artista de circo. Ao constatar a precariedade do ônibus em que esta última vive, a emergente Rozania esboçou uma cara de choro. "Vamos ver se a madame sabe varrer o chão", ironizou o palhaço Pingolé, seu marido postiço – um rematado machista. Enquanto isso, a trapezista Elaine tentou pôr os filhos adolescentes da outra na linha. Um dos garotos não deu moleza: "Se ela pegar no meu pé, vai quebrar a cara".

O espectador se identifica com esse tipo de programa porque se vê diante de questões com as quais tem de lidar diariamente – e, claro, a uma distância segura para se divertir de camarote com os defeitos de terceiros. Famílias certinhas são confrontadas com outras que tratam a gestão doméstica de forma, digamos, mais relaxada. Numa história que irá ao ar em breve, a chegada de uma baiana disciplinada à casa de uma artista plástica riponga de São Paulo provoca grande mal-estar, já que a nova mãe se enoja do desmazelo e do fato de o gato de estimação fazer sujeira na cozinha. "Se você acha que somos porcos, problema seu", diz-lhe o marido. Num programa que oporá um clã de surfistas cariocas a um casal paulistano obcecado por organização, o atrito também é imediato. Ao tentar impor suas manias ao lar desencanado, a mãe de São Paulo arranja encrenca até com a empregada.

 

A DISCIPLINADA E A RIPONGA
"A cozinha está cheia de bactérias. É isso que vocês querem trocar de experiência?"
Mariene, mãe de classe média baiana
"Ela saiu de uma realidade diferente só para criticar minha mãe, que faz tudo pela gente. Quero pular no pescoço dela."
Vanessa, filha de uma riponga paulistana

Outro ponto de tensão é a relação com os filhos. Na história que está em exibição no momento, uma roqueira troca de papel com uma caipira. Embora cause espanto pelo topete vermelho e pelas tatuagens, Izabel revela-se uma mãe em moldes tradicionais, que se dá bem ao corrigir o comportamento da filha mimada do casal. A interiorana Angélica não tem a mesma sorte. Desentende-se com o filho rebelde da outra e decide doar a parte do prêmio que daria a ele a uma instituição de caridade. Foi o suficiente para minar qualquer chance de amizade entre os clãs depois do programa. "A Angélica agiu com prepotência e não acrescentou nada de bom a minha família", diz Izabel. Em tempo: a punição infligida por Angélica não teve efeito prático. Embora o programa venda a idéia de que o dinheiro será utilizado de acordo com a vontade da mãe substituta, a Record o entrega diretamente à família e não fiscaliza os gastos.

 

A SURFISTA E O CERTINHO
"Ele fica me vigiando para ver se eu vou limpar direito. Mas não estou nem aí com o que esse cara pensa de mim."
Laila, mãe de uma família surfista carioca

"A Laila é uma estabanada."
Santo, pai de uma família ultra-regrada paulistana

Troca de Família tem obtido 10 pontos de média, ibope satisfatório para depois das 10 da noite. Funcionaria melhor, é verdade, se as histórias não se prolongassem por dois episódios (como, de resto, se dá no original da Fox). Apesar desse porém, é um experimento social dos mais interessantes. Comparar o comportamento das famílias brasileiras ao das inglesas submetidas à mesma fórmula é um exercício revelador. Na Inglaterra, a tônica é a do confronto aberto, já que os maridos e filhos não fazem concessões para assimilar a nova mãe, e vice-versa. No Brasil, as coisas tendem a se encaminhar para um final conciliatório. Nem que seja só de fachada, frise-se. Depois das rusgas, as pessoas contemporizam – mas nem por isso deixam de falar poucas e boas da intrusa, tão logo se livram dela. Outra diferença: enquanto no programa inglês a aceitação da nova mãe depende da reação do marido, no brasileiro isso é definido pelo comportamento da própria recém-chegada. Por mais machistas ou exigentes, os homens acabam se sujeitando à matriarca de plantão. Ao contrário do que esperava Pingolé, a dondoca que acampou em sua casa não moveu uma palha para fazer limpeza ou comida. O palhaço ficou triste – mas se conformou.

 

A CAIPIRA E O ROQUEIRO
"Ai, que menino rebelde, credo. Estou me controlando para não pegar ele de jeito."
Angélica, mãe de uma família interiorana paulista

"Essa mulher é autoritária e só quer me pegar para Cristo."
Kim, filho de uma roqueira paulistana

 
 
 
 
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