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Cinema Um
trem desgovernado É como aparece
a família Hoover na comédia Pequena Miss Sunshine,
uma exceção à mesmice da produção independente
 Isabela
Boscov Divulgação
 | | Os
Hoover fazem sua refeição de frango frito e refrigerante: união,
só no desespero |
Não
há em Pequena Miss Sunshine (Little Miss Sunshine,
Estados Unidos, 2006) nenhum personagem que, com uma ou outra variação,
não tenha freqüentado tantos outros filmes independentes americanos.
Batem ponto aqui o pai ineficaz, a mãe estressada, o filho revoltado, o
tio suicida, o avô que perdeu as rédeas aquelas figuras abreviadas
com que os cineastas do gênero convencionaram exprimir que nem tudo vai
bem no sonho americano. Ou, mais precisamente, que ele virou um pesadelo, e que
o desajuste pessoal e familiar é a única conseqüência
possível de uma sociedade que cada vez mais se enxerga dividida entre "vencedores"
e "perdedores", sem que os últimos saibam como transpor o abismo que os
separa dos primeiros. O que há de surpreendente na comédia que estréia
nesta sexta-feira no país, porém, é o modo como ela transforma
em ponto forte esses elementos previsíveis que deveriam ser sua fraqueza.
Logo de início, um prato de resistência do gênero a
indefectível cena do jantar em família demonstra, primeiro,
que esses papéis tão típicos foram entregues a atores capazes
de torná-los excepcionais; e, segundo, que o casal de diretores formado
pelos estreantes Jonathan Dayton e Valerie Faris tem um senso incomum de timing
e de detalhe. Enquanto os Hoover empurram com soda limonada o frango frito comprado
numa lanchonete, sua reunião à mesa vai tomando a forma de um trem
descarrilhado: a filha pequena quer saber por que o tio tentou se matar, e, na
briga que se forma sobre qual seria a resposta adequada, quase é possível
ouvir o barulho do ferro desse trem descarrilhado se torcendo.
A menina, sem querer, prosseguirá na função de pivô
de discórdias. Interpretada por Abigail Breslin, de Sinais, sem
nenhum traço de precocidade, Olive tem mania de concursos de beleza infantis.
Por causa de uma desistência, é chamada para participar de um torneio
na Califórnia. O pai (Greg Kinnear), que tenta mas não consegue
emplacar um programa de auto-ajuda de sua criação, está à
beira da falência e não tem dinheiro para pagar passagens aéreas.
A mãe (Toni Collette) se recusa a deixar para trás o irmão
suicida (Steve Carell), o filho que há meses parou de falar (Paul Dano)
ou o sogro viciado em heroína e pornografia (Alan Arkin), já que
obviamente nenhum dos três está apto a prestar assistência
aos outros dois. A solução é viajarem todos juntos numa velha
Kombi, atravessando vários estados no calor e irritando-se mutuamente.
A viagem é péssima e a chegada ao destino, pior ainda: com sua barriguinha,
sua fantasia feita em casa e a coreografia indecorosa que o avô lhe ensinou,
Olive, até ali estrela apenas de inocentes eventos regionais, contrasta
de todas as maneiras possíveis com as assustadoras meretrizes mirins convocadas
para o concurso nacional. Como é
de praxe, esse choque tem um efeito salutar sobre a família. O que não
é de praxe, e é ainda mais salutar, é que o casal de diretores
não atribui o conflito a divergências de valores. Embora a princípio
pareçam estar divididos entre superficiais, niilistas e resignados, os
Hoover são muito mais coesos do que se supõe, e o que os desagrega
é tão-somente o fato de reagirem de formas diversas (embora unanimemente
desesperadas) à sua acelerada derrapagem rumo à probreza e ao que
eles imaginam ser então o fim de toda e qualquer perspectiva. (A dica,
aliás, está no seu sobrenome, um tributo irônico a Herbert
Hoover, presidente americano durante a Grande Depressão dos anos 30.) O
que Pequena Miss Sunshine quer, entretanto, não é relativizar
o impacto da ruína financeira sobre uma família. É apenas
lembrar que muito do que assombra os americanos hoje é fruto de sua própria
invenção. |